Entrevista: Sam Mendes

À frente do 23º filme da franquia James Bond, '007 - Operação Skyfall', diretor fala de sua experiência

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Mendes ajusta detalhes com a atriz Judi Dench, que vive M, a chefe do serviço secreto


Quanto tempo leva para um título do filme ser decidido?

Acho que é muito difícil essa questão do título dos filmes. Lembro que fiz Estrada para Perdição para a Dreamworks e Spielberg, e não queria chamá-lo de Estrada para Perdição porque achei um pouco pretensioso. E ele disse: “Escuta. No final das contas, se um filme estiver bom, não importa como ele é chamado”. Fiz um filme chamado Contatos Imediatos de Terceiro Grau e o estúdio disse que era insano. Mas, no momento em que o filme saiu, acabou ficando como Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Você pode ficar obcecado em relação a isso, e acho que, se ficar, acaba escolhendo um título genérico. Você pode usar a palavra “morrer” em um título, mas não pode usar a palavra “morte” – “morrer” é ação, “morte” é definitivo. É só o nome de uma coisa. E, quando você vê o filme, faz sentido.

Nesse sentido de criar um nome, que é uma símbologia, o logo das Olimpíadas de 2012, muito criticado de início, agora virou símbolo de uma época de ouro para Londres.
Concordo plenamente – pensei exatamente a mesma coisa quando vi o logo. Pensei: “Nossa, como isso é horrível”. Mas agora, depois de estar lá e viver a experiência de como tudo aconteceu, como todo mundo viveu neste verão, tem uma ressonância. E isso é por causa do evento. Então, sim, isso [a discussão sobre o nome] acabará quando o filme der certo ou errado.

Você gostaria de ter se envolvido no trecho sobre 007 da cerimônia de abertura dos Jogos?
Não, aquilo foi uma concepção de Danny [Boyle]. E até mesmo eu – eu sabia bastante, mas não conhecia [a montagem] completamente. Não, definitivamente foi um momento de Danny. Ele trabalhou brilhantemente e, além disso, o tom foi completamente apropriado para Bond.

A montagem final de um filme é a pior parte do processo, não é?
Anthony Minghella tinha uma frase ótima: “Você faz um filme cinco vezes”. Você o faz no roteiro, na escolha do elenco, na filmagem, na montagem e na composição, e você pode de fato conseguir acertar nas quatro primeiras, mas em qualquer ponto pode afundar o filme. Estranhamente, ainda há um último processo de refinamento. Você se torna muito obcecado e um pouco maluco para todos que o cercam porque está simplesmente tratando de detalhes e sendo muito teimoso.
 

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Daniel Craig em cena: é a terceira vez que o ator vive James Bond



Olhando em retrospecto, você teve alguma ideia marcante do que queria fazer?
Acho que, provavelmente, sim. Quando entrei para o time, que foi bem no início do processo, havia um tratamento, e eu fui muito claro ao dizer que não era aquilo que eu queria fazer. E peguei um elemento muito pequeno do que estava em andamento, e abandonei todo o resto.

Então você tinha algo com o que reagir?
Sim. E acho que eu não fazia ideia de quão cristalizadas minhas opiniões já estavam até que me sentei e disse: “Este é o filme de Bond que quero fazer”. Este é o filme de Bond que quero ver, mas acho que também é o filme de Bond que o público quer ver, e, talvez, Fleming [Ian Fleming, escritor britânico e autor da série James Bond] também gostasse. Há todos os tipos de mestres pairando sobre o filme, mas que não estariam no processo normal de filmagem. Há grandes sombras que permeiam os filmes de Bond, de muitas outras pessoas, particularmente Fleming, eu acho.

A ideia de propriedade é interessante com James Bond, pois você trabalha com um público global que acredita possuir o próprio Agente 007. Ele é de interesse geral.
Ao abordá-lo, eu não tinha um conhecimento ou uma ideia sobre o personagem maiores do que você ou qualquer outra pessoa que tem uma história com Bond. Mas uma das coisas que se percebe muito rapidamente é que todo mundo tem uma opinião a respeito, e todas as opiniões são diferentes. Literalmente, alguém me disse o seguinte: “Meu Deus, espero que você faça o favor de colocar um pouco de humor neste filme”. E meia hora depois – apenas amigos e conhecidos –, veja, meia hora depois, disse: “Ah, está muito melhor agora que não tentam ser engraçados o tempo inteiro”. Ou ainda: “Meu Deus, por favor, será que dá para não ser tão violento” ou “Você precisa colocar mais explosões nele”. Não importa a opinião da pessoa, ela vem meia hora depois e diz o contrário. E, portanto, fica muito claro, desde muito cedo, que você não tem como agradar a todos. Você precisa fazer algo que ache que atingirá o equilíbrio certo. É, também, uma questão de tom.

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Daniel Craig como James Bond: neste filme, seu rival é Javier Bardem



Você chegou a retomar a leitura de alguns dos romances de Fleming?

Li sim – não todos eles, mas alguns. Foquei especialmente nos que eu achava que eram os mais interessantes para o que tentamos atingir neste filme, que foi a trilogia final dos livros Só Se Vive Duas Vezes, 007 Contra o Homem da Pistola de Ouro e 007 Contra Octopussy. É quando Bond sofre de uma ácida crise de fé. Um questionamento do tipo “Qual é o sentido?”. Sua relação com M se tornou mais espinhosa do que nunca. Ele não quer mais fazer isso. Fleming colocou muita coisas nesses romances que os filmes jogaram fora, uma vez que, na época, elas eram consideradas muito sombrias. E foi aí que a franquia 007 estava se tornando algo mais para diário de viagem, mais extravagante e mais a ver com entretenimento – abandonando os elementos dos livros de Bond que eram um pouco mais sombrios e mais perturbadores. Mas, agora, vivemos em uma época em que essas coisas são consideradas não só mais apropriadas, mas quase necessárias em grandes séries de filmes. Se você tem uma grande franquia sem um personagem obscuro e fodido no meio dele, então quase não vale a pena fazer o filme.

Então, agora, sim, você pode voltar ao personagem que Fleming criou.
Exatamente, e senti que ali havia princípios, bem, na realidade, mais do que um princípio disso em Casino Royale. A cena de tortura foi chocante. E da forma certa. Foi isso que Fleming escreveu, mas não acho que qualquer outro filme de Bond foi tão longe. E o interessante aqui é que não é chocante porque tem sangue e violência e todo esse tipo de coisa. É chocante porque é perturbadora de maneira intrínseca.

Você usou muitas locações em Londres.
Sim, usamos muitas. Londres é, definitivamente, um personagem central no filme. Eu fui definitivamente influenciado pelos filmes ingleses dos anos 1960, como O Implacável, Uma Saída de Mestre. Há influências de O Terceiro Homem também. Criamos uma Londres sombria e obscura, que se utiliza de lugares que você provavelmente acha que conhece mas, ao olhar melhor para eles em ângulos um pouco diferentes, você se vê em uma Londres que provavelmente nunca viu antes. Mas isso está amarrado na história.
 

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Daniel Craig no set de filmagem



Em que tipo de lugares de Londres você está pensando?

Filmamos nos lugares óbvios, mas também em partes de Londres que eu não sabia existirem e que estavam bem debaixo do meu nariz. Este é para mim um mundo extraordinário, que está tão perto, mas que é tão inacessível. Um dos melhores e mais radiantes dias do filme foi o que fechamos o Whitehall [rua onde estão muitos dos ministérios mais importantes do governo britânico] em um domingo; chegamos lá com a rua totalmente interditada, e o sol nascendo em uma manhã de domingo, às cinco e meia da manhã. Foi simplesmente maravilhoso, foi mágico. E teve a Downing Street – com apenas um policial, e mais ninguém. A noção de história e lugar, e meu próprio sentimento de orgulho por isso, de estar na cidade onde cresci e onde morei, tudo isso foi reacendido com o filme de diversas formas. E, depois, isso foi confirmado pelas Olimpíadas, também porque teve Bond logo no começo, e senti que de alguma forma... Não é um sentimento natural para nós, como britânicos, ter orgulho de nosso país. Nosso padrão é de cinismo. Com as Olimpíadas, foi preciso alguns dias para quebrar essa barreira, mas então todos nós simplesmente nos entregamos.

Parece mesmo que uma página foi virada, em termos de ser e de ter esse orgulho sem que pareça ser algo da direita, ou algo conservador.
Exatamente. Concordo plenamente.

Como você descreveria o processo de trabalhar com [o ator] Daniel Craig?
Foi muito intenso, eu acho. Ele se coloca 100% no trabalho, não deixa nada em casa [leia mais sobre o ator no papel de James Bond na entrevista que fizemos com Daniel Craig]. Simplesmente está por inteiro ali. E ele tem opinião sobre tudo, o que deveria acontecer sempre, mas é muito estranho porque nunca havia dirigido um ator em um papel que, de certa forma, ele conhecesse quase melhor do que eu. Você, geralmente, começa o trabalho como iguais. Mas aqui foi assim: “Bom, ele já fez Bond, então eu sou o novato”. Mas ele foi muito claro sobre as coisas que gostaria de alcançar no filme e que achava que não havia conseguido, principalmente no último. E falou: “Olha, podemos seguir nesta área por aqui e naquela por ali?”. E essas conversas iniciais, antes que eu me sentasse com os roteiristas e começasse a trabalhar no roteiro, foram cruciais, porque significava que eu sabia em quais áreas e até onde ele estava disposto a ir – e que eu poderia seguir naquela direção.

Você disse que queria chamar [o ator espanhol] Javier Bardem a fim de criar algo que não via em um filme do 007 há muito tempo. O que estava procurando nele?
Acho que um tipo de extravagância – o tipo de personagem que conhece ou entende a extravagância de seus próprios gestos. E que também pudesse levar o personagem a terrenos, em termos de sua relação com Bond e M, que acho que nunca foram explorados nos filmes de Bond.

Bardem está com mais um fantástico corte de cabelo.
É, não posso dizer que consigo competir com os Irmãos Coen. Não é tão excêntrico, mas também não está muito longe. Ele adora desaparecer em alguém, da cabeça aos pés. Há um motivo para ele aparecer assim no filme, mas você precisa assistir para descobri-lo.

Você faria um 007 de novo?
Gostei o bastante para fazê-lo de novo. Acho que essa escolha está nas mãos do público. Sinto que se o filme for algo que as pessoas adorem, e que elas queiram vê-lo feito pelas mãos das mesmas pessoas que fizeram Skyfall, então isso significaria muito para mim, porque eu pensaria: “bem, há outras pessoas que realmente querem vê-lo”. A outra coisa é que sinto como se tivesse feito nesse filme tudo o que queria fazer em um 007 e eu teria de sentir a mesma coisa tudo de novo com outro. Então seria preciso pensar muito para tentar fazer algo tão especial quanto este. Estou esgotado, mas adorei.  

Escrito por Dave Calhoun
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