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Woody Allen: entrevista

Em sua sexta década de carreira, o cineasta mostra que está em plena forma com 'Blue Jasmine'

Quando encontro Woody Allen em Paris, o legendário cineasta está exatamente como você esperaria: óculos grossos no nariz, calça bege puxada para cima, com um olhar assustado e uma estrutura tão franzina que dá a impressão de que poderia ser derrubado por uma corrente de ar que passasse por baixo da porta.

Mas não se engane pela aparência frágil: ele goza de um sucesso notável aos 77 anos. Dois anos atrás, Meia-Noite em Paris rivalizou com o estouro de bilheteria de seus clássicos dos anos 1970 – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan. Agora, o novo longa Blue Jasmine promete a mesma proeza.

Allen é o nova-iorquino típico e, ao longo das décadas de 1970, 80 e 90, transformou sua cidade em palco para filmes que redefiniram radicalmente a comédia no cinema. Ele foi o protagonista na maior parte deles, interpretando variações do intelectual tenso, paranoico e desesperadamente romântico. Mas, na última década, Allen fez as malas para filmar na Europa na maioria dos verões. Hoje em dia, é tão provável vê-lo rodando cenas em Londres quanto tocando com sua banda de jazz em uma segunda-feira perto do Central Park, em Nova York.

Seguindo essa nova tradição, ele passou o último verão na Côte d’Azur fazendo um filme com Colin Firth. Mas hoje ele está em Paris para falar de outro longa, rodado nos Estados Unidos, algo cada vez mais raro. Blue Jasmine é uma tragédia com pitadas de humor – mostra uma nova-iorquina rica (Cate Blanchett) que busca refúgio em São Francisco com sua irmã menos endinheirada (Sally Hawkins). É um de seus melhores filmes em anos.

Você passou oito dos dez últimos verões fazendo filmes no exterior. Essas cidades novas dão a você ideias frescas e mais energia ao chegar perto dos 80 anos?
Gosto disso porque dá à minha família a oportunidade de ter férias. Acabamos de voltar do sul da França; trabalhei lá o verão inteiro. É interessante e provocativo para mim, mas limitado: não há muitos lugares onde eu queira passar três meses. Fiz quatro filmes em Londres porque é um lugar bom para trabalhar. Mas não gostaria de filmar em Damasco.

Consegue pensar em algum outro lugar no mundo onde de fato gostaria de morar?
Se não pudesse morar em Nova York, provavelmente moraria em Paris, e depois Londres. Mas, se precisasse ficar nos Estados Unidos, provavelmente iria para São Francisco.

Blue Jasmine se passa lá. Há uma década, isso geraria comentários para alguém que é tão identificado com Nova York.
Sim, mas San Francisco é a boa costa oeste! É adorável e bela. Não é como Los Angeles, que melhorou, tenho amigos lá, mas ainda é chata. São Francisco não: é charmosa e interessante. A Jasmine do filme precisava visitar sua irmã em algum lugar, e eu precisava de algum lugar onde conseguisse viver com graça durante uns meses.

Você tem origens bem modestas no bairro do Brooklyn, mas seus filmes são cheios de gente abastada e intelectuais. Por quê?
É a vida com a qual tenho familiaridade. Também tenho familiaridade com as classes mais baixas, pois cresci nelas. Mas eu tinha 19 anos quando me mudei para Nova York. Comecei a sair com mulheres, a me casar, a ter amigos. Ao longo das décadas, as pessoas que eu conhecia, e cujas experiências podia registrar, moravam em Manhattan: elas tinham uma educação melhor e mais segurança financeira. Elas são das classes média, média-alta e até mesmo alta – e eu era da classe baixa. Elas me interessam. São divertidas. São tolas. O fato de terem educação e dinheiro não as impedem de fazerem bobagens tremendas e de levarem vidas trágicas. Mas, de vez em quando, me vem uma história como Broadway Danny Rose, e gosto disso.

Divulgação
Woody Allen com Alec Baldwin e Cate Blanchett no set de 'Blue Jasmine'

Você sabe quando fez um bom filme?
Sei pelos meus padrões, mas isso não tem relação alguma com a resposta do público. Se tenho uma ideia no quarto e adoro o que escrevo, e faço o filme, às vezes penso: “Isso é perfeito, fiz exatamente o que me propus a fazer”. Mas, na maioria das vezes, termino e tenho um sentimento negativo. Penso: “Ah, meu Deus, tinha uma ideia tão boa e veja o que fiz com ela”. Geralmente, você tem uma surpresa desagradável quando vê o que fez. De vez em quando, pensa que é o que queria.

Com quais de seus filmes você ficou mais contente?
A Rosa Púrpura do Cairo acertou em cheio. Tiros na Broadway acertou. Maridos e Esposas acertou. Meia-Noite em Paris acertou. Eles são exatamente o que eu queria fazer. Foram os que concebi no quarto, que é onde escrevo. Sempre trabalhei no quarto. Levanto de manhã, tomo café da manhã, faço esteira, levo as crianças para a escola e daí volto para dentro do quarto, me deito na cama e escrevo. É assim que funciona.

Você escreve rápido?
Escrevo muito rápido. Realmente rápido. A pessoa pode me pedir para reescrever uma cena e eu estar no banheiro com ela, pego e reescrevo em cinco minutos. Não sou perfeccionista. Não fico obcecado pela palavra certa. Nenhum pouco. Sou um escritor descuidado e rápido.

Cate Blanchett está excelente como uma mulher acabada em Blue Jasmine. Você acha que escreve melhor papéis sérios para mulheres do que para homens?
É mais confortável para mim, não sei por quê. Quando comecei, só escrevia para homens, e eu era o protagonista. Falavam que sempre escrevia para o cara e seu ponto vista, era limitante. Então, depois de viver com Diane Keaton [atriz em oito de seus filmes e sua companheira nos anos 1970] e conhecê-la bem, ela me impressionava e era muito influente. Consegui escrever Noivo Neurótico, Noiva Nervosa para ela. Foi o primeiro papel feminino realmente significativo. Daí me vi escrevendo para mulheres na maior parte do tempo. Isso evoluiu inconscientemente e, agora, você tem razão, especialmente quando o personagem tem de ser mais sério e a história é mais complexa, gravito em torno dos problemas das mulheres.

E você acha mais fácil ser engraçado sobre os homens?
É muito mais fácil. Fico muito mais confortável sentindo a perspectiva dos homens quando faço comédia. Acho que é porque sou comediante. Sinto isso a partir de minhas próprias experiências.

E na sua vida, você prefere a companhia de homens ou de mulheres?
Oh, prefiro a companhia de mulheres, e não digo isso brincando. Sou cercado por mulheres. Minha produtora é minha irmã, tenho duas filhas e estou em companhia feminina sempre. Me sinto muito confortável no meio de mulheres, mais relaxado. Não deveria ser assim, pois minha mãe era uma disciplinadora rígida e meu pai era um cara amável e fácil, que me levava a jogos de beisebol. E, ainda assim, minha tendência natural é gravitar em torno da companhia feminina.

Atualmente você atua menos nos seus filmes. Sente falta?
Estarei em um filme que o ator John Turturro dirigiu, em um papel pequeno [Fading Gigolo: Allen faz um cafetão amador, que começou tarde]. No momento, não escrevo para mim. É só porque houve um tempo, durante décadas, em que eu podia pegar a mocinha e ser o herói. Mas, quando se fica mais velho, as possibilidades de papéis diminuem. Não posso mais atuar como o marido que quer a mulher do vizinho ou o cara que baba pela menina. Não é verossímil. É difícil encontrar papéis para mim que sejam engraçados. Não quero os papéis geriátricos. Quero fazer algo engraçado. Se no futuro houver um ótimo papel para mim, eu o escreverei e o farei. A vida fica mais fácil se sou o astro do filme. Significa que não tenho que dirigir ninguém. Isso reduz as conversas. Não é o dobro de dificuldade dirigir a si mesmo. É metade da dificuldade.

O número de filmes que você fez sugere que nunca para de trabalhar. Ou para?
Não trabalho duro se comparado a um taxista ou professor ou policial. As pessoas acham que fazer um filme por ano é esmagador. Não é. Uma vez que você tem o dinheiro e o roteiro, quanto tempo demora? Não é grande coisa. Tenho tempo de sobra para brincar com minhas filhas, ir a jogos de basquete, ver filmes, fazer caminhadas, tocar com minha banda de jazz. O problema é fazer bons filmes, essa é a parte difícil. Fazer filmes não é difícil.


Escrito por Dave Calhoun
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