Time Out São Paulo

Entrevista: Paul Thomas Anderson

O cineasta comenta a relação de seu filme 'O Mestre' com a Cientologia e conta como foi dirigir o ator Joaquin Phoenix

 
O Mestre chega aos cinemas com muita expectativa (leia a crítica aqui). É o primeiro filme do americano Paul Thomas Anderson, 42 anos, diretor de Boogie Nights – Prazer sem Limites e Embriagado de Amor, desde o impressionante Sangue Negro, de 2007.

O filme também se tornou objeto de muita especulação desde que foi anunciado. Seria sobre a Cientologia? Philip Seymour Hoffman faria o papel do controverso fundador da religião, L. Ron Hubbard? E o que Tom Cruise (que protagonizou Magnólia, filme de Anderson de 1999, e é seguidor da Cientologia) diria e pensaria sobre o o longa-metragem?

O longa-metragem é uma maravilha. Passado principalmente em 1950, traz Hoffman na pele de Lancaster Dodd, fundador de uma religião chamada The Cause (a causa) – baseada na Dianética, o mesmo sistema de crença da Cientologia. Porém, a história é de fato sobre Freddie Quell (Joaquin Phoenix), um marinheiro perturbado que sai da guerra para cair nos braços de Dodd.

Em entrevista por telefone, Dave Calhoun conversou com Anderson, que estava em Sydney na noite de estreia do filme em Londres, onde seria exibido em 70 mm (embora tenha sido filmado no raro formato de 65 mm).

Houve muita especulação sobre a relação do filme com a Cientologia. Isso o divertiu, interessou ou distraiu?
Todas as alternativas! Essa palavra – Cientologia – faz as orelhas das pessoas crescerem e anteninhas saírem de suas cabeças e seus olhos esbugalharem. Fiquei preocupado de haver uma expectativa de que o filme fosse algo que não era. Assim que fizemos algumas exibições restritas em agosto, ninguém mais falava em Cientologia, falavam dos personagens.

Você disse que o personagem Freddie Quell foi o que surgiu primeiro. É isso?
Sim. Se fosse fazer um filme sobre a Cientologia, não seria este. Por muito tempo, isso foi uma coleção de peças e ideias – e, principalmente, o personagem Freddie – que não tinham um lar. É uma coisa antiga a história do marinheiro que está perdido em terra, mas que se sente em casa no mar. Mas eu não tinha enredo nem força o suficiente. A história começou a ganhar muito mais forma quando Lancaster Dodd, o Mestre, surgiu.

Você incluiu uma emocionante cena inicial em que Freddie Quell , que acaba de voltar da guerra, tenta se manter em um emprego como fotógrafo em uma loja de departamento chique, mas aí ele pira de modo espetacular.
É legal assistir a Freddie tentando manter um rosto sorridente e vestindo um terno bacana. É como tentar colocar uma fralda em um macaco. Para mim, é isso que parece.

Isso cai muito bem em Joaquin Phoenix. Ele não parece confortável com o lado público de ser ator. Ele tratou disso – fama, celebridade, as percepções que se têm dele – no falso documentário I’m Still Here, de 2010.
Meu Deus, o quão bravo posso ficar com um ator que é tão bom no que faz e tão ruim em promover meu filme? Eu não mudaria isso por nada. É tão difícil ficar bravo com alguém que funciona desse jeito. Não é engraçado quando alguém não consegue aguentar? Quero que os astros de meus filmes sejam perigosos, irritados e incapazes de engolir papo furado. Prefiro que sejam assim.

Como reagiu à pesquisa que fez sobre os processos iniciais da Dianética?
Pode soar estranho, mas é bem difícil sentar e aprender sobre essas coisas e não ser afetado por elas de uma maneira positiva. Não tem ninguém enfiando a coisa por sua goela abaixo, e você lê algumas ideias que parecem simples, pequenas coisas que você pode aplicar à sua vida. Se eu me sentia frustrado, de repente me flagrava usando a regra número 43 [da religião] ou o que quer que fosse.

Você disse que sempre pensou em Philip Seymour Hoffman para o papel de Lancaster. Mas tinha menos certeza em chamar Joaquin Phoenix?
Eu estava afundado no roteiro quando Joaquin estava fazendo I’m Still Here, e Philip e eu tínhamos conversas do tipo: “Quanto tempo você acha que ele ainda vai levar para fazer aquele filme?”. Ele filmou por uns seis ou oito meses – vivendo aquela vida gorda e louca, com aquela barba. Consideramos chamá-lo na época, mas ele estava fazendo aquilo, então falei com Jeremy Renner sobre o papel. Mas acabou dando certo com Joaquin.

Divulgação

Perturbado depois de sair da guerra, Freddie (Phoenix) tenta se encaixar

 A atuação dele é muito abrangente. Ele deve ter levado o papel para algo totalmente diferente do que foi escrito.
Não consigo lembrar o que pensei ou vi antes de ele começar a fazer o personagem. Ele simplesmente destruiu qualquer ideia que eu tenha tido. Depois de uma semana ou dez dias no set, ele encontrou o caminho. Aí, alguma coisa tomou conta dele.

Quando diz que algo tomou conta dele, significa que Phoenix é do tipo que fica no personagem o tempo todo?
Sim, ele meio que fica dentro [do personagem]. Isso não quer dizer que quando você fala, ele não registra e nem percebe que a mesa do bufê [montada no set de filmagem] está atrás dele. Já vi isso: atores que tentam manter um tipo de integridade do personagem o tempo todo, mas, assim que o bufê chega, mergulham de cabeça e se esbaldam com as bolachas.

Bem, você teve o prazer de trabalhar com Daniel Day-Lewis em Sangue Negro.
Sim, mas ele não é assim. Ele não pega as bolachas no set! Sinceramente, acho que esse tipo de atuação é mais superstição e prática do que qualquer outra coisa. Se você está nesse faz-de-conta, aí vai para cama e depois tem de acordar e fazer a mesma coisa, você não consegue se lembrar do que estava fazendo. Que voz eu estava fazendo? O que eu estava pensando? É uma paranoia de que vai perder o fio da meada, de que fará uma atuação muito diferente de um dia para o outro.

Como você lida com atores como Daniel Day-Lewis e Joaquin Phoenix?
Sou sensível a eles, mas sinceramente acho que a melhor maneira de se dirigir a atores como Daniel e Joaquin – ou qualquer um, para falar a verdade – é ter uma abordagem mais básica. A pior coisa que você pode fazer enquanto diretor é não deixar um ator saber quantas tomadas vai precisar. Isso os deixa loucos. Ou fazer 40 tomadas para uma cena que deveria ter uma ou duas. A melhor coisa que você pode fazer para um ator é deixá-lo saber o que está acontecendo no set de filmagem.

Nesse filme, você está associado ao famoso distribuidor e produtor Harvey Weinstein [fundador da produtora Miramax e hoje co-chairman da Weinstein Company] na divulgação e na campanha para o Oscar. Como é trabalhar com ele?
Ele é incrível. Ele é das antigas, é louco. É muito charmoso e muito agradável. Um pouco assustador, mas nada com que eu não possa lidar.

Escrito por Dave Calhoun
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