Entrevista: Michael Fassbender

O astro em potencial revela como enfrentou o difícil papel de um viciado em sexo, em Shame

Rob Greig/Time Out

Nas semanas que antecedem a entrevista, me dou conta do 'efeito Michael Fassbender’. Nem todos ouviram falar dele. Quer dizer, não até agora: este é um ano e tanto para o ator de 34 anos. A simples menção a seu nome faz com que os devotados fãs – de ambos os sexos – fiquem com as pernas bambas. “Ele é tão gostoso!”, exclama uma colega, geralmente muito mais reservada. Os homens se derretem em elogios. Alguns o apontam como o próximo Daniel Day-Lewis, o próximo Marlon Brando, o próximo na fila para interpretar James Bond. De todos esses, Fassbender prefere Brando: “Ele é meu herói. Isso é ridículo, eu sei, mas paciência”.

O mínimo que se pode dizer é que, quando Fassbender aparece na tela, é impossível tirar os olhos dele. O charme é seu maior atrativo. Mas há mais do que isso – basta olhar seu feroz Bobby Sands, em Fome, ou o alto oficial inglês cuja castração tem efeito cômico, interpretado por ele em Bastardos Inglórios. Ele foi um delicioso Byronic Rochester em Jane Eyre e muito simpático como o padrasto sedutor em Aquário. E, sim, fez com que X-Men: Primeira Classe se tornasse altamente palatável.

Alguns dias antes de nos encontrarmos, pude ver o charme de Fassbender em ação durante uma entrevista após a estreia de Um Método Perigoso, um dentre os vários filmes de que participou e que serão lançados nos próximos meses (ele gravou seis, um atrás do outro, durante uma maratona de 20 meses de trabalho árduo, incluindo À Toda Prova, de Steven Soderbergh, e Prometheus, de Ridley Scott). Dirigido por David Cronenberg, Um Método Perigoso retrata o poderoso conflito de egos entre Freud e seu pupilo Carl Jung, com uma pitada de sadomasoquismo por conta de Keira Knightley. 

Após o filme, Fassbender, que interpreta Jung, sobe ao palco e confessa de maneira encantadora ter uma queda (“de amigo”) por seu colega de elenco Viggo Mortensen. Não, afirma, ele não considera a atuação uma forma de terapia: “Isso seria autocomplacente, chato de assistir”. Quando lhe perguntam qual psicanalista faz mais seu estilo – o que só pensa em sexo, Freud, ou o místico Jung –, escolhe Jung. Para justificar, aponta para uma coluna no cinema: “Quando olho para essa coluna, é mais provável que me sinta conectado, em vez de vê-la como um pênis”. Atores muitas vezes se revelam inseguros e artificiais. Mas Fassbender transmite a impressão de ser humano bem resolvido. O público fica simplesmente extasiado.

Uma semana depois, nos encontramos em um hotel no Soho para conversar sobre seu papel como um viciado em sexo em Shame (leia a crítica aqui). Na minha opinião, é a mais interessante das novas produções estreladas por ele e sua segunda colaboração com o diretor Steve McQueen depois de Fome, em 2008. Quando chego, há um momento embaraçoso, do tipo “quem senta onde”. Totalmente minha culpa. Na verdade, é constrangedor ficar frente a frente com o homem que você acaba de ver nu em cenas de sexo em todas as posições imagináveis. Depois de três meses de uma intensa campanha publicitária em torno do filme, Fassbender já está acostumado com isso.

Mesmo considerando a força de nomes como McQueen e Fassbender, um longa sobre um viciado em sexo não seria exatamente minha primeira pedida. O tema, a princípio, parece pobre e cafona. Felizmente, Shame é tudo menos isso. O roteiro foi escrito por McQueen e Abi Morgan (The Hour) e trata-se de um poderoso e desconcertante estudo de personagem – talvez verse sobre a solidão e, ao mesmo tempo, o vício em sexo. Fassbender interpreta Brandon, o estereótipo do nova-iorquino bem-sucedido. Para o mundo exterior, ele vive um sonho. Tem um apartamento descolado (na verdade, um tanto estéril), um emprego fantástico, blusas elegantes de cashmere com gola ‘v’. Mas ele tem um segredo. Ele quer, ele precisa, sem parar, de sexo: contrata prostitutas; não consegue chegar ao final do dia sem se masturbar no banheiro do trabalho; seu computador é cheio de pornografia pesada; ele vaga por uma boate gay em busca de um boquete. Não há uma gota de prazer nisso tudo. É então que sua irmã (Carey Mulligan, uma loira platinada, destilando seu charme de capitã de equipe de basquete) aparece. Ela é o oposto de Brandon, carente, desorganizada, neurótica. Todos defeitos que transbordam à vista de todos.

Sem qualquer embasamento propriamente científico, proponho: Shame parece ser um filme particularmente difícil para o público feminino. Isso diverte Fassbender. Ele me encara com um sorriso sarcástico e olhos azuis cortantes. “Para as mulheres assistirem? Como você acha que foi para mim?” Justo. Mas, arrisco, nós assistimos ao filme embaraçados, vendo Brandon como um exagero da sexualidade masculina. Ele faz exatamente o que os psicólogos evolucionistas dizem ser a sina masculina: sexo com o maior número possível de mulheres.

Fassbender não compra a ideia. “Imagino que é isso o que várias garotas estão pensando. Mas definitivamente não é esse o cenário.” Ele faz uma comparação com o alcoolismo. “Muitas pessoas bebem socialmente. Mas elas não têm de acordar de manhã vomitando, injetando álcool em seu corpo apenas para que ele funcione. A maioria dos homens pensa muito em sexo. Nós sabemos disso. Mas, para alguém como Brandon, é uma compulsão. É aí que entra a culpa: quando você não está mais no controle de suas escolhas”. E ele ri: “Não se preocupe, seu namorado não é Brandon. Quer dizer, eu não sei... talvez seja?”.

Gostei muito de um comentário feito por McQueen no lançamento de Shame em Veneza. “É difícil ser um humano hoje em dia. Eu queria mostrar que somos frágeis. Não é algo bonito de se ver. Eu só queria tirar o caramujo da concha e permitir que olhássemos para nós mesmos.” Isso de certa forma resume o homem e seus filmes: subversivos, provocativos e excessivamente sinceros.

Depois de Fome, muita gente pensou que Fassbender estava enveredando por uma atu- ação metódica. Não é o caso, apesar de ele ter reduzido sua dieta a 600 calorias por dia com o intuito de perder 14 kg para interpretar Bobby Sands. Para Shame, ele conversou com viciados em sexo, mas seu negócio é mesmo ler e reler o roteiro. Quantas vezes? Cerca de 350. Caramba! “Tento fazê-lo dez vezes ao dia e costumo chegar a sete. Você acaba um pouco louco.”

“Corajoso” é um adjetivo que costuma ser mal utilizado pelos críticos para descrever uma atuação. Mas, ao menos aqui, é justificado. Quando Shame estreou no Festival de Cinema de Veneza, foi ovacionado durante sete minutos. Fassbender ganhou o prêmio de Melhor Ator e, desde então, tem recebido prêmios a uma velocidade maior que a de Brandon em suas conquistas. No início, deve ter parecido um papel arriscado para um ator em vias de se tornar um astro de primeira linha. Não é para isso que os agentes servem, afinal, para evitar que seus clientes se envolvam em filmes que possam, eventualmente, prejudicar sua imagem de símbolo sexual? Não, diz Fassbender. Ele não trabalharia com gente assim. “Isso é que é perigoso nessa profissão. As pessoas se preocupam com sua imagem e com sua marca. Esse não é meu trabalho. Não saio por aí para divulgar a marca Fassbender.”

A origem da “marca Fassbender” vem de longe. Nascido na Alemanha, filho de um alemão e de uma irlandesa, mudou-se para Killarney quando tinha dois anos de idade. Seus pais, hoje aposentados, tinham um restaurante, possivelmente de onde vem sua ética em relação ao trabalho. Mudou-se para Londres, onde vive até hoje em Hackney, quando tinha 17 anos. E foi então que encarou seu primeiro trabalho de nudez, estrelando um anúncio para uma companhia aérea sueca. “Me disseram que eu teria de ficar nu. Pensei que talvez teria algum tipo de... não sei... aparato.” Fassbender parece embaraçado. Ele estranha os comentários em torno das cenas de sexo no filme. “Seria mais normal se me vissem atirando na cabeça de alguém? Presumo que você já tenha feito sexo. A maioria das pessoas faz. Talvez seja algo em relação ao qual possamos ser normais o suficiente para tratar a respeito.”

Em seu discurso em Veneza, Fassbender chamou McQueen de “meu herói”. E me diz que o diretor mudou sua vida. McQueen afirma que, quando conheceu Fassbender, antes de Fome, achou-o arrogante. “É, ele não gostou de mim nem um pouco”, diz Fassbender, com um grande sorriso. “Eu estava na defensiva. Era um ator em busca de trabalho, lidando com muita rejeição. E tinha um lado áspero, inquisitivo, algo como: ‘O que você quer, afinal, ao se envolver com essa história?’” Hoje, os dois têm uma forte amizade. McQueen diz que não teria feito Shame sem ele. “Ele é um gênio. E quero trabalhar com o melhor ator que existe. Ele.”

Escrito por Cath Clarke
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