Cinema nas sombras - 22 de junho

André de Leones comenta as estreias da semana

Warner Bros./ Divulgação
Sombras da Noite traz de volta os cacoetes de Tim Burton


Salvo engano, Tim Burton lançou até o momento quinze filmes de longa-metragem. Destes, oito são protagonizados por Johnny Depp. Nada contra longas parcerias (Martin Scorsese/Robert De Niro e Werner Herzog/Klaus Kinski mostram o quanto elas podem funcionar), mas o cansaço inerente a Sombras da Noite sugere que umas boas férias para Burton, Depp e nós mesmos (em relação a eles) talvez fosse o mais indicado a essa altura. O filme, sejamos claros, não é grande coisa, como, aliás, não o são os últimos cinco ou seis filmes do cineasta. No entanto, e isso se aplica a qualquer diretor cujo estilo acaba se transformando numa mera coleção de cacoetes, talvez haja no filme elementos suficientes para agradar àqueles fãs mais entusiasmados.

E, por falar em cacoetes, Febre do Rato estreia para que o espectador descubra se, afinal, Claudio Assis conseguiu fazer um filme menos para si e mais para os outros. A generosidade e a sutileza nunca foram características do cineasta pernambucano, mas a esperança dos cinéfilos segue, se me permitem o palavrão, imorredoura.

Sombras da Noite | Febre do Rato  
E aí, comeu? | Os Acompanhantes
 


Sombras da Noite (Dark Shadows)
 

Há cineastas que, ao desenvolver um estilo próprio, trazem em seu bojo uma visão de mundo. Exemplo maior é Stanley Kubrick, cuja mise-en-scène gélida e distanciada explicitava a ideia pouco amistosa que ele fazia da humanidade e seus desvios. Ninguém dirá que Tim Burton não tem um estilo inconfundível. Mas, o que há por trás desse estilo?

Exceto por Edward Mãos de Tesoura, uma fábula digna do nome, e Ed Wood, belíssimo tributo ao pior cineasta de todos os tempos e uma celebração do entusiasmo pela sétima arte, os filmes de Burton são viagens divertidas por um mundo próprio que ele teve o mérito de criar, mas cujas paredes parecem feitas de isopor escuro. Dizendo de outra forma, não há estofo: é um mundozinho dark, eventualmente engraçadinho e muito limitado.

Sombras da Noite, inspirado por uma série televisiva da década de 1970, não tem em seu DNA a insolência de A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski, por exemplo. Na trama, um sujeito foi transformado em vampiro e enterrado por uma bruxa que rejeitara. Dois séculos depois, em 1972, liberto do túmulo, ele se depara com sua família na pior e, claro, reencontra a bruxa que o condenara. Em tudo isso, não há sequer sombra de algo que pudéssemos chamar de grande cinema.

Veja outra opinião sobre o filme aqui.

Dir. Tim Burton, EUA, 2012. Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Michelle Pfeiffer, Chloe Moretz, Eva Green, Jakie Earle Haley, Jonny Lee Miller. 113 min.

 


Febre do Rato
 

Claudio Assis parece ter finalmente superado aquela afeição adolescente pelo choque, tão explorada em seus filmes anteriores (Amarelo Manga e Baixio das Bestas). Ao contrário do que ocorria antes, ele agora se mostra interessado no material humano que tem diante das lentes, e não apenas em criar situações brutais, recheá-las com animais humanos e temperar com uma artificialidade que corroía tudo. O título deste novo filme vem de uma expressão recifense que designa alguém que perdeu o controle. O protagonista, Zizo, é poeta anarquista, edita um tablóide e erra por um mundo particular, em flagrante descompasso com o meio utilitarista em que todos vivemos. Quando conhece a jovem Eneida, estabelece-se uma ligação possível entre Zizo e o mundo ao redor.

Dir. Claudio Assis, Brasil, 2011. Irandhir Santos, Nanda Costa, Matheus Nachtergaele, Conceição Camarotti, Juliano Cazarré.

 


E aí, Comeu?
 

Está no material de divulgação de E aí, comeu? o seguinte: "Você assistiu o (sic) filme Muita Calma Nessa Hora? E o Cilada.com? Se você viu, já sabe que não pode perder de jeito nenhum essa nova comédia (...)". Ou seja, pegue os neurônios que ainda lhe restam e saia correndo. É a velha cafajestagem brasileira, mas sem um pingo de auto-ironia ou sequer de ironia. Lixo.

Dir. Felipe Joffily, Brasil, 2012. Marcos Palmeira, Bruno Mazzeo, Emilio Orciollo Netto, Dia Paes, Tainá Müller, Laura Neiva, Juliana Schalch. Duração não informada.


Os Acompanhantes (The Extra Men)
 

Lançada no Brasil com dois anos de atraso (e tendo estreado nos EUA em apenas duas salas), Os Acompanhantes traz a melhor atuação de Kevin Kline desde Será que ele é?. Ele interpreta um sujeito que trabalha como acompanhante de viúvas ricas em Nova York. Um jovem aspirante a dramaturgo vai morar com ele. Assim, a convivência faz com que eles reavaliem suas posturas e escolhas e, bem, todos já vimos coisa parecida - mas não com Kevin Kline, diga-se. Dizendo de outra forma, Os Acompanhantes talvez seja a aposta menos arriscada da semana, um filme agradável, simpático e desprovido de maiores ruídos.

Dir. Shari Springer Berman, Robert Pulcini, EUA, França, 2010. Kevin Kline, Paul Dano, Katie Holmes, John C. Reilly. 108 min.

Escrito por Time Out São Paulo editors
 

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