Time Out São Paulo

Entrevista: William Friedkin e Tracy Letts

Diretor e dramaturgo americanos falam sobre a parceria no filme 'Killer Joe - Matador de Aluguel'


Não é preciso muito esforço para fazer o diretor William Friedkin falar, mas, se o assunto for a cidade de Chicago – onde nasceu, em 1935, e cresceu –, as histórias deslancham de vez.

“Descendo a minha rua, morava (o ator e escritor) Studs Terkel, e éramos muito bons amigos. Costumávamos jogar pôquer na casa de Nelson Algren toda sexta à noite. Algren, que escreveu um romance definitivo sobre um jogador de pôquer, O Homem do Braço de Ouro, era péssimo jogador. Eu ganhava com frequência. Da última vez que jogamos, eu perdi. Perdi o salário de uma semana. Na época, eu dirigia programas de TV ao vivo. E houve uma grande nevasca naquele dia. [Studs e eu] saímos, e meu carro estava coberto de neve. Tiramos toda a neve, entramos, o carro não pegava. E não tínhamos dinheiro. Andamos cerca de 60 quadras para chegar em casa, naquele frio. Sabíamos algo sobre cada esquina, cada bairro. Era tudo interessante, mas eu estava congelando. Naquela hora, decidi que tinha de sair de Chicago.” 

Divulgação
O ator Emile Hirsch em cena de Killer Joe- Matador de Aluguel

Ele nunca mais morou lá, embora volte de vez em quando para comer uma salsicha e tomar uma cerveja (“São como as madeleines de Proust”) e, mais recentemente, para conversar com o dramaturgo Tracy Letts, vencedor do prêmio Pulitzer com August: Osage County, cuja peça Bug serviu de base para seu filme Possuídos, de 2006. Os dois juntaram forças novamente para adaptar Killer Joe - Matador de Aluguel (leia nossa crítica aqui), também de Letts. Os dois se reuniram também para conversar com o jornalista Ben Kenigsberg sobre o longa-metragem.

O enredo conta a história de pai e filho pobres no Texas (Thomas Haden Church e Emile Hirsch, respectivamente) que decidem matar a mãe e ficar com o seguro. Para isso contratam o assassino de aluguel que dá nome ao filme (Matthew McConaughey) e oferecem a irmã do personagem de Hirsch (Juno Templo) como entrada do pagamento. A sinopse pode parecer exagerada, mas Friedkin e Letts acham que não há nada excessivo nela.

Killer Joe é quase uma produção de escola se comparado com a violência que está acontecendo no mundo”, diz o diretor. “Explosões de raiva, como a menina que matou seu bebê e se safou na Justiça, são uma constante. Algumas delas ganham muita publicidade, e outras vão para a página 37 do jornal. Mas continuam acontecendo.”

“Lembro-me de meu pai indo ver Killer Joe em sua primeiríssima montagem”, afirma Letts. “Havia 40 pessoas no teatro. No intervalo, elas falavam sobre a peça. Meu pai olhou para mim, olhou para elas e disse: ‘Não sabem que isso é real’.”

Friedkin, que nos encara através dos mesmos óculos aviador da época em que dirigiu O Exorcista, de 1973, é um interlocutor divertido, e relembra quando conheceu Hitchcock, depois de ter dirigido o último episódio da série televisiva Alfred Hitchcock Presents. “Ele me deu a mão e ela estava molhada – foi horrível. Ele estava suado. Disse: ‘Senhor Friedkin, geralmente nossos diretores usam gravata.’ Achei que estava me sacaneando e disse: ‘Bem, acho que deixei a minha em casa.’ E ele se virou e foi embora.” Cinco anos depois, Friedkin confrontou Hitchcock após ganhar o prêmio do Sindicato dos Diretores por Operação França: “‘O que acha da gravata agora, Hitch?’ Mas ele não se lembrava dessa história nem de mim.”

Friedkin rapidamente acrescenta que assistir aos filmes de Hitchcock é, por si só, uma lição de cinema. Além disso, ele sabe o que é ter um fracasso ocasional e não lastima os períodos de seca em relação à crítica que viveu. “Eles estavam errados!”, afirma. “Alguns dos meus melhores trabalhos foram feitos no início dos anos 1990. Adoro Regras do Jogo. Adoro também Jade. E Caçado.”

Escrito por Ben Kenigsberg
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