Cineminha hoje?

 As cinco estreias da semana, por André de Leones

Paramount/Divulgação
Charlize Theron, em 'Jovens Adultos'
Charlize Theron, em 'Jovens Adultos'

Alívio é chegar à Semana Santa e não se deparar com nenhuma investida ultraviolenta, antissemita e masoquista dirigida por Mel Gibson entre as estreias. Deus sabe que não sobreviveríamos a algo como A Paixão de Cristo II – A Ressurreição.

Temos, sim, o excelente Jovens Adultos, no qual a roteirista Diablo Cody ensina como transformar um enredo dos mais batidos em um filme de verdade. É sempre um prazer acompanhar uma história tão bem escrita, que subverte com gosto os clichês, por alguém incapaz de tratar o espectador como um débil mental.

Outro destaque é Xingu, superprodução brasileira sobre a expedição dos irmãos Villas-Bôas ao centro-oeste brasileiro dirigida por Cao Hamburger. Somando aí As Neves de Kilimanjaro, drama francês de Robert Guédiguian inspirado em Victor Hugo, podemos dizer que as estreias da semana estão, assim, divinas. 

Jovens Adultos | Xingu | As Neves do Kilimanjaro |

Espelho, Espelho Meu | Santos, 100 anos de Futebol Arte


Jovens Adultos (Young Adult)
 

A segunda parceria entre o diretor Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody nos parece ainda melhor resolvida do que a primeira, Juno, agraciada com um merecido Oscar de Roteiro Original. Embora não tenha sido lembrado pela Academia, Jovens Adultos é um olhar de gente grande sobre uma personagem que se recusa a crescer. Não fosse pelo desfecho sarcástico, o filme funcionaria como uma parábola sobre autodescobrimento e coisas do tipo. Felizmente, não é nada disso.

Charlize Theron interpreta uma autora de livros para adolescentes (ou “young adults”) que, recém-divorciada e mergulhando fundo na bebida, tem a ideia infeliz de voltar à cidadezinha natal, reconquistar o namorado dos tempos de colégio (Patrick Wilson) e, bem, ser feliz para sempre. Ele estar casado e ter um filho recém-nascido não passam de contratempos passageiros para ela. Quanto mais constrangimento causa a si mesma e aos outros, mais comprometida ela parece com o seu “projeto”.

Como já acontecia em Juno, não há lugar para condescendência. Cody desenha os personagens com traços econômicos, estabelece o arco narrativo sem maiores dificuldades e, a partir daí, tem todo o espaço do mundo para traçar desvios de rota muito bem-vindos. Assim, ela evita a previsibilidade e constrói a narrativa com cuidado, camada após camada. Nada parece forçado, e é mesmo um prazer assistir a um filme em que as pessoas na tela podem nos alegrar ou entristecer, jamais entediar. 

Dir. Jason Reitman, EUA, 2011. Charlize Theron, Patton Oswalt, Patrick Wilson, Elizabeth Reaser, Collette Wolfe. 94 min. 


Xingu
 

Orçado em R$ 15,5 milhões, este é o segundo filme mais caro da história do cinema brasileiro (o primeiro ainda é Lula, o Filho do Brasil). Mas, ao contrário do que acontecia no “filme” de Fabio Barreto, o espectador de Xingu verá cada centavo do que foi gasto na tela.

O diretor Cao Hamburger, cinco anos após O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, continua com as lentes viradas para o passado brasileiro. Se, no filme anterior, revivíamos a Ditadura Militar pelos olhos de uma criança, agora reembarcamos na odisseia dos irmãos Villas-Bôas pelo Brasil Central de sete décadas atrás.

É impossível não pensar em Brincando nos Campos do Senhor, o filme de Hector Babenco lançado há quase vinte anos, talvez o seu melhor, apesar de ter sido um fracasso de bilheteria.

Tanto Hamburger quanto Babenco fitam esse Brasil profundo com os olhos assustados de quem recém-despertou de um pesadelo. O fantasma da invasão e do extermínio em massa de indígenas pesa sobre ambos os filmes. 

Dir. Cao Hamburger, Brasil, 2012. João Miguel, Felipe Camargo, Caio Blat, Maiarim Kaiabi, Awakari Tumã Kaiabi, Maria Flor, Augusto Madeira. 102 min. 


As Neves do Kilimanjaro (Les Neiges du Kilimandjaro)
 

É interessante avisar aos saudosistas que este filme de Robert Guédiguian nada tem a ver com o clássico de Henry King, com Gregory Peck e Ava Gardner, baseado em conto de Ernest Hemingway e lançado em 1952. Guédiguian inspirou-se no poema Os Pobres, de Victor Hugo, para conceber a história de um casal de meia-idade, Michel e Marie-Claire. Eles são politicamente engajados e o marido, líder sindical, acaba de perder o emprego porque se recusou a participar de um sorteio que escolheria vinte pessoas para serem demitidas. Com viagem marcada para o monte Kilimanjaro, eles sofrem um assalto brutal. Ainda pior do que a agressão é descobrir que o autor do roubo é um ex-colega de trabalho de Michel que passa por dificuldades. É a deixa para Guédiguian destilar um questionamento ético sobre os limites (ou a ausência deles) das ações humanas em determinadas circunstâncias. 

França, 2011. Direção: Robert Guédiguian. Com Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin, Gérard Meylan, Marylene Canto. 90 minutos.


Espelho, Espelho Meu (Mirror, Mirror)
 

A rainha má Julia Roberts é o que há de melhor nessa adaptação da história da Branca da Neve. Há um tom farsesco e uns ares de Bollywood nos figurinos e nas danças. Shrek, com sua paródia inteligente dos contos de fadas, é uma referência aqui. Ou seja, há uma boa chance de que Espelho, Espelho Meu seja entretenimento digno, em que a ironia (o “Espírito Santo da época”, para roubar as palavras de Fitzgerald) desça eventualmente sobre ele – a despeito ou apesar do besteirol. 

Dir. Tarsem Singh, EUA, 2012. Julia Roberts, Lily Conlins, Armie Hammer, Sean Bean. 106 min. 


Santos, 100 Anos de Futebol Arte
 

 Alguns dos materiais de arquivo descobertos pela produção deste documentário têm um valor histórico inegável. Assim, os torcedores de outros clubes devem relevar o tom elogioso de alguns depoimentos e se concentrar naquilo que importa: o grande futebol exibido por algumas equipes e craques do Santos que, sim, fizeram história. Em tempo: Neymar não é melhor que Messi. 

Dir. Lina Chamie, Brasil, 2012. Depoimentos de Pelé, Carlos Alberto Torres, Neymar, Robinho, Marcelo Tas, José Miguel Wisnik, Xico Sá, José Roberto Torero e outros. 93 min.

Escrito por Time Out São Paulo editors
 

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