Time Out São Paulo

Entrevista: Tata Amaral

A cineasta fala sobre o filme Hoje , sobre uma mulher que reencontra o marido desaparecido depois de 30 anos

O período em que o Brasil viveu sob o regime militar (1964-1985) já rendeu muita história no cinema nacional. O que É Isso Companheiro? (1997) e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006) são alguns exemplos. Mas, Hoje (leia crítica aqui), de Tata Amaral, apesar de ter os anos de chumbo como mote, fala sobre o presente, como o título deixa explícito. Sua estreia está marcada para 12/4.
Vera (Denise Fraga) compra um apartamento com o dinheiro que recebeu de indenização do Estado pelo desaparecimento de seu companheiro, o militante político Luis (o uruguaio César Troncoso), durante a ditadura. No dia em que ela se muda, esse marido que ela procurou por quase 30 anos retorna.

É o segundo romance de Fernando Bonassi que a diretora transforma em filme. Um Céu de Estrelas (1997) também era baseado em um livro do escritor paulista. E assim como naquela sua estreia em longas-metragens, a diretora de 53 anos roda todas as cenas dentro do mesmo ambiente. Além do casal, apenas os carregadores da mudança e uma vizinha circulam por lá, mas não interferem no reencontro.

Tata Amaral recebeu a Time Out São Paulo em sua produtora, na Vila Madalena, para uma conversa sobre cinema, política e sua relação com São Paulo, cidade onde nasceu, mora e filma.

Hoje é uma história de amor?
Sim, é também sobre o luto e a possibilidade de reencontrar alguém que você amou muito. O filme é muito pessoal para mim porque eu perdi meu companheiro, o pai da minha filha, quando tinha 19 anos. Não foi um caso de desaparecimento político, mas como seria bom poder falar algumas coisas que não foram ditas. Eu trago isso comigo até hoje.

O filme fala do período da ditadura, mas se passa no presente. Você quis deixar isso claro quando escolheu a palavra ‘hoje’ como título?
Exatamente. A tese do filme é que o nosso passado, por mais que a gente queira esconder embaixo do tapete, continua atuando. O Brasil, por exemplo, não lidou com os torturadores como o Chile e a Argentina lidaram. Nós os anistiamos. Por isso, continuamos praticando e aceitando a tortura em nossa sociedade. Na Argentina, não se mata centenas de pessoas nas periferias. Hoje tem uma particularidade em relação aos outros filmes que falam desse tema, não é um flashback, o passado vem à tona em função do hoje.

Esse não é um papel óbvio para Denise Fraga. Por que pensou nela?
Foi uma intuição. Tinha um painel de fotos de possíveis atrizes. A carinha dela ficava olhando para mim. E ela é uma grande atriz cômica, tem um timing muito bom e também é corajosa, dedicada, generosa. Ela trouxe uma Vera muito mais amorosa do que eu podia imaginar.

Em qual cena fica mais claro esse lado amoroso que a Denise trouxe para o personagem?
Há uma cena em que o ator pergunta: “Se eu reaparecesse, o que você faria? Teria de devolver o apartamento. E você nunca teve uma casa própria. E agora?” Ela não fala nada, mas você vê tudo.

Qual é o desafio de filmar o tempo todo em um apartamento?
O desafio é tornar o espaço fechado interessante a cada momento e permitir ao espectador ir descobrindo esse ambiente. Por conta disso, o apartamento acaba se tornando um personagem. Desde o começo, no projeto de Hoje, havia uma foto do Edifício Louvre, no Centro de São Paulo. Quando finalmente tivemos dinheiro para fazer o filme, depois de muito procurar, resolvemos olhar o Louvre e esse apartamento enorme estava disponível. Encaramos o aluguel, caríssimo, porque o tamanho permitia que lá fosse também nossa base de produção.

Teve contato com pessoas que viveram essa indefinição sobre o desaparecimento de um parente nas mãos dos agentes da ditadura?
Tive. Durante a pesquisa acabei fazendo um outro filme sobre o tema. É uma minissérie, Trago Comigo, que passou na TV Cultura e agora vou transformar em longa-metragem. É uma ficção misturada com realidade e vários parentes de desaparecidos foram entrevistados. Eles viveram um estado de suspensão, de falta de concretude da perda. Teve um pai que enterrou um terno. Ele estava para morrer e disse que precisava ritualizar, viver o luto do filho. E existem questões práticas: uma mulher não pode se casar novamente, porque ela não é viúva oficialmente. Os filhos menores de idade não podem viajar porque não têm autorização de pai ou certidão de óbito para apresentar. Você não pode vender o carro ou o apartamento que tem com a pessoa porque precisa da assinatura dela.

A coincidência do filme estar sendo lançado agora, depois das primeiras ações da Comissão da Verdade terem destaque na imprensa, ajuda o filme?
Eu espero que sim. O filme aborda o papel da Comissão da Verdade, que é trazer à luz os acontecimentos. Um país em desenvolvimento não consegue avançar sem iluminar, identificar, e analisar o que aconteceu. Porque a gente vê na televisão o policial levar o pobre para um beco e atirar. Ele faz o mesmo que outro fazia há 40 anos.

Divulgação
 
 Cena do drama nacional 'Hoje', que estreia em 12/4

Quais são suas recordações pessoais dos anos da ditadura?
Eu tinha quatro anos quando houve o golpe. Eu lembro das paradas militares na Avenida Nove de Julho. Era um acontecimento. Na escola, hasteava a bandeira, cantava o Hino Nacional e havia um interventor. Mais tarde, comecei a ouvir histórias de que tinham arrancado as unhas de fulano na cadeia, esse tipo de coisa. Meu primo teve uma namorada cuja família teve de sair do país.

Mas você fez parte de uma organização de esquerda, não é?
Isso foi em um outro momento, no final dos anos 70, época do movimento estudantil. Porque houve o golpe em 1964, e o AI-5 em 1968, que ferrou geral. Até 1974, foram anos horríveis, quando todo mundo morreu ou sumiu. Meu envolvimento foi em 1976, quando eu estava no colegial. Participei de grandes passeatas promovidas pelo movimento estudantil, tomávamos a cidade.

Qual é o seu envolvimento na política hoje?
Nenhum. Voto no PT porque estão distribuindo renda e estamos finalmente saindo da era Truman. Aquele plano Marshall que permitiu os Estados Unidos chamarem para si a reorganização do mundo pós-Guerra, tornando as economias latino-americanas ainda mais dependentes, isso está se transformando só agora. E os governos latino-americanos são sistematicamente denegridos por isso, inclusive o [presidente da Venezuela Hugo] Chávez.

Como foi sonhar em fazer cinema no início dos anos 1990, quando a produção nacional praticamente não existia?
Eu era cinéfila e escolhi a faculdade de cinema. Para a família, foi como dizer que ia virar marciana, não era uma profissão. Nessa altura, já tinha uma filha, era viúva. Foi um desafio viver desse trabalho que não era reconhecido. Sempre vivi com muita dificuldade. Fiz publicidade e até assistência de figurino. Minhas finanças eram um caos, nunca sabia o que seria o mês que viria. Até hoje tenho apenas uma geladeira e um computador meus, não acumulei bens. Meu patrimônio são os filmes.

Com tantos anos de carreira, diria que desenvolveu um estilo Tata Amaral?
Tenho um foco em personagens, não em peripécias, apesar de amar filmes de ação. E os meus filmes têm elementos de suspense e de erotismo.

Como você enxerga a produção cinematográfica brasileira hoje?
Estamos construindo uma cinematografia muito poderosa e está havendo investimento, o que é muito importante. E agora temos a Lei da TV Paga. Há anos eu vejo na Europa cineastas que vivem de produções independentes para a televisão.

É comum classificarem São Paulo como uma das cidades mais feias do mundo. Como uma cineasta que filma aqui, o que pensa disso?
São Paulo não preserva sua memória e isso a torna feia. Bairros como Pinheiros e Vila Madalena, de casas art-déco, estão sendo destruídos. Esses imóveis deveriam ser tombados imediatamente. Embora você veja que há bela arquitetura, por exemplo, no Centro, não tem um planejamento. Minha família é paulistana desde 1640. Eu milito por São Paulo, fundei um grupo, Moradores de Pinheiros contra a Verticalização do Bairro. Mas como cineasta, dá para tirar poesia do caos.

Escrito por Marina Monzillo
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