Time Out São Paulo

Peter Weir: entrevista

 O cineasta australiano de Caminho da Liberdade fala com a Time Out

Um grupo de pessoas vaga pelo deserto de Gobi. O sol é inclemente; o horizonte, estendendo-se em todas as direções, parece infinito. Ondas de calor erguem-se em padrões sinuosos, borrando a perspectiva. Então, vêm as miragens: trata-se de um oásis na distância ou apenas de uma ilusão?

 

Esta sequência impressionante é parte de "Caminho da Liberdade", do diretor australiano Peter Weir. Ambientado na Segunda Guerra Mundial, o filme retrata a trajetória de inabaláveis fugitivos de um gulag siberiano, em uma adaptação do livro "A Longa Caminhada", de Slavomir Rawicz. Apesar de o filme representar vastidões – planícies áridas, florestas labirínticas, montanhas nevadas –, a longa peregrinação dos fugitivos através das vastas dunas mongóis foi amplamente comparada às aventuras de Lawrence da Arábia. Em seu escritório, Weir, 66 anos, rapidamente rebate.

 

"Acho que essa comparação é só por causa do deserto", diz, sorrindo. "Para mim, a única influência fílmica foi 'Dersu Uzala', de Akira Kurosawa, que na verdade foi filmado na Sibéria. A forma como muito pouco acontece em termos de incidente ou confronto naquele filme me arrebatou. O cinema é particularmente adequado para perturbar nosso equilíbrio, estimulando o espectador a ver o mundo de outra forma. Como cineasta, procuro os temas que têm algum tipo de conexão invisível com minha própria sensibilidade. 'Caminho da Liberdade' atingiu-me naquela parte mais recôndita e pessoal."


Trilhando seu caminho

Weir vem construindo sua trajetória há anos. Um dos destaques da nova onda australiana, junto a talentos como Fred Schepisi ("Chant of Jimmie Blacksmith") e George Miller ("Mad Max"), ele construiu sua fama com filmes como "Picnic na Montanha Misteriosa" (1975) e "A Última Onda" (1977). "Tive sorte de estar lá", diz ele, sobre o influente movimento cinematográfico. "Lugar certo, hora certa." Espetáculos históricos ("Gallipoli", de 1981) e filmes hollywoodianos ("A Testemunha", 1985) vieram em seguida. Mesmo os filmes de maior bilheteria, como o drama "Sociedade dos Poetas Mortos" (1989), estrelado por Robin Williams, apresenta sequências desconcertantes – como o assustador, quase pagão, suicídio de Robert Sean Leonard –, que só poderiam vir das mãos de Weir.

 

Esteticamente impetuoso e intimista no enredo, "Caminho da Liberdade" enquadra-se perfeitamente na eclética obra do diretor. O elenco é cosmopolita: um americano (Ed Harris), um britânico (Jim Sturgess) e estrelas da nova onda romena (Alexandru Potocean e Dragos Bucur). O drama, como acontece em filmes como "A Costa do Mosquito" (1986) e "Mestre dos Mares" (2003), emerge principalmente da interação dos fugitivos com a paisagem do que uns com os outros. A natureza é o antagonista silencioso ("nossa prisão", diz uma das personagens); em contraste com as tendências atuais do cinema digital, Weir efetivamente levou os atores a locações reais e inclementes. "Eu fui para os lugares reais, e fiz com que representassem outros países", diz. "A floresta búlgara tornou-se a floresta siberiana. Marrocos representou Gobi. Acho esse método muito inspirador, apesar de que você pode cair em uma perigosa armadilha. Como ir até esses lugares é uma aventura, você pode facilmente pensar que vai se deparar com o filme. Às vezes você olha para seus diários e fica chocado. Felizmente, neste caso foi extremamente evocativo."

 

Existir

Sturgess, 32 anos, dirige o grupo representando o refugiado polonês Janusz, que quer desesperadamente reencontrar sua mulher. Em uma entrevista concedida de Los Angeles por telefone, o ator manifesta profunda admiração pelos métodos do diretor: "Com Peter, tudo é tão detalhado – deve ser correto e sincero", diz. "Ele realmente procurou muito por aquelas locações. O mesmo com as línguas: muitos filmes têm apenas pessoas falando inglês com sotaque. Mas ele tomou a decisão de ter o inglês apenas como o idioma coletivo. Quando uma personagem conversava com alguém de seu próprio país, falava na língua nativa. Novamente, é Peter tentando encontrar a verdade. Eu me senti muito cuidado. Quando você atua num ambiente como esse, tudo o que você precisa fazer é existir."

 

Existir, ao menos na tela, não é tarefa fácil. Conforme os fugitivos atravessam os terrenos de punição, sofrem fisicamente (pés cheios de bolhas, sangrando) e emocionalmente (uma personagem é tão impactada pelas temperaturas abaixo de zero, que se perde em alucinações). Seu objetivo é um só: sobreviver. O mesmo se aplica aos cineastas. Pergunte a Weir como ele consegue mantém sua perspectiva única no cinema de hoje, e ele responderá em tom condescendente, mas ainda assim otimista. "Está cada vez mais difícil, certamente", diz. "O mercado agora é principalmente para crianças, ou os filmes são infantis. Eu poderia sair a qualquer momento, se quisesse. Mas, de alguma forma, cineastas nunca se aposentam. Eu acho que você tem apenas que se adaptar. E se adaptar, no meu caso, significa não fazer filmes que eu não esteja a fim de fazer. Eu simplesmente não consigo."

Escrito por Time Out São Paulo editors
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