Cineminha hoje?

Sete filmes entram em cartaz na semana, por André de Leones

Divulgação/Imagem Filmes
Cena de Drive

Em uma semana com sete estreias, destacamos Drive. O premiado filme de Nicolas Winding Refn é devedor de toda uma tradição de cinema de ação vintage, mas está bem longe de ser um mero thriller. O cineasta dinamarquês se sai muito bem ao lidar com uma matéria-prima repisada, de tal maneira que o filme exala frescor.

Além de Drive, destacamos a viagem tortuosa empreendida por Minha Felicidade e a investida do brasileiro José Eduardo Belmonte no cinemão popular com Billi Pig.

Leia mais sobre esses e outros filmes logo abaixo.


Drive | Minha Felicidade | Billi Pig | Anjos da Noite - O Despertar |
Poder sem Limites | A Saga Molusco: Anoitecer | O Porto


Drive

 

Com ares de um certo cinemão norte-americano dos anos 80 e 90 do século passado, Drive é inteirinho escorado em uma trilha synthpop que comenta e fornece clima ao que é mostrado. Ryan Gosling encarna um tipo caríssimo ao cinema-com-culhões, the strong, silent type de que Tony Soprano dizia sentir saudades em suas sessões de análise. Talvez nem carecesse dizer, mas a performance dele é de um minimalismo macho que remete a esses tipos soturnos (mas de bom coração) do cinema de anteontem. Steve McQueen passou por aqui e deixou um abraço.

Exímio motorista, Gosling garante uns trocados como dublê capotando carros em filmes de Hollywood, fatura algum como mecânico e ganha bem mais dirigindo para assaltantes pelas ruas de Los Angeles com extrema perícia e sem muita correria, conforme nos mostra a impressionante sequência de abertura (que, sozinha, já justificaria o prêmio de Melhor Diretor que Nicolas Winding Refn ganhou em Cannes). Ele se envolverá com a vizinha, cujo marido não tardará a sair da prisão e se meter (e ao protagonista) em uma enrascada daquelas.

Como se compusesse imagens para comentar a trilha – e não o contrário –, Refn entrega um filme lento, quase contemplativo, de tal forma que a violência, quando irrompe, é inusualmente desacelerada. Poucas vezes, por exemplo, um beijo trocado por um casal dentro de um elevador me pareceu tão carregado pela brutalidade que virá a seguir. Na verdade, o beijo, ali, é quase um chiste que prenuncia o embate entre dois homens, um dos quais chegará ao térreo com a cabeça esmigalhada a pontapés.

Refn também escapa à tentação de transformar Drive em um mero objeto retrô, cool. Ele não procura apenas citar e reprocessar as possíveis influências, mas dá ao filme uma textura dolorosamente contemporânea que, mesmo remetendo a outras coisas, diz muito sobre a era glacial em que vivemos.

Dir. Nicolas Winding Refn, EUA, 2011. Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Oscar Isaac, Christina Hendricks. 100 min.


Minha Felicidade (Schastye Moe)

 

O cinema russo e das redondezas sempre foi bom em nos oferecer descidas desenfreadas. Até porque não há Unidade de Polícia Pacificadora que dê conta daquele inferno branco todo. E há também o fantasma pesadíssimo da Segunda Guerra Mundial. Vá e Veja, obra-prima de Elem Klimov, que o diga. No ucraniano Minha Felicidade, temos duas cenas-pesadelo que remetem à guerra. Em ambas, há o ensaio de uma certa hospitalidade, à qual sempre respondem com violência. O resto do filme tem lugar no presente. Nele, um caminhoneiro se perde ao seguir por um atalho. Emboscado por ladrões, ferido gravemente, ele como que é engolido pelas entranhas de seu próprio país. A câmera de Oleg Mutu descobre as pessoas para que Sergei Loznitsa, em seu primeiro longa-metragem, trate de enterrá-las vivas. Minha Felicidade não é, evidentemente, um passatempo, mas a franqueza com que revela aos nossos olhos o quanto esse mundo pode ser inabitável faz dele um exemplar do melhor cinema.

Dir. Sergei Loznitsa, Ucrânia/Alemanha/Holanda, 2010. Victor Nemets, Olga Shuvalova, Vladimir Golovin, Aleksey Vertkov, Dmitri Gotsdiner, Maria Varsami. 127 min.


Billi Pig

 

O cineasta José Eduardo Belmonte, responsável por filmes invulgares como Se Nada Mais Der Certo e Meu Mundo em Perigo, agora procura dialogar com o grande público. Billi Pig não deixa de ser uma homenagem às velhas chanchadas e apresenta uma série de personagens (uma aspirante a atriz, um corretor de seguros falido, um falso padre e, bem, um porco falante) cujo único objetivo é se dar bem na vida. Mais próximo da anarquia dos curtas do diretor, como Cinco Filmes Estrangeiros, que do radicalismo de A Concepção, Billi Pig tem boas chances de chegar a uma fatia maior de espectadores sem lançar mão da pobreza estética característica do nosso cinema comercial, aparentado da televisão no que ela tem de pior.

Dir. José Eduardo Belmonte. Brasil, 2012. Selton Mello, Grazi Massafera, Milton Gonçalves, Milhem Cortaz. 95 min.


Anjos da Noite – O Despertar (Underworld: Awakening)

 

A franquia Anjos da Noite chega ao seu quarto exemplar. Em O Despertar, a vampira interpretada por Kate Beckinsale acorda de um coma em que foi mantida por mais de uma década e descobre que tem uma filha. Esta é um poderoso híbrido de vampiro e lobisomem. Juntas, elas lutarão contra um inimigo engajado em dizimar ambas as espécies.

Dir. Mans Marlind & Björn Stein, EUA, 2012. Kate Beckinsale, Stephen Rea, Michael Ealy, Theo James, India Eisley, Sandrine Holt, Charles Dance. 88 min.


Poder Sem Limites (Chronicle)

 

Três adolescentes adquirem superpoderes após terem contato com uma substância misteriosa. O interessante, aqui, é o que ocorre quando eles começam a brincar com suas novas habilidades. Na medida em que são o que são, isto é, garotos, sua inconsequência terá resultados terríveis. Poder Sem Limites é mais um exemplar da forma narrativa celebrizada por filmes como A Bruxa de Blair, Cloverfield e Atividade Paranormal: tudo o que vemos são gravações feitas pelos próprios personagens. Custou míseros 12 milhões de dólares e faturou 22 milhões apenas em seu fim de semana de estreia nos EUA.

Dir. Josh Trank. Michael B, EUA/Inglaterra, 2012. Jordan, Michael Kelly, Alex Russell, Dane Dehaan. 84 min.


A Saga Molusco: Anoitecer (Breaking Wind)

 

Não há muito o que dizer sobre essa paródia descerebrada e eventualmente escatológica da ‘saga’ Crepúsculo, exceto que os responsáveis por rebatizar o filme em português fizeram um trabalho à altura do produto que precisavam vender. Assustador (no mau sentido, claro).

Dir. Craig Moss, EUA, 2011. Heather Ann Davis, Eric Callero, Frank Pacheco, Michael Adam Hamilton. 90 min.


O Porto (Le Havre)

 

O finlandês Aki Kaurismäki é um velho conhecido dos frequentadores de mostras e festivais. Seus filmes costumam ter abordagens irreverentes de temas sérios, com diversas implicações ideológicas, mas sem que isso seja um peso para o espectador desavisado – muito pelo contrário. Em O Porto, não é por acaso que há personagens chamados Marx e Monet. O primeiro é um engraxate cuja esposa está hospitalizada, com câncer. Ele esconde um menino africano, imigrante ilegal, do inspetor Monet. Fazendo uso de uma estética que lembra a de Robert Bresson, mas com efeitos contrários, Kaurismäki lança um olhar terno sobre esse mundo tão confuso, que tendemos a responder com um sorriso cúmplice enquanto percorremos a rica geografia humana traçada pelo filme.

Dir. Aki Kaurismäki, Finlândia/França/Alemanha, 2011. André Wilms, Kati Outinen, Jean-Pierre Darroussin, Blodin Miguel. 93 min.

Escrito por André de Leones
 

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