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Carey Mulligan: entrevista

A atriz britânica fala sobre sua heroína no filme 'O Grande Gatsby'


Carey Mulligan e Baz Luhrmann tinham um ritual durante as filmagens de O Grande Gatsby. Todas as manhãs, o diretor batia à porta do trailer de sua protagonista, pegava sua mão, a levava ao set e arrumava seu vestido. O objetivo, diz Mulligan, era “fazer eu me sentir uma dama”.

É a primeira coisa que ela me conta durante um chá no Hotel Claridge’s, em Londres. Mulligan está serena, mas também um pouco brincalhona. Isso me surpreende, porque ela sempre parece tão séria quando posa para os fotógrafos.  “Não gosto de foto. Eu costumava ser muito pior no tapete vermelho. Só ficava parada lá...” Ela imita a si mesma dando um sorriso amarelo e cômico. “Ao fim, eu estava aos prantos. Meu assessor de imprensa precisava me arrumar e me empurrar de volta ao evento. Estou um pouco melhor agora, mas o olhar das pessoas me apavora...”

Talvez seja por isso que ela tenha tanto talento para desaparecer no personagem. A atriz surgiu em Educação, no papel de uma colegial que recebe uma lição de amor de um homem mais velho e enganador. Desde então, não houve dois trabalhos parecidos: era sábia demais para sua idade em Não Me Abandone Jamais e confusa e autodestrutiva em Shame. “Ajuda eu ter um rosto esquecível”, ri, acrescentando, mais séria: “Gosto de fazer algo drasticamente diferente a cada vez. Não quero que o público pense em mim como eu mesma”.

Gatsby é a exuberante adaptação megamilionária que Luhrmann, diretor de Romeu + Julieta, fez do romance sobre ganância, alpinistas sociais e amor mal-sucedido, escrito por F. Scott Fitzgerald nos anos 1920. Leonardo DiCaprio é Jay Gatsby, o homem misterioso que faz e perde fortuna por amor. Mulligan vive a rica e bela Daisy Buchanan, a mulher que recebe sua devoção.

Este foi o papel feminino mais desejado de Hollywood durante anos, e Luhrmann pensou em muitas atrizes: Scarlett Johansson, Michelle Williams, Blake Lively, Keira Knightley e Natalie Portman. Quando Mulligan recebeu o convite para o teste, não havia lido Gatsby.  “Não estudei o livro na escola.” Ela voou para Nova York para uma confusa sessão com Luhrmann, Leonardo DiCaprio e uma sala cheia de câmeras. A coisa toda parecia tão “além das possibilidades”, que ela nem ficou nervosa: “Pelo menos, eu poderia dizer: ‘Contracenei com DiCaprio por uma hora e meia’.”

Ela conta que cruzou com Luhrmann em um restaurante de Los Angeles, algumas semanas depois do teste – ainda sem saber se tinha conseguido o papel. Ele foi até ela, que se levantou, sem jeito. “Eu havia tomado um martíni. E um drinque para mim é suficiente. Enquanto conversávamos, eu me perguntava: ‘Será que meu rosto está vermelho? Estou sendo articulada?’” Luhrmann ainda lidava com os testes de vídeo naquele momento. “Ele fez todo um discurso” – ela engrossa a voz – “‘Bem, você sabe, Carey, sou um cientista...’ E falava de forma poética, enigmática. Eu pensava: ‘Estou bêbada ou essa conversa não está fazendo sentido?’” Uma semana depois, ela caiu no choro quando ele lhe telefonou dizendo: “Olá, Daisy”.

Daisy Buchanan é uma das heroínas da literatura mais difíceis de gostar. Fitzgerald a descreve como “uma menina de ouro” que prefere o dinheiro ao amor. “É difícil compô-la porque ela não se conhece de verdade”, analisa Mulligan. “Está sempre representando, isso é tudo o que tem a oferecer.” A atriz pesquisou as mulheres nas quais Daisy é inspirada: a problemática mulher de Fitzgerald, Zelda, e seu primeiro amor, Ginevra King. Belos e malditos, Zelda e Fitzgerald eram um casal-celebridade antes dos casais-celebridade existirem.

Fitzgerald, um dos maiores talentos de sua geração, morreu em decorrência do alcoolismo aos 44 anos. Zelda, ícone feminista e escritora, morreu oito anos depois, num incêndio em seu hospital psiquiátrico. Mas, muito antes disso, Fitzgerald se apaixonou por Ginevra, uma linda debutante de 16 anos que conheceu em 1915. Eles se escreveram durante dois anos até a família dela convencê-la a se casar com um pretendente rico. A fala do pai dela – “Moços pobres não deveriam pensar em se casar com moças ricas” – foi direto para O Grande Gatsby.

Será que Mulligan não está um pouco apavorada com a ideia de se tornar uma megacelebridade com esse filme?  “Isso seria enervante.” Sua voz enfraquece: “Mas, sabe, é engraçado, ninguém nunca me reconhece”. Eu não teria tanta certeza.

Escrito por Cath Clarke
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