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Kate Winslet: entrvista

Atriz fala sobre seu novo filme, 'Refém da Paixão', e de como é ser uma mulher normal em meio a fama

Ser normal é o charme de Kate Winslet. Isso e ser uma das atrizes mais talentosas de sua geração. Habituada a receber indicações ao Oscar, ela finalmente venceu Melhor Atriz por O Leitor em 2009. Em seu novo longa, Refém da Paixão, ela atinge a mesma excelência de Foi Apenas um Sonho, interpretando a mãe solteira e agorafóbica (que tem medo de ficar sozinha em espaços abertos) de um adolescente. A reviravolta acontece num feriado escaldante, quando aparece um assassino foragido (Josh Brolin). Como ela diz: “Quando você pensa que ele vai cortar suas gargantas, ele faz um bolo.”

Sua personagem em Refém da Paixão, Adele, é muito frágil. Ela é agorafóbica e deprimida, mas tem esse amor incrivelmente forte pelo filho. Foi difícil encontrar um equilíbrio entre essas características?
Fico tão feliz por você ter dito isso, porque achei isso um desafio nela. Eu não queria que ela fosse uma pessoa nervosa durante o filme inteiro. E admirava muito sua habilidade como mãe, de colocar o filho em primeiro lugar. Ela tem depressão, mas não fica choramingando pelos cantos, de camisola até às três da tarde, se afogando numa garrafa de gim. Ela está, de uma certa forma, mantendo o controle para conseguir criar aquele menino adorável.

Você acha que teria conseguido interpretar o papel antes de ter sido mãe?
Não. É muito interessante. Fiz O Expresso de Marrakesh com 22, 23 anos, e teve muita coisa que precisei supor em relação aos instintos maternais por não ser mãe. Mas, com Adele, não acho que teria sido capaz de dar vida a ela se não fosse mãe. Mais especificamente mãe de um adolescente. Minha filha Mia já tem quase 13 anos e me dá um nó na garganta descrever essa fase da vida, porque tudo é um gigantesco ponto de interrogação. Todo dia é exaustivo, pois estão explodindo de curiosidade. “Isso é certo? Isso é errado? Como tenho que ser?” E você quer simplesmente abraçá-los e só ficar ouvindo. Tudo o que eles querem mesmo é ser ouvidos.

Mães solteiras enfrentam muitas dificuldades, mas Refém da Paixão mostra o quanto é um trabalho duro. 
Você está certa; mães solteiras têm mesmo uma vida difícil. A sociedade é incrivelmente cheia de julgamentos. Escuta, eu sei disso. Minha vida já me levou por diversos caminhos que nunca esperei seguir. Nem em um milhão de anos. E sei como é viver sem saber como fazer para se virar no dia seguinte. Não importa se você tem ou não dinheiro, se é famoso ou não. É o caso de todas as mulheres, na verdade – você precisa seguir em frente. Você sempre precisa seguir em frente. E consegue, porque precisa.

Você trabalhou durante sua atual gravidez. Como foi isso?
Trabalhei da nona à 20ª semana, mais ou menos, então não foi tão ruim – é menos do que a maior parte das mulheres trabalha. Mas foi interessante tentar esconder os peitos sob um corpete. Meu Deus, a gente ria tanto depois. Aí eu olhava para o corpete de manhã e tinha vontade de chorar.

Você se mudou de Nova York de volta para a Inglaterra. É bom estar em casa?
Sim. Mas, para ser sincera, nunca tive muito a sensação de ter ido embora. A gente sempre voltava no verão, Natal e Páscoa. Tem coisas de Nova York de que as crianças sentem falta – de vez em quando ficamos nostálgicos, sentindo falta do barulho dos táxis ou do nosso parque favorito. Uma coisa que amo em estar de volta é a chuva daqui. Olhando pela janela agora, está chovendo e o céu está escuro – adoro. Para mim, essas coisas são reconfortantemente inglesas. Amo quando chove.

Você tinha 22 anos quando Titanic foi lançado. O que a impediu de se tornar uma diva de Hollywood?
Eu sou legal [risos]! Sério. Por que eu faria isso? Fui criada para ser uma pessoa educada e decente, e pude ver como algumas pessoas mudam e ganham uma noção horrível de poder e direito a tudo. Nunca senti que tivesse o direito de ser insuportável. Simplesmente não acho que é assim que se deve ser na vida, famosa ou não.

Que conselho daria para si mesma, aos 19?
Nenhum. Não acredito muito em arrependimento. De verdade. Sem querer ser espiritual a respeito do assunto, não existe literalmente nada na minha vida que me faça pensar: “Droga, queria não ter feito isso”. Cada momento pelo qual passei; tudo o que fiz na minha vida profissional e na minha vida pessoal é parte de quem eu sou. Você aprende a partir das coisas pelas quais passa na vida. Nunca gostaria de dizer que me arrependo de qualquer coisa ou que algo foi um erro. Honestamente, não foi desse jeito que escolhi viver minha vida.

Quão cientes seus filhos estão da sua fama?
Não muito. Porque não esfrego isso na cara deles. Nunca os exponho a isso. Às vezes, se estamos passeando em Londres e as pessoas começam a sacar câmeras de celular, Mia me diz: “Mãe, põe o chapéu” ou “Olha lá.” É preciso não levar essas coisas muito a sério e seguir em frente. Realmente, temos uma vida supernormal.

Você expôs e criticou uma revista que a deixou mais magra, com edição de imagem. Por que isso é importante?
É que acredito em dar exemplos reais, sabe? Não permito revistas em casa. Quando eu era mais nova, queria cortar meu cabelo igual ao da fulana que estava uma série acima na minha escola, não como o de alguém numa revista. Você vê meninas novas tentando se vestir como tal e tal pessoa porque viram várias fotos dela.

Você acha que ficou mais confortável e confiante com seu corpo ao ficar mais velha?
Olha. Tenho 37 anos. Só temos uma vida. Não quero perder tempo pensando no tamanho da minha bunda. Quero ser o mais saudável possível e quero me divertir o máximo que puder. Quero ser presente para os meus filhos. Só isso. Estas são minhas prioridades. Não é ter uma barriga reta. Não me entenda mal, gosto de estar em forma e saudável; isso tudo faz parte de uma atitude saudável em relação à vida. Não acho que esteja sozinha. Vejo cada vez mais atrizes com curvas por aí. E, de vez em quando, a moda nos dá uma modelo um pouco mais curvilínea. Apenas acredito em ser normal e saudável.

Então não vamos vê-la correndo atrás de recuperar a forma, depois de ter o bebê.
Não; como as pessoas têm tempo para isso? Além do quê, sejamos sinceros. Todo mundo é diferente. Voltar por mágica à forma depois de ter um bebê não é uma coisa que aconteceria comigo com facilidade. Mas isso sou eu. Tenho uma grande amiga que é naturalmente muito magra e está cinco semanas à minha frente na gestação. Ela deve comer três vezes o que como. Eu a vi esta manhã e disse: “Você voltará à forma literalmente três semanas depois de ter seu filho”.

Em Refém da Paixão, você fica cara a cara com você aos 50 anos de idade. Envelhecer é algo que a preocupa?
Não, não é. Realmente adoro quando vejo aquele ar de juventude em homens e mulheres mais velhos. Meu pai tinha esse ar brincalhão. Ficar mais velho significa experiência de vida.

Está ansiosa por seus anos de Meryl Streep?
Se chegar neles, sim, claro. Seria incrível. Minha geração de atrizes tem muita sorte, pois temos pessoas como Meryl e até Emma Thompson, Susan Sarandon, Vanessa Redgrave e Judi Dench para nos inspirar. Não é interessante como são atrizes que todos queremos ver? Elas são reais, são aquelas cujas vidas podemos ver estampadas em seus rostos. São mulheres verdadeiramente bonitas.
 


Escrito por Cath Clarke
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