Time Out São Paulo

Diálogos com Cronenberg

Conversamos com o cineasta e revelamos a sua nova-velha face, com a produção inédita 
em 'Cosmópolis' 


Aos 69 anos, o cineasta canadense David Cronenberg está mais produtivo – e respeitável – que nunca. Apesar das escatológicas e venéreas criaturas de Calafrios (1975) até Eric Packer, o impassível capitalista interpretado por Robert Pattinson em sua adaptação do romance de Don DeLillo Cosmópolis (leia a nossa crítica aqui), a inteligência, integridade e objetividade de Cronenberg sobre a psicologia humana nunca foram colocadas em xeque. Conforme nosso ‘Barão de Sangue’ se torna uma instituição do establishment cinematográfico, descobrimos que, embora os temas tenham mudado, a paixão do diretor se mantém intocada.

Cosmópolis é o primeiro roteiro que você escreveu depois de dez anos. Por que adaptá-lo?
É uma questão de intuição. Eu precisava escrever o roteiro para saber se o livro funcionaria no cinema. Na época, não me ocorreu que ninguém havia conseguido transformar uma obra de DeLillo em filme. Isso me agradou, ser o primeiro a soltar os diálogos de Don pelo mundo. O estilo dele estabeleceu o modelo para tudo, inclusive o visual [do filme].

Você parece se sentir bem escrevendo qualquer diálogo, como no melodrama romântico de A Mosca, no humor negro de Crash - Estranhos Prazeres e na estranha teatralidade de agora.
Mesmo mudando de filme para filme, o diálogo sempre recebe muita atenção. Nos meus primeiros filmes, os diálogos eram bem excêntricos. Não são as falas comuns de um filme de terror barato, que tendem a ser banais e realistas. Eles sempre tiveram um elemento artístico. Eu gosto disso. Para mim, o cinema é diálogo.

É frustrante quando os críticos acusam seus filmes mais recentes de serem muito falados, como se suas primeiras obras fossem diferentes?
É inevitável sentir um pouco de frustração. Parece que eles não prestaram atenção. Isso é desculpável para um espectador comum, ele pode ser desatento. Mas, para um jornalista especializado, não é muito profissional deixar passar esse tipo de coisa.

Muitos diriam que o David Cronenberg de hoje é irreconhecível em relação àquele que fez Calafrios e A Mosca. Você se sente o mesmo cineasta de sempre?
Eu me sinto o mesmo diretor, sim, apesar de estar mais maduro e confiante na maneira como faço filmes. Fiz algumas coisas que sinto não precisar fazer novamente. Não falo em termos de gênero. Não penso que não posso jamais fazer outro filme de terror porque agora sou um artista mais estabelecido. Não hesitaria em fazê-lo, se fosse interessante o suficiente.

É possível dizer que Cosmópolis está mais interessado no clima e no tom do que na lógica ou na narrativa do filme?
Fico contente de ouvi-lo dizer isso. As pessoas acostumadas com os filmes de Hollywood, em que tudo é explicado, podem se frustrar. Por exemplo, não há como acompanhar algumas das coisas que a personagem de Samantha Morton diz. Pelo menos não de primeira. Vejo esse filme como uma ficção científica em que o piloto intergalático explica como sua nave funciona. Você não precisa saber do que ele está falando, só precisa acreditar que ele sabe do que está falando. Eric Packer entende quando sua conselheira lhe explica a conexão do futuro com o capitalismo. Isso o estimula, e é só disso que você precisa saber.

O que você acha de Eric Packer? É importante gostar de seu protagonista?
Acho que é importante sentir empatia, não necessariamente simpatia. Você precisa ter um certo nível de compreensão sobre ele, mas isso não quer dizer que precisa gostar dele. Precisa estar fascinado o suficiente para acompanhá-lo durante o filme. É por isso que é necessário um ator tão carismático como Rob [Robert Pattinson], cujo rosto dá vontade de ficar olhando.

Escalar um astro como Robert Pattinson tem algum significado, além do fato de ele ser bom para o papel?
Não. É parecido com quando chamo Viggo [Mortensen, em Senhores do Crime]. É importante para as finanças. Se Rob não tivesse ficado famoso com Crepúsculo, não poderia tê-lo no filme. Mas isso não significa nada em termos criativos. Uma vez que estamos no set, somos apenas nós. Não há mais ninguém. É como se ele não tivesse feito nenhum outro filme.

Você gosta da ideia de que os fãs de Crepúsculo possam ampliar os horizontes com Cosmópolis?
Gosto. Muitas meninas fãs de Rob montaram sites sobre Cosmópolis, alguns realmente elaborados e bonitos. E também estão lendo o livro. Elas sabem que não é Crepúsculo e, ainda assim, estão animadas. Sem dúvida, alguns fãs que nunca ouviram falar de Don DeLillo ou de mim verão o filme. Mas isso não é o principal.  

Escrito por Tom Huddleston
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