Time Out São Paulo

Entrevista: Danny Boyle

Criador da cerimônia de abertura da Olimpíada de Londres, o cineasta fala sobre seu novo filme, 'Em Transe'


Ele é diretor de cinema e teatro, conhecido por filmes como Trainspotting e 127 Horas, e vencedor do Oscar em 2009 com Quem Quer Ser um Milionário?. Mas, por uma noite, Danny Boyle se tornou o grande anfitrião do Reino Unido. No ano passado, esse inglês de 56 anos foi responsável pela cerimônia de abertura dos Jogos Olimpícos de Londres e virou herói nacional.

Boyle passou a receber carinho nas ruas da capital inglesa. “Foi adorável”, diz sorrindo, durante nossa conversa em um clube de cavalheiros no West End londrino. “As pessoas me olhavam nos olhos e agradeciam. Elas não queriam um autógrafo. Era genuíno. Não era porque sou famoso, mas pelo que fiz.”

Em meio ao planejamento da cerimônia, ele rodou Em Transe, um filme bem ao seu estilo – cheio de cortes, rápido e criativo, com música agitada e atuações pitorescas – e com estreia prevista no Brasil para 3/5. “No papel, a Olimpíada exigiu dois anos de trabalho. Se você quiser se sentar em torno de uma mesa por esse período, até pode, mas isso o levará à loucura. Então, negociamos duas pausas, uma para Frankenstein, no National Theatre, e outra para Em Transe. Eles [a peça e o filme] foram a antítese da natureza comemorativa da Olimpíada”. O longa, de fato, não é festivo: há uma cena em que uma bala arrebenta uma cabeça em câmera lenta e em close - leia mais em nossa resenha. Geralmente, o diretor passava no escritório após uma filmagem. “Tínhamos dias bizarros, em que explodíamos uma cabeça no set e depois íamos a uma reunião sobre a Rainha.”

O cineasta teve de ser astuto quando chegou ao Palácio de Buckingham no verão passado para filmar a Rainha e o ator Daniel Craig – o atual James Bond – para a festa olímpica. “Não podia usar jeans”, lembra ele. Sua Majestade foi profissional sob sua direção? “Foi ótima. Lida com as câmeras o tempo todo, faz parte de sua vida. É inteligente. Ela julgou que o Jubileu seria muito formal, e que a Olimpíada poderia ser menos. Mas foi insano tentar colocá-la com Craig na mesma sala. Ela também queria que parte de seu pessoal aparecesse – como um criado chamado Paul, que está com ela há muito tempo. Pensei: ‘Isso é legal’”. Pelo trabalho no evento esportivo, Boyle foi escolhido para ser condecorado por Elizabeth II, mas não aceitou a honraria. “Não queria publicidade. Mas não posso ser falsamente modesto. Tenho orgulho do que fizemos. Isso basta para mim.”

Agora que Boyle comandou um projeto tão imenso e conseguiu ter James Bond atuando para ele, será que se vê dirigindo algo na escala de um filme do 007? “Adoro cineastas como Christopher Nolan e Ridley Scott e seus filmes. Mas, pode parecer grosseiro, gosto de ser um pouco mais guerrilheiro, o que só é possível com uma equipe menor.” Seu longa de estreia, Cova Rasa, de 1994, era mesmo um filme de ‘guerrilha’. Trainspotting veio em 1996 e, desde então, ele aplicou seu estilo frenético no filme de zumbis Extermínio, na ficção científica Alerta Solar e na fantasia realista Quem Quer Ser um Milionário?.

Em Transe traz um jogo psicológico que se passa em Londres; James McAvoy é um funcionário notável de uma casa de leilões que se vê envolvido em uma conspiração depois de ser golpeado na cabeça durante um assalto no trabalho e perder a memória. Os ladrões – incluindo um malévolo Vincent Cassel – precisam que ele lembre onde um quadro está escondido. Ele acaba em sessões de hipnose com Rosario Dawson e o filme mergulha em um turbilhão narrativo.

A história depende de algumas viradas essenciais e Boyle me pede que o ajude a “proteger o segredo mais íntimo do filme”. Quando fala sobre isso, ele cita longas-metragens como Amnésia e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, que não tiveram medo de deixar a história um pouco difícil de entender.

De alguma forma, Boyle conseguiu, juntamente com o diretor Sam Mendes, de 007 – Operação Skyfall, fazer de 2012 o ano dos cineastas britânicos. “Há uma questão maior aí”, insiste ele, quando já nos preparamos para ir embora. “Mendes, Stephen Daldry [diretor de Billy Elliot e que supervisionou as cerimônias olímpicas] e eu viemos do teatro. Então, quando os políticos sugerem que a cultura não deve ser essencial, é insano. O outro perigo no momento é em relação aos teatros regionais e ao financiamento deles. Arrisca-se algo muito valioso ao deixá-los definhar. Uma das coisas na qual acham que somos bons neste país é na cultura.”

Escrito por Dave Calhoun
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