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Joss Whedon: entrevista

O homem por trás da série 'Buffy, a Caça-Vampiros' e do filme 'Os Vingadores' fala de sua nova investida, uma adaptação de Shakespeare


Quem conhece Joss Whedon aprendeu a esperar nada menos que o inesperado deste mutante produtor, roteirista e diretor norte-americano. Trata-se de um artista que pegou uma série de TV sobre vampiros com um título bobo – Buffy, a Caça-Vampiros – e a transformou no seriado mais incisivo sobre as angústias adolescentes de todos os tempos.

Ele conseguiu ainda assumir um projeto televisivo problemático, a série Firefly – um faroeste no espaço sideral, nada menos que isso – e, de alguma forma, fazê-lo renascer das cinzas como uma fênix. E após dirigir Os Vingadores, o maior sucesso de bilheteria de 2012, repleto de efeitos especiais e homens vestindo collants, ele concebeu uma adaptação em preto e branco de uma comédia shakespeariana, cujo custo total é menor que um dia de bufê nas filmagens de Os Vingadores.

Enquanto os reles mortais relaxariam após filmar o épico de super-heróis da Marvel, o cineasta de 48 anos chamou um grupo de amigos atores para rodar uma produção de guerrilha da peça Muito Barulho por Nada, literalmente em seu próprio quintal.

A princípio, a combinação dos versos de Shakespeare com o timing cômico supersarcástico dos pupilos de Whedon (Amy Acker, Alexis Denisof, Nathan Fillion) sugere um episódio perdido de Buffy, a Caça-Vampiros, mas o cineasta cult não está cortejando a ironia. Como ele disse à Time Out, essa produção improvisada foi resultado de uma longa obsessão pelo conto do Bardo sobre artimanhas envolvendo casais apaixonados: os noivos Claudio e Hero armam para juntar os amigos Beatrice e Benedick.

Você estava em uma pausa de 11 dias na produção de Os Vingadores e, naturalmente, decidiu filmar alguma coisa...
Não, não, nós filmamos em 12 dias. O que é isso, tentar filmar algo em 11 dias? Seria loucura! 

Tinha concluído a produção de Os Vingadores, mas não havia iniciado a pós-produção?
Foi um mês depois de terminarmos a produção, enquanto trabalhávamos na pós-produção; já estávamos editando e fazendo ajustes enquanto rodávamos o filme, simplesmente porque o cronograma era muito apertado. Algumas pessoas da Marvel ficaram até ofendidas com a ideia de eu tirar férias, mas eu disse: “Olha, foi uma filmagem estafante; preciso de uma semana de folga”. Porém, cerca de um mês antes da folga, minha mulher [a produtora-executiva Kai Cole] sugeriu do nada que, em vez de relaxar em uma praia, filmássemos Muito Barulho por Nada por perto de casa. Por alguma estranha razão, pensei: é uma ótima ideia. Um dos pontos fortes dela como produtora é que só quer que as pessoas façam aquilo que realizam bem. É algo que temos em comum, e eu quis Alexis e Amy protagonizando o filme. Desejava que as pessoas vissem como Nathan [Fillion] pode ser engraçado. Sabia que eles poderiam fazer essas coisas muito bem. Então, tomado por essa ridícula impulsividade, simplesmente me joguei: “Sim, posso adaptar uma peça em duas semanas! Sim, vou ensaiar a tarde inteira! Sim, devo tirar vantagem do fato de meus amigos serem talentosos e conhecerem muito bem esse texto!”.

Divulgação
Fran Kranz (à esquerda) e Nathan Fillion em 'Muito Barulho por Nada'


Essencialmente, isso tudo começou com você organizando leituras de Shakespeare nas tardes de domingo em sua casa ao longo dos anos, certo?

Talvez tenha começado até antes disso, quando minha mãe e meu padrasto promoviam leituras no Dia de Ação de Graças. Mas, sim, lá pela quinta temporada de Buffy, começamos a organizar domingos preguiçosos que giravam em torno de Shakespeare, inspirados pelo passatempo de feriado da minha família. Essa peça em especial foi uma que fizemos várias vezes em casa, com Alexis e Amy lendo os papéis dos amantes Benedick e Beatrice – e com as canções que você ouve no filme, que escrevemos especialmente para uma das leituras. Sempre houve uma ótima energia em torno daquelas encenações em particular, portanto, quando Kai e eu começamos a falar sobre filmar algo naquele ínterim, foi a primeira coisa que nos veio à mente.

Você pensou em filmar essa peça antes, no intervalo entre séries de TV ou na época da greve de roteiristas de 2007-2008?
Não, porque, por mais que eu tenha visto ótimas produções dela ao longo dos anos e sempre tenha adorado o texto, não sentia que realmente entendia o todo do que Shakespeare estava fazendo com a narrativa. Não sentia que tinha uma pegada cinematográfica da peça. Aí, quando Kai me deu o livro durante a filmagem de Os Vingadores, foi como lê-lo pela primeira vez. De repente, pensei: “Ah, sei exatamente como fazer isso!” Aí era hora de começar.

Você se lembra da primeira produção de Muito Barulho por Nada que viu?
Foi uma montagem perfeita no Regent’s Park Open Air Theatre, em Londres, quando estava no ensino médio. Assisti a ela três vezes; era uma mostra de repertório que incluía Sonho de uma Noite de Verão, que também vi três vezes. Lembro-me da maneira como o ator que fazia Benedick falou a frase “This can be no trick” [“Não pode ser brincadeira”] – eu pirei, foi tão engraçado. Eu tinha grande afeição pela peça, embora isso fosse anos antes de realmente entender que a história apresenta dois lados da mesma moeda. Shakespeare justapõe um conto muito leve com um muito pesado e com isso está dizendo que o que achamos acreditar e sentir são basicamente manipulações do que nossa sociedade espera que pensemos e sintamos. Tudo isso, e ainda tem final feliz... Quero dizer, é uma história que vale a pena contar! [Ele coloca o rosto muito perto do gravador] Pessoal aí fora, só vou dizer uma coisa: não mato ninguém desta vez, ok? Prometo que nenhum querido personagem shakespeariano morre nas minhas mãos!

Aposto que, se chamássemos 20 escritores diferentes e perguntássemos o que adoram no texto de Shakespeare, teríamos 20 respostas diferentes...
Espera, você vai fazer isso agora? [Olha freneticamente em volta] Tem 20 escritores se preparando para surgir das sombras?! Tem, não tem? Onde entro na fila?

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Amy Acker em 'Muito Barulho Por Nada'



















Não faremos isso, não. Mas, já que você, Joss Whedon, está aqui, pergunto: o que tem na obra dele que faz você sempre voltar a ela?

Sabe no que se resume? Ele ama tanto tudo e todos. Digo, seu amor pela língua é óbvio, assim como seu amor por contar histórias; o cara conseguia mudar de gênero ou de humor em um piscar de olhos. Mas Shakespeare é o tipo de dramaturgo que nos leva para dentro da alma de seus arquétipos, não só de seus protagonistas. Ele nos empolga com a intensidade de uma grande revelação e, então, nos derruba. Você pode voltar a ler suas peças pela risada, pelas ideias, pela maneira como pequenos detalhes e o contexto maior se encaixam... Você pode viajar com uma única sílaba dele. É o pacote completo.

Ele dá belas falas para coveiros e bobos da corte, assim como para príncipes e reis.
Exato! E não importa se o papel é grande ou pequeno, você sempre tem a noção de que todo gesto e fala contam. Lembro-me de quando estava dirigindo Adam Baldwin no piloto da série Firefly, ele exagerava na raiva do personagem. Quer dizer, o papel dele era de um assassino cruel, mas a interpretação parecia demais. Então o puxei de lado e disse: “Adam, não o interprete como um criminoso. Você não é um louco, você é o cara bacana e esta história é realmente sobre você. Pense no personagem como um protagonista”. Ele adaptou perfeitamente. É assim que penso os personagens de Shakespeare, especialmente os de Muito Barulho por Nada. Alguém veio até mim após a estreia e disse: “Uau, isso é tão diferente de Os Vingadores!”. E pensei que, na verdade, não é. Foi preciso fazer cada um daqueles super-heróis brilhar e a plateia sentir como se soubesse de onde cada uma daquelas pessoas veio antes de salvar o mundo. Eu tinha de saber por que eles estavam dispostos a arriscar tudo.

Para saber, começa-se fazendo perguntas...
E termina com você querendo descobrir quais são as respostas. É por isso que eu precisava fazer Muito Barulho por Nada. [Pausa] Porque percebi [o personagem] que Borachio está apaixonado por Hero, na verdade. Essa é a única explicação para mim. Um vez que se percebe isso, o texto é aberto de uma forma muito incrível. Torna a história de Margaret tão forte e triste também. Então, sabendo que tinha todos esses grandes atores prontos para começarem, queria garantir que houvesse uma motivação para aparecerem todos os dias, mesmo que seus papéis não fossem tão grandes.

Esse é um tema recorrente em sua obra: a ideia de pessoas unindo-se por uma causa comum. Isso está em Buffy, em Firefly, em Os Vingadores e, até um certo ponto, neste filme. O texto pode até ser de Shakespeare, mas o filme passa a sensação de ser um projeto de Joss Whedon.
Bem, um cineasta tem de ser específico e ir além do que foi escrito – mesmo que o autor seja o mais brilhante em língua inglesa de todos os tempos. Você precisa direcionar o material para o que te move, e a ideia de uma comunidade se unindo para enfrentar a escuridão me atrai. O mesmo vale para personagens femininas poderosas – não só Beatrice, que obviamente é um papel forte, mas também papéis de apoio, como Hero, que não podia ser bobinha. Eu queria que suas falas dissessem implicitamente: “Tenho o direito de me erguer e ter voz”. Isso também é muito parte do meu mundo. Então, sim, essa peça envolve muito das temáticas que exploro há algum tempo.

Filmar Os Vingadores e depois rodar um longa em 12 dias em sua casa. Você acha que o processo de fazer uma produção menor, em um esquema mais de guerrilha, irá alterar a forma como trabalhará em projetos maiores no futuro?
Nunca há tempo o suficiente para trabalhar em algo, não importa se você estiver fazendo em 12 dias ou em 12 meses, de verdade. E a necessidade é sempre mãe da invenção, independentemente do tamanho do projeto. Você precisa disso para ter inspiração criativa. Tivemos bastante problema com Os Vingadores, em termos de fazer malabarismo com cronogramas e construir os cenários em tempo, o que foi uma garantia de que as coisas nunca seriam fáceis. Mas havia dias em que estávamos em locações lindas e perfeitas, e eu simplesmente ficava perdido. Aí nos mexíamos para ir a um lugar muito difícil para filmar – e, então, eu estava no paraíso [risos]. Quanto mais você se choca com as realidades do mundo, mais se vê forçado a tomar decisões criativas que parecem mais críveis ou simplesmente mais empolgantes e arrojadas. Acho que as restrições são em parte o que faz as coisas funcionarem.

Quem é seu público, para quem filma?
Em qualquer coisa que eu faça – seja pequena, seja grande –, tudo se resume a tentar realizar algo para todos. Shakespeare escreveu para as massas, sua obra foi e é incrivelmente popular, e sei que ainda tem gente que não vai ver um filme de Shakespeare, ponto. Mas mostrei o filme para amigos meus e os dois deles me disseram: “Nunca iria ao cinema ver algo assim e, no entanto, adorei”. Não fizemos um filme do tipo [empola a voz] “estamos aqui para declamar majestosamente blá blá”. É uma comédia romântica. As pessoas talvez demorem uns minutos para se ajustar à linguagem, mas [o filme] é sobre duas pessoas que fazem coisas ridículas em nome do amor. Quem não se identifica com isso?


Escrito por David Fear
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