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Cineminha hoje!

As cinco estreias da semana, por André de Leones 


O documentário Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat, parte de uma história íntima, familiar, para pincelar uma história maior, concernente ao período mais terrível da Ditadura Militar iniciada em 1964. É uma abordagem instigante, um olhar de dentro para fora (e para dentro outra vez) que tem muito mais a nos dizer do que quaisquer didatismos. Na contramão, há as alternativas escapistas para os espectadores interessados apenas em se distrair: Battleship – A Batalha nos Mares está aí para ensurdecer um pouco mais o seu público, e O Exótico Hotel Marigold aporta com as melhores intenções, um elenco respeitável e um enredo dos mais agridoces.

Uma Longa Viagem | Battleship - A Batalha dos Mares | O exótico Hotel MarigoldLuz nas Trevas - a Volta do Bandido da Luz Vermelha | Piratas Pirados! 

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UMA LONGA VIAGEM
 


Lúcia Murat estreou na direção de longas em 1988 com o rascante Que Bom te Ver Viva, em que os depoimentos de oito mulheres, ex-militantes presas e torturadas pela Ditadura Militar, eram intercalados com um monólogo interpretado por Irene Ravache. A estrutura de Uma Longa Viagem é similar, mas a odisseia é ainda mais intestina, uma vez que a própria família da diretora é enfocada. Mais especificamente, ela e seus dois irmãos, Miguel e Heitor.

Ativista do movimento estudantil, Lúcia foi presa em 1971. Ficaria três anos encarcerada. Temerosos de que o irmão caçula, Heitor, tivesse o mesmo destino, seus pais o mandaram para a exterior. Heitor faria, então, um outro tipo de mergulho, na estrada (em nove anos, viajaria por inúmeros países, desde os EUA até a Índia, passando por Afeganistão e Marrocos), nas drogas, no misticismo e, por fim, na esquizofrenia.

Enquanto isso, o irmão mais velho, Miguel, formou-se em Medicina e constituiu família. As trajetórias desses três irmãos, sobretudo a de Heitor, ajudam a iluminar um dos períodos mais tenebrosos da história recente brasileira. Por todo o documentário, perpassa a ideia de ruptura, tanto familiar quanto política, e, por fim, psicológica.

Dir. Lúcia Murat, Brasil, 2012. Caio Blat, Lúcia Murat, Heitor Murat. 97 min.

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BATTLESHIP – A BATALHA DOS MARES (Battleship)
 


Há semanas que os frequentadores de cinemas têm sofrido com o trailer barulhento deste filme. O diretor é o mesmo Peter Berg de O Reino e Hancock e Battleship é bem o que o trailer esmurra em nossos olhos e ouvidos: uma frota naval enfrentando uma força desconhecida em alto-mar. Pensemos no personagem interpretado por Bill Paxton em Aliens – O Resgate, o soldado Hudson, um sujeito bronco e chatíssimo em sua ostensiva presença militar. Agora, imagine que, antes de ser destroçado por aqueles aliens, ela tenha dirigido um filme. Pois bem, isto é Battleship. Não consigo pensar em um jeito melhor de descrevê-lo. Ah, sim: Rihanna está no elenco.

Dir. Peter Berg, EUA, 2012. Liam Neeson, Alexander Skasgard, Rihanna, Taylor Kitsch, Brooklyn Decker. 131 min.

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O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD (The Best Exotic Marigold Hotel)


Um bando de britânicos aposentados embarca para a Índia. A ideia é se hospedar no que os anúncios descreviam como "um luxuoso hotel recém-reformado", mas o que encontram é um lugar caindo aos pedaços. Contrariando as expectativas (e a verossimilhança), os hóspedes aos poucos vão se deixar inebriar pelas cores e pelo, bem, exotismo do lugar.

Você já sabe o que esperar: uma história para cima sobre o que o jargão politicamente correto costuma chamar de “melhor idade”. Seja como for, o elenco é de pesos-pesados e John Madden é o mesmo que dirigiu o oscarizado Shakespeare Apaixonado, dois ou três séculos atrás. Aqui, a mensagem é: seja velho, vá para a Índia e seja feliz. Ou coisa que o valha.

Dir. John Madden, Reino Unido, 2011. Judi Dench, Tom Wilkinson, Maggie Smith, Bill Nighy, Penelope Wilton. 124 min.
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LUZ NAS TREVAS – A VOLTA DO BANDIDO DA LUZ VERMELHA


O Bandido da Luz Vermelha, filme de Rogério Sganzerla lançado em 1968, é um clássico do chamado Cinema Marginal. Inspirando-se em uma história real, o diretor exibia todo o vigor e a desfaçatez de seus então 22 anos, construindo uma narrativa entrecortada que se apropriava lindamente do tom da imprensa sensacionalista (vide a narração radiofônica), da autoironia à Jean-Luc Godard e da cultura pop. O Bandido original também fez a proeza de conciliar experimentalismo e sucesso de público. Ainda hoje (daí ser chamado de “clássico”) é uma obra relevante, politicamente poderosa e divertidíssima.

Quase meio século depois, a viúva de Sganzerla, Helena Ignez, filma um roteiro deixado pelo marido, falecido em 2004. Ao mesmo tempo em que reencontramos o velho bandido na cadeia (interpretado por Ney Matogrosso), acompanhamos o seu filho assaltante, Tudo-ou-Nada (André Guerreiro Lopes), aqui fora. Ignez reaproveita a gramática de Sganzerla e, ao fazer isso, tece um comentário sobre o que mudou no Brasil desde 1968. O desfecho, contudo, e diferentemente do filme anterior, aponta noutra direção, de um renascimento já sugerido desde o título.

Dir. Helena Ignez e Ícaro Martins, Brasil, 2012. Ney Matogrosso, André Guerreiro Lopes, Djin Sganzerla, Maria Luísa Mendonça, Simone Spoladore. Duração não informada.

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PIRATAS PIRADOS! (The Pirates! Band of Misfits)
 


Animação em stop motion dos mesmos criadores de Wallace & Gromit e Fuga das Galinhas, Piratas Pirados! reitera o que a maioria dos cinéfilos já sabe: há mais vida inteligente em certas produções teoricamente feitas para a garotada do que na maior parte dos filmes “adultos” que assolam as telas. Qualquer pessoa que tenha visto os citados acima e obras-primas como As Bicicletas de Belleville e Wall-E tem plena consciência disso.

Dir. Peter Lord e Jeff Newitt, Reino Unido, EUA, 2012. Vozes de Hugh Grant, Martin Freeman, Imelda Staunton, David Tennant, Salma Hayek. 88 min.

Escrito por Escrito por André de Leones
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