Entrevista: Thomas Vinterberg

O diretor dinamarquês, criador do movimento Dogma, fala sobre seu filme 'A Caça' 

Divulgação


O cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg, 43, fez estardalhaço com Festa de Família, de 1998, um provocativo drama familiar nascido do movimento Dogma (que defendia a volta do cinema à sua forma de produção mais básica), concebido por ele e pelo diretor Lars Von Trier.

Desde então, sua trajetória instável incluiu Dogma do Amor (2003), que talvez possa ser categorizado como romance de ficção científica, mas seu filme mais recente, A Caça – um drama intenso que rendeu a Mads Mikkelsen o prêmio de melhor ator em Cannes por seu retrato de um professor de pré-escola acusado injustamente de pedofilia, leia mais em nossa resenha – é visto como uma grande volta por cima. 

Essa é uma história sobre abuso de crianças, como você decidiu contá-la desta forma?
Começou quando um psicólogo me deu um caso para ler. A ideia era evitar o caminho documental, mostrando investigações e processos judiciais, e, em vez disso, seguir uma jornada emocional ao lado de um homem. Tratava-se de chegar aos mínimos detalhes que não aparecem nas reportagens oficiais. Então, virou uma espécie de história de (o autor de literatura fantástica) Hans Christian Andersen, sobre a perda da inocência, a entrada do mal que vem de fora.

Nunca houve qualquer dúvida sobre o protagonista, vivido por Mads Mikkelsen?
Não. Eu queria que o público se sentisse perto desse cara, e não há como isso acontecer se houver qualquer possibilidade de ele ter tocado em uma criança. 

Ao mesmo tempo, você obviamente não queria demonizar a menininha que o acusa injustamente?
Sim, mas não sei se consegui ter sucesso nisso. Tem gente que a odeia, o que acho muito perturbador. Ela é muito apegada a esse professor, que lhe dá atenção, mas, quando ele a rejeita, ela o pune com uma mentira inocente. Claro que abusos de verdade acontecem, mas há situações em que o fato de pais e autoridades fazerem as mesmas perguntas repetidamente planta uma semente na cabeça da criança e cria uma memória traumática. Isso é uma violação da criança.

Seu foco principal é no acusado. Há quem considere a reação dele muito passiva?
Bem, houve palmas em Cannes quando ele finalmente reage! Acho que ele é um ser humano muito escandinavo, meio castrado e humilde que realmente testa a bondade de quem o cerca. Ele não é passivo, é civilizado, e está fazendo a coisa certa. Acho que simplesmente não esperamos isso em um filme.

Mads Mikkelsen está impressionante no papel. O personagem foi escrito para ele?
Não, estava pensando em uma espécie Robert De Niro mais jovem. No roteiro, o personagem era um herói valentão da classe trabalhadora. Aí Mads subiu a bordo. Eis um homem que é garanhão, talvez fosse interessante ir contra isso. Então, retrabalhamos [o papel] e ele se transformou em um professor civilizado que de repente precisa sair de si e começar a enfrentar as pessoas.

O tema do abuso liga A Caça a Festa de Família. Como você vê esse filme de 1998 agora?
Bem, foi um grande sucesso, mas a coisa toda do Dogma era algo que eu não podia levar adiante. Precisava começar tudo de novo e me redefinir, o que me deixou muito vulnerável e criou muitas experiências doloridas, mas também alguns trabalhos de que tenho muito orgulho. Dogma do Amor é meu filme mais corajoso. Acho que a poeira baixou agora, mas gosto de correr riscos. Pode ser que eu ainda me meta em confusão.

Escrito por Trevor Johnston
 

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