Lixo Extraordinário

Documentário sobre o lixo e as pessoas que lidam com ele

Vik Muniz / Divulgação

O projeto do artista brasileiro Vik Muniz de criar arte a partir do lixo e das vidas das pessoas que trabalham com ele é o tema do documentário "Lixo Extraordinário", dirigido por Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley. A co-produção brasileira e britânica, indicada ao Oscar, arrebatou prêmios em vários festivais, nacionais e internacionais – do Festival Paulínia de Cinema, no estado de São Paulo, ao Festival de Sundance.

 
Enquanto desenvolvia este projeto artístico experimental, junto aos catadores do Jardim Gramacho, o maior aterro sanitário da América Latina, Muniz teve uma surpresa desagradável: "A área tem um cheiro que impregna sua pele. Você precisa de horas na banheira para eliminar o fedor. Para trabalhar em um lugar como esse, você deve ter muita força de vontade", afirma. Lá, ele encontrou pessoas diligentes, dignas, orgulhosas do que faziam e com senso de humor. "Há algumas histórias inacreditáveis, de humanismo impressionante. Eu aprendi muito com esses caras."

Catadores
Muniz, que vive em Nova York, elaborou o projeto durante um período de inquietações profissionais. "Eu precisava renovar a ideia da existência da arte. Não apenas para mim, mas para os outros também." A ideia era documentar um processo artístico em seu conjunto, do ponto de criação à exposição da obra. A questão: "A arte pode mudar as pessoas?".
 
Com o intuito de acessar os resultados do experimento usando pessoas que tinham pouco ou nenhum contato com arte, Muniz - conhecido por produzir imagens com materiais inusuais, como açúcar, geleia de morango e diamantes - decidiu trabalhar com o que a sociedade considera mais indigno: o lixo.
 
O plano inicial era fotografar cenas no aterro e então reconstruí-las, usando os materiais recicláveis coletados pelos catadores, que, em troca, receberiam os lucros da venda das obras. Mas ele não imaginava que se envolveria tão intimamente com a comunidade de catadores.
 
Tião Santos, catador desde os sete anos, fundador e presidente da Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano do Jardim Gramacho, descobriu por meio de sua relação com Muniz que "a arte não é feita apenas para os ricos, com inteligência sobrenatural", mas pode também "ser transformadora e contribuir para as vidas das pessoas". Santos testemunhou as transformações em sua própria vida.
 
"Esta experiência nos fez refletir sobre o que os catadores ganham com a reciclagem e sobre a importância da coleta seletiva do lixo." Santos, que se encontra na vanguarda da discussão sobre lixo no Brasil, espera que a visibilidade do filme contribua para a promoção de políticas públicas sobre gestão do lixo.
 
"Este é o valor agregado da obra", acredita Muniz. "Este filme prova que todos têm o direito de experimentar a arte, porque ela enriquece a vida."
 
Retrato de um aterro
A vastidão do Jardim Gramacho, que supostamente será fechado, é imediatamente perceptível no filme: as imensas dimensões do aterro, urubus ameaçadores, as pessoas recolhendo materiais recicláveis em meio a uma incomensurável quantidade de lixo, onde até um bebê morto foi encontrado. "Lixo Extraordinário" não é apenas um retrato de um aterro e dos indivíduos que tiram dali seu sustento, mas é também uma imagem da carreira artística de Vik Muniz.
 
O produtor-executivo Jackie de Botton acredita que Muniz tenha iniciado um grande processo de transformação, para ele e todos os envolvidos no projeto. "É possível estimular mudanças na sociedade e, neste caso, políticas públicas voltadas à reciclagem."
 
Há arte e beleza na feiúra e no fedor? Muniz acredita que sim: "Trabalhar com o que é mais feio na sociedade e transformá-lo em algo bonito faz um ser humano querer ser melhor."
 

 

 

 

 

Escrito por Time Out São Paulo editors
 

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