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 As 6 estreias da semana, por André de Leones

Atualizada em 17/2/12

Se houver alguma justiça no mundo ou, pelo menos, na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, a fábula deslumbrante de Martin Scorsese, A Invenção de Hugo Cabret, levará a maioria das 11 estatuetas a que foi indicada. Aos 69 anos de idade, Scorsese filma com o mesmo vigor dos 30, explorando a tecnologia 3D como ninguém para oferecer um filme cujo frescor agradará a espectadores de todas as idades.

Outro destaque é O Homem que Mudou o Jogo, com Brad Pitt, caso raro de história previsível tornada muito interessante graças a um diretor talentoso (Bennett Miller, de Capote).

Aos aficionados por filmes de ação, Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança retoma o obscuro personagem dos quadrinhos Marvel que já tinha virado filme em 2007 tendo o mesmo Nicolas Cage como protagonista.

Essas e outras estreias você acompanha a seguir.


A Invenção de Hugo Cabret | O Homem que Mudou o Jogo | A Dama de FerroMotoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança | Reis e Ratos | Caminho para o Nada


A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)

 

Martin Scorsese faz parte de uma das primeiras gerações de cineastas formados pelas modernas escolas de cinema, como a NYU, onde graduou-se e concluiu um mestrado, e onde também se formaram Jim McBride e Oliver Stone. Na medida em que é um grande fã e estudioso dos clássicos, realizou documentários muito importantes sobre a história do cinema (Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano e A Minha Viagem à Itália) e, como se não bastasse, luta para angariar fundos e restaurar obras-primas da cinematografia mundial por meio da sua World Cinema Foundation. O brasileiro Limite, de Mário Peixoto, é um dos filmes restaurados graças aos esforços de Scorsese. Assim, não há nada de atípico em A Invenção de Hugo Cabret em relação à carreira do diretor de Taxi Driver. Trata-se de mais uma expressão da relação, digamos, umbilical de Scorsese com o cinema.

O filme é, acima de tudo, uma homenagem a George Méliès e uma aula isenta de didatismos sobre a importância de se preservar a memória -individual, coletiva e da própria sétima arte. Baseado em livro de Brian Selznick, o enredo acompanha Hugo Cabret (Asa Butterfield), um órfão que vive por entre as paredes da estação de trem de Paris, em sua busca por desvendar um mistério relativo ao pai (Jude Law) e que acaba envolvendo o dono de uma loja de brinquedos (Ben Kingsley).

É notável a forma como a memória individual e a do cinema surgem entrelaçadas em A Invenção de Hugo Cabret. Dentre os muitos detalhes pungentes da história, está a importância de um filme de Méliès visto pelo pai de Hugo e sobre o qual teria falado com o filho. Talvez o primeiro ilusionista da história do cinema, o cineasta francês desenvolveu trucagens pioneiras que lhe possibilitaram narrar histórias fantásticas. Um de seus filmes mais célebres é Viagem à Lua (1902). Para Hugo, ter contato com a arte de Méliès acaba por se tornar uma forma de resgatar o pai, de tê-lo por perto mais uma vez ao passar pela mesma experiência sensorial.

O protagonista, em suma, procura entender o passado para apoiar-se nele e se lançar em direção ao futuro. Assim, não é por acaso que um filme tão nostálgico seja, também, o melhor até hoje a fazer uso da tecnologia 3D. Isso se dá porque em A Invenção de Hugo Cabret tudo é, de fato, tridimensional – a começar pelos personagens. A mágica do cinema extravasa a tela e ganha o mundo real, tornando-o menos árido e instaurando uma espécie de comunhão entre Hugo e seu pai e os demais personagens, e também entre todos nós e o cinema.

Clique aqui e leia entrevista com Martin Scorsese.

Dir. Martin Scorsese, EUA, 2011. Asa Butterfield, Ben Kingsley, Chloë Grace Moretz, Jude Law. 126 min.


O Homem que Mudou o Jogo (Moneyball)

Ainda que não seja um esporte popular na maior parte do mundo, o beisebol já rendeu filmes muito bem-sucedidos como Sorte no Amor, Fora da Jogada e, agora, este O Homem que Mudou o Jogo. Os exemplos citados são bem diferentes entre si, mas com algo em comum: não são “filmes de baseball”, mas com histórias excelentes que, por acaso, se passam naquele universo.

O Homem que Mudou o Jogo é baseado no livro Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game, do jornalista Michael Lewis, editor e colaborador da Vanity Fair e autor de vários best-sellers de não-ficção. Aborda uma investida pioneira do ex-jogador e gerente-geral dos Oakland Athletics, Billy Beane (Brad Pitt), ocorrida há dez anos. Contando com a ajuda de Peter Brand (Jonah Hill), um jovem economista formado em Yale, Beane montou uma equipe vencedora com pouco dinheiro e recorrendo a análises estatísticas dos jogadores. Esse método foi a princípio ridicularizado, mas, com o sucesso alcançado pelo time (vinte vitórias consecutivas, recorde na Major League), outras equipes acabaram encampando as ideias de Beane com o passar do tempo.

Em vez do triunfalismo e da catarse final tão caros a esse tipo de filme, o diretor Bennett Miller opta pela discrição. Há um plano logo no começo do filme em que Beane, sentado nas arquibancadas vazias de um estádio, acompanha pelo rádio uma partida de seu time. Ali, no silêncio quase absoluto, no vazio, Miller retém a imagem por alguns segundos além do habitual antes de cortar para a cena seguinte. É como se dissesse: “O filme é sobre esse cara, não o perca de vista”. Trata-se de um expediente cuja simplicidade não trai sua sofisticação.

Em certo sentido, O Homem que Mudou o Jogo é como o seu protagonista: persuasivo, focado e ciente de que, à medida que tudo se encaixar, os resultados virão.

Dir. Bennett Miller, EUA, 2011. Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman. 133 min.


A Dama de Ferro (The Iron Lady)

Esta cinebiografia merece ser vista pela atuação de Meryl Streep, e só. Poucas coisas são tão decepcionantes quanto assistir à reconstituição da trajetória de uma figura controversa que parece evitar, a todo custo, quaisquer controvérsias.

Margaret Thatcher, a despeito do esforço fenomenal de sua intérprete, não passa de uma sombra difusa errando pelo filme. O maior de todos os culpados é o roteiro. Com sua estrutura capenga, esbarra em pontos-chave da vida da ex-primeira ministra britânica sem discuti-los ou sequer contextualizá-los devidamente. A receita é conhecida: temos a biografada no ocaso de sua existência, senil, alucinando com o marido morto, enquanto flashbacks se acotovelam pela narrativa adentro.

Tal pobreza dramática contamina todo o resto. Observe-se, por exemplo, o modo como a diretora Phyllida Lloyd tenta resumir visualmente as relações de Thatcher com o então presidente americano Ronald Reagan: vemos os dois dançando no que parece ser um baile ‘caído’ no Clube Atlético Ypiranga.

São coisas que despertam um sentimento de vergonha alheia no espectador, e talvez a intenção fosse mesmo essa, vai saber? Nada é muito claro por aqui, exceto que A Dama de Ferro é um filme extremamente mal-educado em sua tremenda desinteligência cinematográfica.

Clique aqui para ler a crítica de Dave Calhoun, da Time Out London

Clique aqui para ler a entrevista com Meryl Streep no Festival de Berlim

Dir. Phyllida Lloyd, Inglaterra/França, 2011. Meryl Streep, Jim Broadbent, Olivia Colman. 105 min.


Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança (Ghost Rider: Spirit of Vengeance)

O Motoqueiro Fantasma é um personagem dos quadrinhos Marvel criado no começo da década de 1970 por Roy Thomas, Gary Friedrich e Mike Plogg. Ao fazer um pacto com Mefistófeles para salvar seu pai adotivo, o motociclista Johnny Blaze foi transformado no Motoqueiro Fantasma.

Depois de estrear nas telas em 2007, ele retorna neste filme em que tem a chance de se livrar de sua maldição ao aceitar proteger uma criança. O demônio estaria, digamos, inclinado a transformá-la no Anticristo (ou coisa que o valha) e, bem, isso não pode acontecer, não é mesmo?

Nicolas Cage volta a encarnar o personagem-título. Eva Mendes, estrela do primeiro filme, não participa deste, infelizmente.

Dir. Mark Neveldine & Brian Taylor, EUA, 2011. Nicolas Cage, Ciarán Hinds, Violante Placido. 95 min.


Reis e Ratos

O diretor de Meu Nome Não é Johnny retorna aos cinemas com esta comédia rocambolesca passada às vésperas do Golpe Militar de 1964. O início do filme envolve a explosão de um coreto, uma cantora de boate (Rafaela Mandelli) e um locutor paranormal (Cauã Reymond) e dá bem a medida do que virá a seguir.

Após esse prólogo, a história passa a ser entrecortada por flashbacks e envolve uma fauna de personagens que vão desde um agente da CIA caricato (Selton Mello) até um ex-cafetão viciado em anfetaminas (Rodrigo Santoro), todos de alguma maneira ligados a certa ala direitista preocupada em depor o presidente sem fazer uso direto das forças militares.

Reis e Ratos tem a seu favor o ineditismo: poucas vezes o cinema brasileiro abordou de forma tão inusitada o período histórico turbulento que acabaria por nos atirar no abismo ditatorial.

Dir. Mauro Lima, Brasil, 2012. Selton Mello, Rodrigo Santoro, Cauã Reymond, Seu Jorge. 111 min.


Caminho para o Nada (Road to Nowhere)

Depois das interrogações perpetradas por David Lynch em Cidade dos Sonhos e, sobretudo, Império dos Sonhos, pensava-se que não houvesse muito espaço para esse tipo de construção metalinguística. Ao que parece, o veterano Monte Hellman procura contornar esse suposto esgotamento em Caminho para o Nada.

No filme dentro do filme, acompanha-se a reconstituição de um assassinato seguido por suicídio. Quanto mais a narrativa avança, mais se embaralham as fronteiras entre as camadas de ficção.

Caminho para o Nada investe pesado na fragmentação, e as diversas peças do quebra-cabeça são mostradas sem a menor pressa. O filme é, portanto, o tipo de objeto que cabe ao espectador montar conforme lhe parecer melhor ou mais lógico.

Ao tecer questionamentos sobre a natureza da narrativa cinematográfica, Hellman faz uma viagem intrincada e difícil, é verdade, mas recompensadora para aqueles que estiverem dispostos a seguir nela até o fim.

Dir. Monte Hellman, EUA, 2011. Shannyn Sossamon, Tygh Runyan, Cliff De Young. 121 min.

Escrito por André de Leones
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