Julia Louis-Dreyfus: entrevista

Estrela de 'Seinfeld' fala sobre vocação para cenas constrangedoras e como foi atuar com James Gandolfini

Lacey Terell/Divulgação

Estamos acostumados a ver Julia Louis-Dreyfus se humilhando para nos divertir: aquela dança de casamento patética em Seinfeld, ou o grande volume de cenas que a envolvem sofrendo os ataques dos jornalistas de Washington na série Veep, da HBO. A comediante de 52 anos não vê problema em se colocar em situações pouco lisonjeiras para arrancar boas risadas; no entanto, como mostra Nicole Holofcener, diretora de À Procura do Amor, ela fica igualmente confortável interpretando algo mais emotivo.

Como a massagista divorciada que reencontra o amor nos braços de James Gandolfini (morto em junho, em seu penúltimo papel), Louis-Dreyfus traz um pouco de compaixão à mulher que vive uma segunda chance no amor – quando não está tentando fingir que não sabe alguns segredos de seu novo amante em potencial. A Time Out conversou com a atriz que ficou conhecida como Elaine, em Seinfeld, no Festival de Cinema de Toronto. Ela falou sobre a cringe-comedy (comédia que deixa as pessoas desconfortáveis), sua grande ligação com a diretora do filme e como foi trabalhar com o grande e saudoso James Gandolfini.

Como você descreveria Eva, sua personagem em À Procura do Amor?
Ela é uma mulher que está enfrentando muitas mudanças – a filha indo para a faculdade, essa ideia de ficar presa à rotina – que estão gerando uma tormenta emocional, ao ponto de nem se dar conta disso. Daí ela encontra quem goste dela – e começa a fazer uma coisa muito horrível. É claro, né? Ela tem um probleminha com os limites nos relacionamentos.

E é fácil se identificar com alguém que faz uma coisa muito horrível, imagino.
Naturalmente! [risos] Não, digo, compreendi a personagem logo de cara. Não estou dizendo que eu faria o que ela fez na mesma situação... Eu espero que teria agido melhor. Mas, realmente, foi o que inicialmente me atraiu: não era um papel extravagante; era alguém que parecia o tipo de pessoa que você encontra de verdade em Los Angeles. Ela é uma massagista que cuida de todo mundo, mas que não consegue cuidar de si mesma. A sensação de “sim, sei quem ela é” veio muito rapidamente.

Você era fã do trabalho de Nicole Holofcener?
Uma grande fã! Digo, alguém sem ser a Nicole ainda faz esse tipo de filme? O tipo em que pessoas com mais de 30 falam sobre decisões erradas e as lutas e os fracassos da vida? E de um jeito engraçado? 

Certamente não de forma tão consistente quanto ela. Esse tipo de coisa foi muito para a TV agora.
Isso! Há momentos muito reais, crus e guiados pelo diálogo nos filmes dela, que realmente não vejo mais na tela de cinema. Então, sim, eu queria trabalhar com ela já havia algum tempo. Quando finalmente nos conhecemos, imediatamente nos demos bem. Somos almas irmãs! [risos] Nós duas tivemos uma reação de “Espera aí, por que não nos encontramos antes? Por que demorou tanto?”

Lacey Terrell/Divulgação

Nicole Holofcener (à esq.), James Gandolfini e Julia Louis-Dreyfus no set

 Suas sensibilidades cômicas parecem realmente similares.
São mesmo, mas é mais do que isso: moramos na mesma cidade, temos mais ou menos a mesma idade, temos filhos com a mesma idade... Sério, por que não fazemos isso há décadas? Estávamos confabulando sobre como retratar Eva, apesar de que senti que era importante, em algum momento, ver essa personagem pelo menos tentando fazer a coisa certa nessa bagunça em que ela está. Isso não existia no começo, mas eu realmente pensei que era preciso ver que ela quer evitar uma catástrofe completa, ainda que não evite. No final, Nicole também chegou à mesma ideia.

Eva é a personificação daquela máxima sobre boas intenções.
Ela segue um caminho bem pavimentado, com certeza.

Você parece ter facilidade para interpretar personagens que podem parecer desagradáveis e autocentradas. Quero dizer, você participou de uma série que forçava a ideia do quanto uma pessoa pode ser desagradável e, ainda assim, ser engraçada...
‘Sem aprendizado, sem abraço’ [‘no learning, no hugging’, no original, o lema que rege o comportamento dos personagens do seriado Seinfeld]. É isso.

Lacey Terrell/Divulgação

Julia (à esq.) interpreta massagista que vive uma segunda chance no amor 

Mas você consegue encontrar tanto a comédia quanto a compaixão nessas pessoas cheias de falhas, não acha?
É mais fácil neste papel, pois Eva é uma pessoa mais legal que os outros personagens que fiz. As pessoas mais bacanas podem cometer erros. E me incluo nisso: gostaria de pensar que sou uma boa pessoa, e piso na bola o tempo todo. Então, sei de onde ela vem. Acho um monte de coisas engraçadas, mas adoro quando posso atuar [em situações de] constrangimento. Isso é realmente o melhor quando se é comediante.

Elaine, Selina Meyer (da série Veep), Eva: todas parecem sofrer com momentos extraordinários de constrangimento social. Então é esse o seu nicho, não é? 
Vergonha e humilhação são meu pão e manteiga cômicos.

Você e James Gandolfini têm uma química ótima no filme. Como foi trabalhar com ele?
Ele é – era – um ator tão talentoso que foi fácil fazer cenas longas, cheias de diálogo com ele. Quer dizer, de qualquer forma adoro fazer esse tipo de cena, e sempre dá muito trabalho fazer duas pessoas falando parecerem naturais na tela. Mas, com Jim, de fato pareceu natural; ele era incapaz de ser mentiroso quando estava atuando. Sei que parece um pouco esquisito dizer isso, certo [risos]? Mas havia uma genuinidade na maneira como atuava nesses momentos comigo, que você realmente sentia que estava exatamente ali. O homem era um ator generoso, 100%. Foi uma alegria trabalhar com ele.


Escrito por David Fear
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