Time Out São Paulo

Entrevista: Joe Wright

O cineasta britânico conversou conosco sobre sua adaptação do romance Anna Karenina


Da extraordinária série de cinco filmes aclamados de Joe Wright, três são com Keira Knightley, a começar por Orgulho e Preconceito (2005). Mas o cineasta nega que a atriz seja sua musa. “Acho que só minha mulher pode ganhar esse título”, pondera, em tom de brincadeira, o diretor britânico de 41 anos, falando por telefone de Washington, nos EUA. “Há tantas coisas de que gosto na Keira”, continua ele. “Somos como irmãos. Às vezes, discordamos; geralmente eu ganho. Às vezes, ela ganha. Frequentemente fazemos a cena dos dois jeitos e vejo o que funciona na ilha de edição.”

Wright descreve sua estrela frequente (evitemos o termo “musa”) como corajosa e ousada. “Ela não depende da paixão do público”, explica ele. Essa teoria será posta em cheque com Anna Karenina (leia aqui a nossa resenha), a recente parceria da dupla, após Desejo e Reparação (2007), e a prova cabal da disponibilidade da atriz para adentrar um lado mais sombrio. Em sintonia com as ironias românticas do autor, Leon Tolstói, essa nova versão cinematográfica do clássico russo tem como trunfo uma Anna muito distante da sofredora de olhos tristes de Greta Garbo no filme de 1935.

“Ela não é uma heroína feminista e apenas uma vítima da sociedade patriarcal”, afirma Wright. “O que fizeram no passado foi transformar Anna em uma grande mártir do amor. Não foi esse o livro que li. O livro que li é um retrato de uma senhora difícil, obsessiva e que, no final, morreu por sua própria culpa.” Apesar de Wright dar muita atenção à fidelidade emocional à história, Anna Karenina é extremamente diferente, um psicodrama colorido, trazido à tona em estonteante formato teatral. Interações acontecem em frente a cortinas vermelhas de um palco; trens de brinquedo se tornam reais; e casas de boneca acomodam diversos dramas domésticos que imitam a vida real. Por exemplo, você não encontra cavalos de corrida caindo do palco no texto de Tolstói. “Não, você não encontra”, admite o diretor. “De alguma forma, o realismo coloca um muro entre mim e os personagens. A estilização é a retirada dessa barreira.”

Wright diz que sua equipe de longa data se dispõe a apoiar suas mais estranhas ideias – ou a maior parte delas. “Meu câmera tem uma técnica inteligente, ele diz ‘Bem...’ em um tom baixo de voz, então sei que a ideia é realmente ruim.” Wright tem demonstrado um grande compromisso com a chamada literatura séria, o que é “tirar o atraso” para alguém que nunca fez faculdade. “Tudo isso faz parte da minha educação”, explica ele, antes de ressaltar a atemporalidade do romance. “É possível traçar paralelo entre Anna Karenina e as celebridades de hoje, em como a sociedade se volta contra uma pessoa em questão de instantes.” Mas sua ligação mais profunda com o romance é espiritual, conexão que surgiu quando atingiu a meia idade e teve um filho. “Era com isso que Tolstói estava lutando também”, comenta. “Ele tinha mais ou menos minha idade quando escreveu o livro. O amor nos permite atingir nossa humanidade.” Sobre suas extensas tomadas com a câmera em movimento, o cineasta admite ser fã do longa-metragem Asas do Desejo, de Wim Wenders: “Gosto do ponto de vista dos anjos”.

Agora, Wright está em uma posição em que já esteve antes, com uma prestigiada estreia nos EUA e a celebrada presença no Oscar, que ganhou na categoria melhor figurino. “É realmente difícil”, afirma, sobre a competição na temporada de prêmios. “A competitividade é a antítese de tudo o que estamos falando.” Quando questionado de onde vêm seus filmes, ele responde: “Da esperança”.

Escrito por Joshua Rothkopf
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