Time Out São Paulo

Na teia do cinema - 6 de julho

 André de Leones comenta as estreias da semana.

Mais (ou menos) do que um filme, O Espetacular Homem-Aranha é um sintoma da ansiedade hollywoodiana. Ainda que seja um exemplar divertido dessa onda interminável (mas extremamente lucrativa, óbvio) de filmes baseados em histórias em quadrinhos, chama a atenção que se trate de um recomeço para uma série iniciada há apenas dez anos.

Na lógica da indústria do cinema, uma década é uma eternidade e, se o produto vale ouro, o melhor é reprisá-lo o mais rápido possível e com as menores variações. A impressão é de que o cinemão norte-americano, salvo raras exceções, embarcou em uma dieta das mais restritivas: ele se dá por satisfeito alimentando-se de suas próprias vísceras. Um cinema que, dobrado sobre si mesmo, gera filhotes cada vez mais defeituosos.

Para o espectador afeito a sabores diferenciados, mas nem por isso melhores, restam o francês Até a Eternidade e o premiado brasileiro Histórias que Só Existem Quando Lembradas.

O Espetacular Homem-Aranha | Até a Eternidade | Histórias que Só Existem Quando Lembradas  
A Guerra dos Botões | Beaufort | Headhunters  


O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man)
 

Na linguagem corrente do ramo cinematográfico, O Espetacular Homem-Aranha pode ser chamado de um reboot, isto é, um reinício para a série iniciada em 2002 com o filme dirigido por Sam Raimi e estrelado por Tobey Maguire. Agora, é Andrew Garfield (o Eduardo Saverin de A Rede Social) quem encarna o cabeça-de-teia. O filme, no geral, tem aquele ar de repeteco.

Agora sob a direção de Marc Webb – de (500) Dias com Ela –, a franquia reconta a origem do herói com algumas variações em relação ao filme lançado há dez anos. Ou seja, umas poucas mudanças são perpetradas para que tudo continue mais ou menos como antes.

O vilão da vez é o Lagarto, e a cara-metade do Aranha é a loirinha Gwen Stacy (Emma Stone). Em relação a esse detalhe, o filme é fiel aos quadrinhos originais: antes de Mary Jane, Peter Parker namorou Gwen. Seria ótimo se, em um filme posterior, víssemos na tela uma transposição fiel do destino que ela teve nas HQs, leitura das mais impressionantes que fiz duas décadas e meia atrás.

Voltando ao filme, é um blockbuster satisfatório, isto é, sem ser bobo como Os Vingadores, talvez pelo carisma do personagem. O fato de ele ser um moleque órfão é o tipo de coisa que o aproxima de nós, e Garfield dá conta do papel tão bem quanto Maguire. O que incomoda é mesmo o gosto de coisa requentada, previsível, do qual talvez nos livremos caso o filme seguinte, se houver, procure um sabor que lhe seja próprio.

Dir. Marc Webb, EUA, 2012. Andrew Garfield, Emma Stone, Sally Field, Rhys Ifans, Denis Leary, Campbell Scott, Martin Sheen. 136 min.


Até a Eternidade (Les petits mouchoirs)
 

Apesar de um evento traumático recente, um grupo de amigos resolve não adiar suas férias à beira-mar. Eles se reúnem ali todos os anos. Mas, em função do que aconteceu há pouco, dessa vez terão de lidar diretamente com uma série de problemas que vinham evitando. O longo – tem duas horas e meia – e tragicômico acerto de contas, às vezes doloroso, às vezes patético, seria um prato cheio para um cineasta como Roman Polanski ou mesmo Denys Arcand. Nas mãos de Canet, resulta apenas enfadonho. Em tempo: o elenco é dos melhores; se o filme suscita algum interesse, é por causa dele, e só.

Dir. Guillaume Canet, França, 2010. François Cluzet, Marion Cotillard, Benoît Magimel, Jean Dujardin, Gilles Lellouch, Laurent Lafitte, Pascale Arbillot, Valérie Bonneton. 154 min.


Histórias que Só Existem Quando Lembradas
 

Em Jotuomba, um vilarejo, a vida segue sem sobressaltos. Tanto que sequer ocorrem mortes na cidade: o cemitério permanece trancado, atestando a inércia que parece contaminar a vida e a morte. As coisas no lugar só têm sua rotina mudada com a chegada de Rita, uma jovem fotógrafa. Primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Julia Murat, o filme recebeu diversos prêmios em festivais como os de Ljubjana, San Sebastian e Toulouse.

Dir. Julia Murat, Brasil, França, Argentina, 2011. Sonia Guedes, Lisa E. Fávero, Luiz Serra, Ricardo Merkin, Antônio dos Santos. 98 min.


A Guerra dos Botões (La guerre des boutons)
 

Em 1960, numa aldeia no sul da França, um bando de meninos está em "guerra" com as crianças da aldeia vizinha. Adaptação do livro homônimo de Louis Pergaud, popularizado graças a uma primeira adaptação cinematográfica (bem superior, ressalte-se) dirigida por Yves Robert e lançada em 1961.

Dir. Yann Samuell, França, 2011. Eric Elmosnino, Mathilde Seigner, Fred Testot, Alain Chabat, Vincent Bres, Théo Bertrand, Salomé Lemire, Tom Terrail, Louis Lefèbvre, Victor Le Blond, Tristan Vichard. 109 min.


Beaufort
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Beaufort se passa no sul do Líbano, em um castelo que passou de um exército a outro por séculos a fio. Em 2000, após dezoito anos de ocupação, as tropas de Israel deixarão o local. O filme gira em torno do grupo de soldados que formam a derradeira guarnição do local.

Dir. Joseph Cedar, Israel, 2007. Alon Aboutboul, Adi Adouan, Yaakov Ahimeir, Guy Apriat, Avi Ayoun, Itamar Barzani, Daniel Bruck, Daniel Cedar. 131 min.


Headhunters (Hodejegerne)
 

Thriller norueguês baseado em romance de Jo Nesbø sobre um headhunter que na verdade é um ladrão de obras de arte. Há muito sangue e reviravoltas absurdas. Embora, em alguns momentos particularmente escatológicos, possa até divertir certas almas afeitas ao humor-negro, o filme em geral é muito inconsistente.

Dir. Morten Tyldum, Noruega, Alemanha, 2011. Aksel Hennie, Nikolaj Coster-Waldau, Julie R. Ølgaard, Joachim Rafaelsen. 100 min.

Escrito por Time Out São Paulo editors
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