Entrevista: Terence Davies

Autor de filmes de época, o britânico fala sobre seu novo trabalho, o drama 'Amor Profundo' 

Vincent West/Reuters
Terence Davies


Terence Davies não é dos cineastas britânicos mais conhecidos no Brasil. Provavelmente, porque seu último longa-metragem ficcional, A Essência da Paixão, seja de 2001. Mas o diretor é aclamado como um dos mais talentosos em seu país e sempre que pega a câmera, é para rodar filmes de época. Alguns deles são autobiográficos, inspirados em sua infância, vivida nos anos 1950, em Liverpool, na Inglaterra. Agora, ele apresenta Amor Profundo (leia a nossa resenha aqui)baseado em uma peça de Terence Rattingan, de 1952. No drama, Hester (Rachel Weisz) é uma mulher perturbada que deixa o marido rico por um piloto de avião charmoso, mas insensível.

Como chegou a Amor Profundo?

A Fundação Rattigan me abordou. Falaram: “Você filmaria uma das peças para o centenário [de Terence Rattigan]?”. A princípio, não me convenci. Amor Profundo não é uma história notável. O primeiro ato inteiro é expositivo, o que acho muito chato. Mas pensei que se conseguisse contar a história a partir do ponto de vista de Hester, então toda essa exposição desapareceria.

Você viu a versão feita em 1955?

É horrível! O que [o diretor Anatole Litvak] fez, na verdade, foi fotografar a peça. Para quê? E a atuação de Vivien Leigh é terrível.

Como escolheu Rachel Weisz para interpretar Hester?

Não assisto muito à televisão, mas certa noite de domingo estava passando um filme [Trazido pelo Mar] e essa garota apareceu. Um rosto luminoso, uns olhos maravilhosos. Liguei para meu empresário e perguntei: “Você já ouviu falar em Rachel Weisz?”. Ele respondeu: “Você é o único que nunca ouviu falar dela”.

E Tom Hiddleston?

Para [o personagem] Freddie, tive de ver muita gente. Foi bastante desanimador. Os jovens atores na Inglaterra têm uma ideia agora – sabe Deus de onde a tiraram – de que você deve mudar as falas para lhe servirem. Não é assim que funciona. Você deveria encontrar o personagem. Eu realmente entrei em desespero. E, então, veio Tom. Lemos as cenas juntos e encontramos Freddie. Simples assim.

Você voltará a fazer um filme autobiográfico?

Não, filmei minha vida em Liverpool, as coisas que me afetaram na infância.Eu era um católico muito devoto. Rezava até meus joelhos sangrarem, pois queria ser curado da minha homossexualidade. Nunca fui feliz com isso. Em uma família de classe operária, era algo sobre o qual nunca se falava.

Há uma temática recorrente tanto neste novo filme quanto em seus títulos autobiográficos: os personagens encontram solidariedade ao cantarem em grupo. Este era um passatempo comum nos anos 1950?

Com certeza. As pessoas da classe operária iam ao pub no fim de semana. E cantavam! Geralmente, clássicos americanos. Era absolutamente normal. Não pensavam: “Ah, tenho uma voz boa, tenho de ser famoso”. Só gostavam de cantar. Isso não existe mais.

Todos os seus filmes são de época. Algum dia veremos um filme de Terence Davies ambientado na Grã-Bretanha contemporânea?

A Inglaterra onde cresci sumiu. Mesmo depois da guerra – nasci em 1945 –, as pessoas se comportavam de maneira apropriada. E sinto falta disso. Hoje somos o país menos civilizado da Europa. Amo muito meu país, mas sou seu crítico mais severo. O motivo de sermos tão obcecados pela Segunda Guerra Mundial é que essa foi a última vez em que fomos importantes.

Em seu documentário Sobre o Tempo e a Cidade (2008), você afirma odiar os Beatles. Era brincadeira?

Não! Uma de minhas irmãs me levou para assistir a Jailhouse Rock, com Elvis Presley. Eu tinha só 11 anos e fiquei inquieto o filme inteiro. Depois vieram os Beatles e eles eram ainda piores, ainda mais banais! Sem nenhum talento perceptível, até onde sei. Eu os odiava na época, e ainda os odeio com paixão!


Escrito por A.A. Dowd
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