Time Out São Paulo

Cineminha?

 As oito estreias da semana, por André de Leones

Joe Carnahan acorda do coma artístico em que se meteu nos últimos dez anos e faz de A Perseguição uma releitura animal daquela máxima hobbesiana segundo a qual o homem é o lobo do homem. Aqui, para efeitos dramáticos, o lobo do homem é o lobo mesmo, e o filme é dos mais assustadores, biscoito fino em um gênero que tem sido maltratado nos últimos anos com suspenses feitos para (e por) adolescentes. Carnahan, por sorte, é sujeito crescido. Outros destaques são Americano, filme de estreia do cineasta-com-pedrigree Mathieu Demy, e a nova incursão cinematográfica pelo fantástico mundo ébrio de Hunter S. Thompson: Diário de um Jornalista Bêbado

A Perseguição | Americano | Diário de um Jornalista Bêbado | A Vida em um Dia | Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios | American Pie - O Reencontro | Flor da Neve e o Leque Secreto | Vale dos Esquecidos

  


A Perseguição (The Grey)

Um avião com empregados de uma empresa petrolífera cai no Alasca e, como se não bastasse, os poucos sobreviventes se veem perseguidos por lobos. Liam Neeson lidera o bando (de homens), e o filme é bem o que a sua curta sinopse entrega: um conto árido sobre seres humanos entregues à sua própria animalidade e, claro, aos lobos.

Há dez anos, Joe Carnahan conquistou alguma notoriedade com o seu segundo longa-metragem, Narc, policial de uma crueza que ainda impressiona. Por muito pouco, ele não dirigiu um exemplar da franquia Missão: Impossível, coisa que seria interessante observar. Em vez disso, perdeu tempo com A Última Cartada e Esquadrão Classe A.

Assim, é muito bom ver um artesão competente voltando a trabalhar com um material que lhe interessa. Em seus melhores momentos, A Perseguição é um primoroso trabalho de composição em que o mais importante é apenas sugerido. Olhos ameaçadores brilhando no escuro, uivos e rosnados vindos sabe-se lá de onde, tudo o que mal ou sequer vemos resultando bem mais assustador do que aquilo que de fato irrompe na tela.

Carnahan, portanto, segue com gosto a cartilha dos mestres: Hitchcock, o Spielberg de Tubarão, em que não vemos o bicho na maior parte do tempo, o John Carpenter de O Enigma do Outro Mundo e o Ridley Scott de Alien, cuja versão estendida deve ser evitada justamente por mostrar o que antes era sugerido. Em resumo, há um senso muito apurado de construção do suspense em A Perseguição e uma recusa em deitar eternamente no berço nada esplêndido dos clichês, coisa que as conversas à beira do fogo e, acima de tudo, o desfecho demonstram lindamente.

Dir. Joe Carnahan, EUA, 2011. Liam Neeson, Frank Grillo, Dermot Mulroney, Dallas Roberts, Joe Anderson, Nonso Anozie, James Badge Dale, Ben Hernandez Bray, Anne Openshaw. 117 min. 


Americano

É possível que resenhas e sinopses de Americano tragam a seguinte informação: seu diretor e protagonista, Mathieu Demy, é filho dos cineastas Jacques Demy e Agnès Varda. Não é uma informação irrelevante.

Neste seu primeiro longa-metragem, Demy não chega às alturas de Os Guarda-Chuvas do Amor, de seu pai, ou de Cléo das 5 às 7, de sua mãe, mas apresenta um cartão de visitas digno em que faz uma mistura dos estilos dos dois. Do pai, ele recupera o tom de fábula, algo fantasiador, por mais terrível que seja a realidade que teima em invadir a história. Da mãe, ele traz as discussões em torno do núcleo familiar, de sua desagregação e/ou reagregação, e uma levada que às vezes beira o documental.

Americano é protagonizado pelo próprio diretor. Ele interpreta um francês obrigado a viajar para a Califórnia, onde viveu parte da infância, para cuidar do traslado do corpo da mãe, recém-falecida.

O curioso é que, em flashbacks, Demy reutiliza imagens de um filme rodado por Varda em Los Angeles, em 1981, intitulado Documenteur, em que ele também interpretava o filho. Em Americano, o melhor fica por conta da viagem do personagem principal ao México, numa busca em que, por mais difícil que seja, atender ao derradeiro pedido da mãe é uma maneira de se despedir dela e, claro, reencontrar-se. 

Dir. Mathieu Demy, França, 2011. Mathieu Demy, Salma Hayek, Geraldine Chaplin, Chiara Mastroianni. 105 min. 


Diário de um Jornalista Bêbado (The Rum Diary)

Célebre inventor do Jornalismo Gonzo, Hunter S. Thompson já teve um de seus melhores livros adaptados pelo ex-Monty Python Terry Gilliam. Medo e Delírio em Las Vegas também era protagonizado por Johnny Depp e contava com a extraordinária inventividade de seu diretor. O espectador viajava em ácido e mescalina e alucinava junto com os personagens, numa experiência cinematográfica das mais alucinantes.

Infelizmente, Diário de um Jornalista Bêbado naufraga onde o outro filme navegava tão bem. Partindo de um romance de Thompson sobre um jornalista norte-americano que desembarca em Porto Rico nos anos de 1950, o diretor e roteirista Bruce Robinson não exibe a mesma empatia de Gilliam para com o autor. Depp reafirma a sua personificação da fala e dos trejeitos peculiares de Thompson, mas Robinson é incapaz de trazer à tela o inconformismo congênito do sujeito. A beleza do fraseado está lá, mas a música não reverbera. 

Dir. Bruce Robinson, EUA, 2012. Johnny Depp, Michael Rispoli, Amber Heard, Giovanni Ribisi, Aaron Eckhart, Richard Jenkins. 120 min. 


A Vida em um Dia (Life in a Day)

Este documentário compila milhares de registros feitos por internautas e postados no YouTube em um mesmo dia, 24 de julho de 2010. Ao todo, foram 4500 horas de gravações, feitas por 80 mil pessoas de 192 países. A ideia é montar uma espécie de caleidoscópio: a crônica de um dia feita por pessoas comuns espalhadas pelo mundo.

Dir. Kevin Macdonald, EUA, Reino Unido, 2011. 95 min.


Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios

Sétimo longa-metragem de Beto Brant, Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios explora um triângulo amoroso formado por um fotógrafo de passagem pela Amazônia e a instável mulher de um pastor evangélico. Baseado em romance de Marçal Aquino, colaborador de Brant desde a sua estreia com Os Matadores

Dir. Beto Brant, Renato Ciasca, Brasil, 2011. Gustavo Machado, Camila Pitanga, Zecarlos Machado, Gero Camilo. 100 min. 


American Pie - O Reencontro (American Reunion)

 

Recentemente, a Time Out Londres fez uma pesquisa junto a especialistas e elaborou uma lista com os cem filmes mais assustadores da história do cinema. Estranhamente, não foi citado nenhum filme da franquia American Pie. Este novo – e horripilante – exemplar traz o elenco original da série e nos dá a oportunidade de, talvez, repensar aquela lista. Fica a sugestão. 

Dir. Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg, EUA, 2012. Jason Biggs, Alyson Hannigan, Seann William Scott, Chris Klein, Thomas Ian Nicholas, Tara Reid, Mena Suvari, Eddie Kaye Thomas. 113 min.


Flor da Neve e o Leque Secreto (Snow Flower and the Secret Fan) 

 

Duas histórias seguem paralelas neste filme de Wayne Wang (do excelente Cortina de Fumaça e do meloso O Clube da Felicidade e da Sorte). Na China do século XIX, duas amigas superam a distância usando de uma linguagem secreta. Nos dias atuais, duas mulheres descobrem uma nova maneira de encarar a realidade a partir da lembrança de suas ancestrais. Com esses elementos, Wang investe na mais descarada pornografia do coração. “Emociona e faz pensar”, dirão nossas tias na saída do cinema. 

Dir. Wayne Wang, China, EUA, 2011. Gianna Jun, Bingbing Li, Archie Kao, Coco Chiang, Vivian Wu, Hugh Jackman. 104 min. 


Vale dos Esquecidos

  

Documentário sobre o conflito por terras no Mato Grosso. O filme destaca o caso da fazenda Suiá-Missu, conhecida nos anos de 1970 como o maior latifúndio do Brasil. Índios, grileiros, fazendeiros, sem-terra e posseiros brigam por fatias de terra na Amazônia.

Dir. Maria Raduan, Brasil, 2010. 72 min.

Escrito por André de Leones
Compartilhe

Comentários dos leitores

blog comments powered by Disqus

Outras notícias recomendadas

Os filmes da semana – 01/12/2016

Ceia de Natal da Casa Santa Luzia

Rodízio de brigadeiro