Darren Aronofsky: entrevista

Após ‘Cisne Negro’, o cineasta poderia fazer o que quisesse. Então por que ele optou por correr ricos e dirigir ‘Noé’?

Niko Tavernise/Divulgação
O cineasta Darren Aronofsky nas filmagens do filme 'Noé'

Darren Aronofsky me encontrou para uma xícara de chá (“eu já tomei café antes”, ele me confessou) em uma mesa de um café no West Village, em Nova York. Seu novo filme, Noé — uma versão criativa e sincera da história bíblica (estrelada por um torturado Russell Crowe) — já vem causando polêmica com grupos religiosos e plateias-teste mesmo antes de seu lançamento. Além disso, teve seu roteiro vazado na internet.

Orçado em cerca de US$ 130 milhões, esse é o filme mais caro da carreira desse cineasta bom de papo de 45 anos que nasceu no Brooklyn (Nova York) e que parece feliz em encarar uma verdadeira enxurrada de debates que está por vir.

Tem certeza que não seria mais fácil dirigir um filme do Wolverine? Noé parece ser uma aposta arriscada para Hollywood.
Quando cheguei a Hollywood depois de fazer Pi, um dos primeiros projetos que mostrei a Lynda Obst [produtora] foi sobre a história de Noé. Ela me perguntou: “Você sabe no que está se metendo?” E eu disse: “Sim!” Mas eu era um diretor muito novo na época. Eu venho tentando fazer esse filme desde o início de minha carreira. Por anos venho tentado mostrar que o gênero bíblico seria perfeito para ser reinventado com a tecnologia do século XXI.

Qual é a origem dessa obsessão?
Com 13 anos de idade, tive um professor na escola que disse em uma aula: “Peguem uma folha de papel e escrevam alguma coisa sobre paz.” Eu escrevi um poema sobre Noé que acabou ganhando o concurso. Foi a primeira vez que ganhei alguma coisa.

Mas essa não deve ser toda a história. Não há perigos em lidar com um material como esse?
Bem, acho que estamos vendo alguns desses perigos agora. Há, com certeza, uma controvérsia acontecendo. Principalmente nos Estados Unidos. Não há como fazer uma interpretação literal do Velho Testamento. Não há como transformar uma história de quatro capítulos em um longa sem alguma interpretação. Por exemplo: Noé nunca falou nada na Bíblia. Mas se você escala Russell Crowe para o papel, não há outra coisa a se fazer. Escalar apenas atores brancos já é uma interpretação.

Suas interpretações foram longe demais? Você colocou Noé interagindo com anjos de CGI (imagens geradas por computador) e, pode-se dizer que ele entende de forma errada a palavra de Deus.
Há uma outra forma de ver isso. A de que Noé está sendo testado. Espero que o público veja por um prisma que deixe os clichés de lado. O que eles vão ver não é um daqueles filmes bíblicos que suas avós viam. Quem é religioso verá ideias da história original, mas representadas de uma maneira que eles não esperavam.

Como diretor, com quem você se identifica mais, Noé ou Deus?
[Risos] Na verdade, para mim, o elemento mais emocional da história é Deus. No começo dela, ele está farto da humanidade e verdadeiramente aflito com nossas fraquezas. Ele quer justiça. Mas no final há o arco-íris, que é quando Deus encontra o perdão e promete nunca mais destruir da Terra de novo. Essa é a essência da história.

Seria ótimo saber exatamente como você conseguiu convencer Russell Crowe a fazer esse filme.
Eu disse: “Prometo que não vou filma-lo em um barquinho com duas girafas atrás de você.” E quando cheguei ao estúdio disse: “E esqueça essa coisa de robes, sandálias e longas barbas brancas.”


Escrito por Joshua Rothkopf
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