Cineminha?

As sete estreias da semana, por André de Leones

Imagem Filmes/Divulgação
Cena do filme 'Um Método Perigoso', de David Cronenberg

Levando-se em conta a fase atual da carreira de David Cronenberg, é um serviço de utilidade pública destacar todo e qualquer filme que ele venha a lançar. Um Método Perigoso resgata as figuras de Jung e Freud e os sobressaltos do começo do século XX com a discrição que o cineasta canadense vem exercitando em seus últimos trabalhos. A impressão é de que ele optou por desacelerar a fim de enxergar melhor o que quer que esteja abordando. Grandes artistas têm essa sacada.

Outros destaques são Heleno, filme de José Henrique Fonseca, estrelado por Rodrigo Santoro, sobre a turbulenta carreira do jogador Heleno de Freitas, ídolo do Botafogo nos idos de 1940, e uma animação: a norte-americana O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida.

Um Método Perigoso | Beleza Adormecida | Heleno | A Dançarina e o Ladrão

O Lorax | Fúria de Titãs | Novela das 8


Um Método Perigoso (A Dangerous Method)
 

Baseando-se no livro A Most Dangerous Method, de John Kerr, e na peça The Talking Cure, de Christopher Hampton, David Cronenberg realizou este filme de uma sutileza impressionante, algo como uma bomba de efeito retardado que vamos percebendo aos poucos, e muitas vezes só após a projeção.

Começa com o jovem Carl Gustav Jung (Michael Fassbender) colocando em prática as teorias psicanalíticas de Sigmund Freud (Viggo Mortensen) ao tratar Sabina Spielrein (Keira Knightley), então uma judia russa histérica. O malfadado envolvimento amoroso de Jung com Spielrein e o estremecimento das relações dele com Freud virão a seguir, mas o filme é muito mais do que uma pretensa reconstituição dessas e de outras passagens das vidas dessas pessoas.

O que temos é o próprio século XX se remexendo sobre as ossadas do anterior ao mesmo tempo em que coloca em marcha os acontecimentos que vão culminar na ascensão nazista e no Holocausto. O filme, é verdade, termina um pouco antes da Primeira Guerra Mundial, mas a sombra da Segunda já se faz presente quando, por exemplo, Jung diz a Spielrein que “os anjos falam alemão” e externa sua admiração por Richard Wagner, “o músico e o homem” (Wagner, compositor genial, foi um notório antissemita). Paralelamente, temos Freud passando uma descompostura em Spielrein por ela ter se envolvido com o ariano Jung, dizendo que “judeus serão sempre judeus”.

Claro, esta é uma leitura parcial do filme, visando apenas um dos seus inúmeros aspectos. O mais importante, aqui, é notar a extrema economia com que Cronenberg constrói o todo, usando de uma contenção que já percebíamos em alguns de seus melhores trabalhos, como Gêmeos – Mórbida Semelhança e Marcas da Violência. A contenção, no caso, é só mais um indício da riqueza de ideias propostas no decorrer da narrativa. Artista maduro, ele sabe que não precisa chamar a atenção para si ou para aspectos superficiais do filme para se expressar – o mais importante corre subterraneamente.

Dir. David Cronenberg, Reino Unido/Alemanha/Canadá, Suíça, 2011. Viggo Mortensen, Michael Fassbender, Keira Knightley, Vincent Cassel. 99 min. 


Beleza Adormecida (Sleeping Beauty)
 



Lucy (Emily Browning, de Sucker Punch) é uma prostituta, mas os serviços que ela presta são incomuns: toma um tranquilizante, adormece em um quarto cuja assepsia lembra um hotel gerenciado por um oficial nazista foragido e fica à mercê de senhores impotentes autorizados a fazer o que quiserem com a bela adormecida, exceto penetrá-la.

Assim, tão logo o espectador saia de uma animada sessão de Shame, talvez seja o caso de ele se submeter a este filme de Julia Leigh que parece ter muito em comum com aquele outro. Ambos comungam de um distanciamento, digamos, anglo-saxão. O problema é que, no caso de Beleza Adormecida, esse distanciamento tenta mascarar a falta de talento da realizadora, a sua incapacidade de abordar o que quer que seja com um mínimo de calor humano – para o bem ou para o mal.

A história do cinema tem alguns mestres da frialdade, como Stanley Kubrick e Michael Haneke. Ocorre que, nos filmes desses sujeitos, a postura deles não contaminava a história, a frieza do olhar não congelava os personagens e, por decorrência, os espectadores. Poucas coisas são ao mesmo tempo tão distanciadas e lancinantes quanto o desfecho de Nascido Para Matar ou a tentativa final de A Professora de Piano se entregar ao amado.

O caso de Beleza Adormecida é diverso. A exemplo do que acontece com os clientes da protagonista, não nos é permitido experimentar coisas tão básicas quanto um mísero contato humano. 

Dir. Julia Leigh, Austrália, 2011. Emily Browning, Rachael Blake, Ewen Leslie, Peter Carroll, Chris Haywood. 101 min. 


Heleno
 

Cinebiografia do jogador botafoguense Heleno de Freitas, cuja vida turbulenta dentro e fora dos gramados agitou o Rio de Janeiro, sobretudo na década de 1940. José Henrique Fonseca deita um olhar em preto-e-branco sobre o personagem, como se tivesse consciência de que tanto ele (sobretudo quando no auge) quanto o lugar em que vivia (a belíssima cidade do Rio de Janeiro daqueles tempos) parecem descolados da realidade. Assim, abre espaço para que a crueza transpareça no esforço interpretativo de Rodrigo Santoro, especialmente quando a saúde e a carreira de Heleno degringolam. 

Dir. José Henrique Fonseca, Brasil, 2011. Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Otton Bastos, Herson Capri. 116 min. 


A Dançarina e o Ladrão (El Baile de la Victoria)
 



Favorecidos pela anistia decretada pela recém-instaurada democracia chilena, o jovem ladrão Angel (Abel Ayala) e o veterano Vergara (Ricardo Darín) descobrem ter objetivos diferentes: o primeiro quer perpetrar um grande roubo que planejaram, ao passo que o outro está mais interessado em refazer a vida. A bailarina Victoria (Miranda Bodenhofer) cruzará os caminhos de ambos. O filme, dirigido pelo veterano cineasta espanhol Fernando Trueba, é uma adaptação do romance O Baile da Vitória, do chileno Antonio Skármeta (lançado no Brasil pela Planeta), e talvez agrade a alguns espectadores pela forma como ecoa o cinema de Ettore Scola e sua habilidade em misturar subtextos históricos com a vida íntima dos personagens. A conferir, entretanto, se Trueba alcança a sutileza do mestre italiano. 

Dir. Fernando Trueba, Espanha, 2009. Ricardo Darín, Abel Ayala, Miranda Bodenhofer, Ariadna Gil, Julio Jung. 127 min. 


O Lorax: em Busca da Trúfula Perdida
 

Esta animação feita a partir de um conto de Dr. Seuss (o mesmo autor de Como o Grinch Roubou o Natal, transformado em filme com Jim Carrey anos atrás) conta a história de um garoto que se alia ao Lorax, uma criatura ranzinza, para, juntos, salvarem uma floresta ameaçada. Estamos diante de uma fábula ecologicamente correta assinada pelos mesmos criadores de Meu Malvado Favorito, em que eventuais lições de moral jamais suplantam o bom humor com que tudo é encarado. 

Dir. Chris Renaud e Kyle Balda, EUA, 2012. Vozes de Zac Efron, Ed Helms, Danny DeVito, Taylor Swift. 86 min.


Fúria de Titãs 2 (Wrath of the Titans)
 

Os espectadores que cresceram nos anos 1980 talvez se lembrem do Fúria de Titãs original, que recontava o mito de Perseu usando a velha técnica de stop motion. Laurence Olivier interpretava Zeus e o filme, exibido com frequência na Sessão da Tarde, ainda hoje deve ter gosto de pão com requeijão e leite com Toddy para toda uma geração. O remake lançado em 2010 já ignorava a levada de matinê do original e era mais uma dessas aventuras genéricas e ensurdecedoras que fazem a alegria de adolescentes com sérios problemas hormonais (adolescentes de todas as idades, bem entendido). A continuação tem Jonathan Liebesman na direção, substituindo Louis Leterrier, o que não significa uma evolução, necessariamente. Liam Neeson e Ralph Fiennes seguem a bordo. 

Dir. Jonathan Liebesman, EUA, 2012. Sam Worthington, Liam Neeson, Ralph Fiennes, Edgar Ramirez, Rosamund Pike. 99 min. 


Novela das 8
 

Esta comédia nacional se passa em 1978, em plena Ditadura Militar, quando o Brasil vivia o sucesso da telenovela Dancin’ Days. Temos um grupo de personagens formado por uma prostituta e sua empregada foragidas, um policial federal que está no encalço de ambas, um diplomata, o líder de um grupo revolucionário e um rapaz gay que luta para ser aceito. Há a intenção de traçar um painel do Brasil naquele momento com vistas a entregar uma mensagem “positiva” ao público. Arrisque-se quem quiser. 

Dir. Odilon Rocha, Brasil, 2011. Claudia Ohana, Vanessa Giácomo, Mateus Solano, Alexandre Nero, André Ramiro.

Escrito por André de Leones
 

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