Entrevista: Martin Freeman

O ator inglês fala sobre os desafios de encenar o papel principal do primeiro filme da trilogia 'O Hobbit', adaptação de Peter Jackson para a obra do escritor J. R. R. Tolkien

James Fisher/ Divulgação


O inglês Martin Freeman se tornou conhecido na Grã-Bretanha por seu papel na TV como o afável Tim Canterbury, da premiada série original inglesa da BBC The Office. Atualmente, ele pode ser visto no canal pago BBC HD como o Dr. Watson em Sherlock.

Mas sua carreira na telona tem tudo para deslanchar a partir de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, que estreia em 14 de dezembro. Trata-se do primeiro filme da nova trilogia dirigida por Peter Jackson e inspirada na obra de J.R.R. Tolkien.

Na história, ele é o hobbit Bilbo Baggins, contratado pelo mago Gandalf (Ian McKellen) e os 13 anões que formam sua companhia para uma jornada até a Montanha Solitária, onde tentam recuperar os pertences dos anões que foram roubados pelo dragão Smaug. É nessa aventura que Bilbo encontra o Anel que desencadeia a trilogia O Senhor dos Anéis. Nesta entrevista, o ator fala sobre a surpresa de ser escalado para viver o protagonista, como se preparou para encarná-lo e analisa por que costuma viver mais personagens bonzinhos do que vilões.

Como você se sentiu quando teve a confirmação de que seria o protagonista da trilogia O Hobbit?
Mal pude acreditar, era como se meu agente estivesse contando uma piada. Primeiro ele anunciou que eu podia fazer, depois ligou dizendo que teríamos que deixar passar, pois eu estava filmando a série de TV Sherlock. Então, telefonou dizendo que a oportunidade estava em pé de novo. Ainda estou impressionado que tenha acontecido de verdade. Só eu sei que realmente aconteceu porque acabo de passar 18 meses filmando na Nova Zelândia.

Tinha alguma familiaridade com O Hobbit?
Na verdade, não. Eu conhecia o conceito, obviamente, e conhecia O Senhor dos Anéis no cinema, mas nunca havia lido o livro. Então, li na pressa, quando comecei a falar com Guillermo del Toro, que naquele ponto estava a bordo como diretor. Essa foi a primeira vez.

Você observou e usou como inspiração para seu papel a interpretação de Bilbo, do ator Ian Holm, em O Senhor do Anéis?
Usei sua atuação como um modelo do que Bilbo seria em 50 ou 60 anos [do calendário] dos hobbits. Usei apenas certas gesticulações ou padrões de fala. Não se pode ficar paralizado por isso, mas certamente o assisti.

Sei que a primeira cena que você filmou foi o capítulo-chave ‘Adivinhas no Escuro’, com o Gollum. Usou essa cena para explorar o personagem, para encontrar maneiras diferentes de interpretar Bilbo? Andy Serkis, que faz o Gollum, ajudou nesse processo?
Ele não deu nenhum conselho, mas ajudou 
simplesmente porque era bom. Como qualquer bom ator, ele está ali quando está interpretando e quando não está. Sempre fico perplexo quando fico sabendo que amigos trabalharam com 
alguém que praticamente dorme quando não está dizendo suas falas. Atuar é reagir, e é 
sempre mais fácil reagir quando alguém está 
fazendo um bom trabalho. Eu não precisava imaginar o Gollum, ele estava lá! Embora com uma cara um pouco diferente, Andy é um pouco mais bonito, a voz e o físico estavam completamente lá. Então, você se concentra na outra pessoa e deixa que a cena corra sozinha. Quando você começa a se preocupar com o que está fazendo, já se perdeu.

Quais cenas está mais ansioso para ver 
no cinema?
‘Adivinhas no Escuro’ é muito boa, e também gosto da cena da reunião dos anões no Bolsão [a casa de Bilbo], no final. Do meu ponto de vista, gosto das cenas que têm um pouco mais de atuação: a decisão de entrar na jornada, as conversas com Gandalf. Adorei todas as minhas cenas com Ian [McKellen] porque ele é muito generoso. Com algumas pessoas, você pode fazer malabarismo que não afeta o que estão fazendo. Mas qualquer coisinha que você dê para o Ian, ele recebe e aproveita em sua próxima fala. Ele disse coisas para mim que foram incrivelmente generosas. Ele já esteve em todos os lugares, já fez de tudo e é realmente bom, mas ainda tem a generosidade de elogiar o outro. Estou feliz de tê-lo conhecido.

Elijah Wood (ator principal de O Senhor dos Anéis) fez um papel diferente no filme Maniac, em que interpreta um assassino em série que esfaqueia mulheres em Nova York. Você iria nessa direção, conseguiria interpretar alguém tão asqueroso?
Já interpretei gente asquerosa, mas nem todo mundo viu. Antes de The Office, eu era chamado principalmente para papéis de pequenos meliantes. Mas, daí, tornei-me o adorável Tim e foi lançada uma sombra. Estou feliz com o papel, mas você só pode fazer o que deixam fazer. Não sou roteirista, diretor ou produtor. Não consigo simplesmente ir lá e fazer meu filme de estripador. É preciso esperar até que alguém dê uma chance. Sei que tenho esse outro lado, mas, quanto mais digo isso, mais parece que estou reclamando. Por exemplo, eu poderia dizer que quero interpretar um corcunda franco-africano, mas provavelmente não conseguirei o papel. Tenho esse lado afável, é claro, mas não sou só isso. Porém, é uma questão de fazer sem parecer forçado. Fiz uma peça uma vez sobre a qual um crítico disse: “Martin Freeman é muito bonzinho para fazer um vilão”. Bem, vilões nem sempre são malvados. Hitler era carismático e 
um grande orador.

E Bilbo não é só um cara legal, certo? Ele pode ser um pouco perturbado?
Ele é perturbado, é cheio de pompa. Com certeza não é mau, mas não é puramente um cara bom. Às vezes, faço personagens com quem você não gostaria de sair para beber. Na verdade, você não sairia para beber com Bilbo porque ele provavelmente não iria querer sair com você, ele pensaria que é mais respeitável, mais correto que você. Na essência, ele é muito decente, tem uma bússola moral e uma noção de certo e errado, mas há muito além disso. Ele fica mais versátil conforme a trama corre, descobre sua coragem e sua fúria. A vida lhe dá um chute na bunda. Acho que até que a vida faça isso com qualquer um de nós, não nos conhecemos de verdade. Você não é completamente você até que a vida tenha lhe 
chutado o traseiro.

Escrito por Tom Huddleston
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