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As seis estreias da semana, por André de Leones

Aos poucos que saírem de uma sessão de Anjos da Lei devidamente enojados, uma péssima notícia: satisfeita com a bilheteria, a Sony já encomendou uma sequência. Não é o fim do mundo (ainda), mas o sucesso do filme traz mais uma boa oportunidade para mensurarmos, em números absolutos, a mendicância intelectual que torna o nosso mundo tão maravilhoso.

Se o espectador não é chegado a esse tipo de pesquisa antropológica, talvez seja o caso de optar por um outro: Marcos Prado, diretor de Estamira, explora o universo jovem frente às drogas sintéticas em Paraísos Artificiais, título furtado do clássico livro de Charles Baudelaire em que ele aborda os “estados de exaltação” provocados pelo uso de entorpecentes.

Anjos da Lei | Paraísos Artificiais | Amor e Dor | Conspiração Americana
Um Homem de Sorte | Paralelo 10 


Anjos da Lei (21 Jump Street)

A série televisiva Anjos da Lei (1987-1991) foi a primeira produção de um canal fechado, a FOX, a obter mais audiência do que a programação das redes abertas. Era sobre um bando de jovens policiais que, trabalhando em uma unidade especial, infiltrava-se em escolas secundárias e outros ambientes frequentados por adolescentes. De certa forma, dada a relativa crueza com que abordava algumas situações (lembro-me de um episódio particularmente chocante, passado em uma prisão juvenil), a série abriu caminho para biscoitos finos como Homicide e The Wire. Já o remake que chega agora aos cinemas brasileiros nada tem a ver, em espírito e intenções, com seu original.

O filme Anjos da Lei é uma comédia adolescente grosseira, uma espécie de American Pie com armas e perseguições cuja única qualidade está na autoconsciência evidente, a certa altura, na fala de um dos personagens: referindo-se à unidade de jovens policiais infiltrados, um oficial diz que se trata de mais uma porcaria dos anos oitenta reciclada, feita para enganar os otários. Com isso, ele descreve lindamente o que é o filme e arranca algumas risadas honestas da plateia, que depois terá de lidar com a explosão de um caminhão cheio de galinhas, as participações não exatamente especiais dos astros do seriado, Johnny Depp e Peter DeLuise, e o pênis do vilão arrancado a tiro e depois abocanhado pelo próprio, para fins de reimplante. Boa sorte com isso. 

Dir. Phil Lord e Chris Miller, EUA, 2012. Channing Tatum, Jonah Hill, Brie Larson, Dave Franco, Rob Riggle, DeRay Davis, Ice Cube. 109 min. 


Paraísos Artificiais

 “Só tem pervertido e drogado nesse filme”, reclamou um espectador ao abandonar a sessão de Paraísos Artificiais no Cine PE, em fins de abril. A verdade, contudo, é que o filme, ambientado na cena da música eletrônica, não faz apologia do uso de drogas, mas tampouco é moralista em relação a isso. E é essa amoralidade que provavelmente incomodou aquele espectador. Nesse caso, ponto para o filme. É irritante ir ao cinema e ser tratado como um débil mental por “historinhas-com-moral”.

A narrativa do filme avança, retrocede e gira em torno da problemática relação amorosa entre Érika (Nathalia Dill), uma DJ, e o desenhista Nando (Luca Bianchi), que logo se envolverá com o tráfico de ecstasy e LSD. 

Dir. Marcos Prado, Brasil, 2012. Nathalia Dill, Luca Bianchi, Lívia de Bueno, Bernardo Melo Barreto, César Cardadeiro, Divana Brandão, Emilio Orciollo Neto. 96 min. 


Amor e Dor (Love and Bruises)

Hua (Corinne Yam), uma estudante chinesa em Paris, conhece Matthieu (Tahar Rahim), um francês operário da construção civil. A relação amorosa logo se desestabiliza graças aos ciúmes e à crescente violência dele em relação a ela, tanto que Hua cogita voltar para a China. O diretor Lou Ye traz a câmera para bem perto dos personagens, ao ponto em que o espectador quase não consegue mais discernir o que é sexo do que é violência, ou, melhor dizendo, onde um termina e o outro começa. O filme inteiro, aliás, pode ser visto como um jogo de aproximação, distanciamento e reaproximação. Uma espécie de dança que sempre ou quase sempre machuca. 

Dir. Ye Lou, França, China, 2011.Corinne Yam, Tahar Rahim, Jalil Lespert, Vincent Rottiers, Sifan Shao, Patrick Mille. 105 min. 


Conspiração Americana (The Conspirator)

Como diretor, Robert Redford tem uma trajetória irregular desde que estreou – e foi premiado com o Oscar – em 1980, com Gente Como a Gente. São dele dramas abestalhados como Nada é Para Sempre e Lendas da Vida, mas também reflexões sobre aspectos da vida americana como Quiz Show e Leões e Cordeiros. Em Conspiração Americana, ele pinta uma tela mais larga ao enfocar o drama de Mary Surratt (Robin Wright), acusada de integrar a conspiração que resultou no assassinato do presidente Abraham Lincoln. É, basicamente, um filme de tribunal repleto de palavras e discussões grandiloquentes, mas condizentes com um país que procura se ressituar no mundo e em relação a si mesmo. Os EUA pós-Guerra da Secessão talvez tenham algo a dizer aos EUA pós-Guerra do Iraque. 

Dir. Robert Redford, EUA, 2010. James McAvoy, Robin Wright, Kevin Kline, Evan Rachel Wood, Tom Wilkinson, Justin Long, James Badge Dale, Johnny Simmons, Toby Kebbell. 122 min. 


Um Homem de Sorte (The Lucky One)

Scott Hicks (Shine – Brilhante) dirige essa adaptação de um romance de Nicholas Sparks, autor de Querido John, Diário de uma Paixão e outros livros contraindicados para diabéticos em particular e pessoas bem alfabetizadas em geral. Aqui, um fuzileiro naval servindo no Iraque encontra a foto de uma mulher em meio a uns destroços e escapa por pouco de morrer numa explosão. Acreditando que ela é uma espécie de talismã que lhe salvou a vida, vai ao seu encontro tão logo retorna aos EUA e, bem, não é difícil imaginar o resto. 

Dir. Scott Hicks, EUA, 2012. Zac Efron, Taylor Schilling, Blythe Danner. 101 min. 


Paralelo 10

 

 Documentário sobre o trabalho do sertanista José Carlos Meirelles e do antropólogo Terri Aquino em sua tentativa de proteger os índios isolados no paralelo 10º Sul, no oeste do Acre, fronteira com o Peru. Além do relacionamento tenso com alguns índios isolados, eles têm de lidar ainda com traficantes e posseiros que tentam invadir a região. 

Dir. Silvio Da-Rin, Brasil, 2012. 87 min.

Escrito por André de Leones
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