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David Fincher: entrevista

O queridinho dos críticos volta a marcar mais pontos com seus admiradores em seu novo – e surpreendentemente engraçado – thriller, 'Garota Exemplar'

A cena mais importante da carreira ainda em ascensão de David Fincher – de 2007 – acontece em uma cafeteria, um daqueles espaços industriais que o cineasta sempre preferiu. O filme é Zodiaco, uma história assustadora que se passa no fim dos anos 1960, inspirada no pânico causado por um serial killer em São Francisco (EUA). Puxando algumas cadeiras de plástico, os policiais se sentam. Na frente deles está um suspeito. Arthur (o perturbador John Carroll Lynch) que os encara de volta. Irritantemente, ele usa um relógio de pulso que exibe o logo do assassino. “Eu não sou o Zodíaco”, Arthur Gallingly, Arthur diz. “E, se eu fosse, com certeza não diria para vocês”. No espaço entre o que a gente acha que sabe e o que ele esconde, está a carreira do rei da enganação do cinema.

"Eu espero que não seja tão fácil assim," Fincher diz, ao responder uma pergunta – uma que ele ouve muitas vezes – sobre sua queda por comportamentos duvidosos. "Se algum dia eu farei outro filme sobre um serial killer? Eu nunca digo nunca, mas eu não estou procurando por isso. Não estou evitando isso também."

Vamos acreditar em sua palavra. Ele está ocupado demais trabalhando em filmes substanciais que o levaram de um bom cineasta para o status de queridinho dos críticos. Nos ligando de um hotel em Estocolmo, na Suécia, o diretor de 52 anos, de filmes como Seven – Os Sete Crimes Capitais, Clube da Luta, A Rede Social e Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, está em um clima brincalhão, que o mantém ao telefone por quase duas horas.

Nosso principal assunto é Garota Exemplar, o livro de suspense de 2012, escrito por Gillian Flynn, que você deve ter visto muita gente carregando por aí – esperamos que sem estragar o mistério. O livro é o mais novo lançamento de David Fincher, e esse é um par perfeito. O livro traz um clima voluptuoso ao cenário de Gillian – uma jovem esposa desaparece e o seu marido se torna o principal suspeito em um circo muito televisionado pela mídia – enquanto dá ao diretor um monte de material psicológico para explorar, assim como ele tem feito com a série do Netflix House of Cards, que ele produz. Aliás, fazendo História, no ano passado David se tornou o primeiro vencedor do Emmy de um programa exibido por streaming.

Você vai ter que me ajudar aqui, pois eu não quero entregar nada da história. Um casamento feliz não parece um assunto que você se interessaria e, claramente, Garota Exemplar não é um filme sobre isso também. 
Eu estava procurando por algo que nunca havia visto antes. O livro falava de narcisismo de um jeito muito interessante – da forma com que nós criamos não só uma versão ideal de nós mesmos com a esperança de seduzir um parceiro, mas na esperança de seduzir alguém que provavelmente está fazendo a mesma coisa. [Ele ri.] Gillian estava reparando no que é que coroe a base do casamento.

O livro soa como uma sátira ao casamento, um tipo que apenas duas pessoas muito espertas e autoconscientes poderiam ter. Gillian Flynn também escreveu o roteiro do filme.
Gillian tem plena consciência do que ela está fazendo. Ao mesmo tempo, ela é aquele tipo de espectadora que está comendo pipoca e estalando o pescoço. O fato de que ela havia escrito essa história nos fez pensar: Sabe, ela seria capaz de massacrar os queridinhos dela? Mas ela não apenas deu uma aparada – foi um desmatamento! Ela podia entrar e simplesmente tirar tudo o que não estava funcionando. E isso ganhou uma proporção tão grande que criou a ideia de que ela teria criado um novo capítulo. Era a mesma coisa, mas atacado de uma forma diferente.

Para um roteiro de estreia, é bem impressionante. Enquanto isso, você nunca aceitou um crédito de roteirista em nenhum de seus filmes. 
Porque eu não escrevo.

Mas parece que suas contribuições são parecidas com escrever.
Eu sou um ótimo colaborador como diretor, mas não sou um roteirista. Eu acho que escrever é um jeito muito difícil para as pessoas dizerem “Ei, fui eu que decidi que isso devia ser uma contração.” Isso não é autoria. Quando um ator diz “Eu tenho um jeito melhor de se dizer isso”, eu não o considero um roteirista, eu considero que ele é um ator fazendo o que ele deve fazer.

Você diria que o trabalho de um diretor é interpretativo?
É adaptativo. Você está fazendo uma adaptação. Você está dizendo “Eu entendo o que você quer dizer no seu texto”. E você está mexendo elementos que já existem no livro que a autora (no caso Gillian) passou muito tempo pensando sobre.

Vamos falar sobre Amy Elliott Dunne. Ela é uma personagem fascinante, um fantasma perfeito. Sua lenda permanece no filme – mesmo por sua vida, além dos livros de seus pais 'Amazing Amy'. Ela diminui todos os personagens com sua ausência. Garota Exemplar parece um filme sobre obsessão, assim como Lolita.
Ela é o sol do sistema solar do filme. A gente conversou sobre Lolita. Mas, de um jeito estranho, foi quando a gente estava tentando decidir quem faria o personagem Desi (o ex-namorado Bizarro de Amy). Eu estava falando de Clare Quilty do Lolita, porque parece que esses personagens não tem os pés no chão. Eles não são do mundo real. Desi é um colecionador.

Fale sobre a atriz Rosamund Pike. Ela é uma estrela.
Eu estava buscando uma certa opacidade. O que eu amei sobre a Rosamund foi que eu não fazia a menor ideia de quantos anos ela tinha. Pensei que ela poderia ter uns 22 anos, ou 42. E eu tinha uma imagem da ex mulher do John F. Kennedy Jr, Carolyn Bessette. Eu queria a esposa troféu para um intelectual bem intencionado.

Quanto de Amy – especialmente com a escolha da Rosamund para interpretá-la – tem de nos afetar visualmente, sem que nós a conheçamos de verdade?
É exatamente isso. Você não tem como a conhecer. Foi isso que falamos quando começamos a escolher os atores de House of Cards. Tinha muita gente dizendo “Ah, então esse relacionamento entre Francis e Claire é como o Bill Clinton e a Hilary.” E eu disse “Não, definitivamente não é.” Tem que ser impossível de relacionar. Eu queria que a Amy fosse essa nossa criação. Eu precisava de algo de Rosamund que ela não podia dar. Não importava o quanto gostaria de poder falar sobre essa qualidade, você tinha de estar lá, na 18ª hora do dia, com todo mundo completamente exausto e você não poderia bater neles: eu precisava da filha única. Então eu a conheci e eu disse “Me conta dos seus irmãos.” E ela respondeu “Eu não tenho nenhum.” Óbvio que eu pensei: Isso!

Ben Affleck foi também escolhido a dedo. Quanto da imagem dele entrou para o filme? Há uma beleza em Nick, quase como uma coisa embonecada.
Bom, a gente definitivamente insistiu nisso. Tem uma coisa que as pessoas não sabem sobre Ben Affleck: ele é inteligente demais. Ele pode ser malvado e reclamão. E ele tem um intelecto fantástico. Ele escolhe – porque eu acho que tem o lado ator dele que quer ser gostado – a deixar as outras pessoas de fora. Mas é o intelecto dele e o fato dele realmente entender a droga de ser perseguido por paparazzi 24 horas por dia – ele passou por isso quando se casou com Jennifer Gardner – que é: você não tem como virar esse jogo. Você nem mesmo está no jogo.

Essa ideia de jogar com a mídia – ou ser usado por ela – é tratada em muitos dos seus filmes, não só Garota Exemplar e A Rede Social, mas mesmo lá atrás, em Seven – Os Sete Crimes Capitais. Eu me pergunto se você tem um pouco de medo do poder da mídia.
Eu não sei mais se eu a vejo como uma fonte de coisas boas. Eu não leio a revista People. Eu não estou acima disso. Mas eu não acho que a mídia em Garota Exemplar é um antagonista. Ela está lá para complicar a história. Eu estou falando das pessoas que dizem “Temos de ter um escândalo. Temos de ter algo acontecendo.” Isso é um animal para o qual você não tem como estar preparado.

O que você pensa sobre essa história das fotos de celebridades nuas?
Como alguém que nunca quis tirar uma foto nua de mim mesmo, o ímpeto de gerar um material desses está além da minha compreensão. Mas Gillian Flynn tem interesse nesse tipo de coisa. E ela encontrou um jeito de falar sobre o que acontece entre quatro paredes, segmentando a casa e cortando os participantes. Tiro meu chapéu para ela, pois é uma ótima combinação entre o intelectual e o inculto.

Depois do filme A Rede Social, você foi lançado no mundo de nominações ao Oscar e outros prêmios. Eles são importantes para você?
Seria totalmente desonesto dizer que qualquer um não gosta de ter o reconhecimento de pessoas que sabem o quão difícil é fazer esse tipo de coisa. Mas nós não estamos curando o câncer. Estamos simplesmente criando entretenimento e, se pudermos melhorar sua qualidade, é muito bom. Mas é complicado. Se eu preferiria gastar o meu tempo em fazendo outra coisa que não seja sentar desconfortavelmente, usando smoking, sendo analisado? Sim, tem muitas coisas que você pode fazer durante quatro horas que não causam o mesmo enjoo.

Como você lida com essa atenção pessoal?
Há poucas coisas que são tão colaborativas como fazer um filme. Hollywood é o culpado por criar uma lenda de que tudo é feito da mesma forma, e que ninguém toma uma decisão sem saber os efeitos. Mas o fato é que é mais como a alta costura, vocês está fazendo uma coisa exclusiva e únca que tem de ir à passarela. As pessoas tem de aplaudir e você tem de vender 100 milhões de dólares em ingressos.

Você deve saber que tem a fama de ser perfeccionista. É algo que te faz ficar na defensiva?
Fico na defensiva com a palavra perfeccionista, acho que ela é muito usada, que nem “ousado”. As pessoas tem preguiça até de usar a palavra certa. Perfeccionista é um jeito educado de se dizer compulsivo, E eu não acho que sou isso. É um termo que as pessoas que não fazem ideia de como o filme é feito usam. É um balé sem ensaio. Você não pode ensaiar uma tomada. Você tem de chegar e fazer o que tem de ser feito. E tem tantas coisas que podem acontecer entre o que você quer e você mesmo.

Você passou por isso gravando Garota Exemplar?
Quando o Tyler Perry apareceu ele estava tipo: “Você está de brincadeira? A gente vai fazer outro? Por quê?” A gente não refez porque algo deu errado, refizemos pois eu acho que cometeremos um erro – em algum momento quando todo mundo fica entediado – que vai parecer mais humano do que qualquer coisa que oferecemos até agora. Se eu conseguir que o ator esqueça o nome do meio dele, eu acho que podemos encontrar algo que nos fará pensar: é sempre a melhor tomada quando o ator se despe dele mesmo.

Você acha que tem essa conversa com os atores frequentemente?
Sim, o tempo todo! Olha o papel que Ben Affleck interpreta nesse filme. Ninguém quer ser encurralado logo no começo do filme. E aí se ver mais encurralado ainda pelas próximas duas horas. Você tem de ter muita confiança em si mesmo para passar pelo o que Nick Dunne passa.

As pessoas vão se surpreender ao ver o Tyler Perry no filme.
Eu amo ele. Ele é um cara que eu fui atrás para convencer a fazer parte do filme. Eu o conheci quando estava em Atlanta fazendo os testes para o filme O Curioso Caso de Benjamin Button. Ele tem um lugar enorme com sete ou oito estúdios de gravação. Quando eu entrei no prédio, eu vi esse cara no teto, controlando um aviãozinho, que voava em círculos. Alguém me disse que o Perry já estaria conosco. E eu pensei, é isso que o Tanner Bolt deve ser. Ele é o cara que te deixa esperando até que ele termine de voar com o avião de controle remoto dele.

Os seus primeiros filmes foram difíceis de serem feitos. Como funciona agora, 30 anos depois?
Eu não tive uma boa experiência com os dois primeiros filmes que fiz com a Twentieth Century Fox. No meu primeiro filme [Alien 3], eu estava esperando uma colaboração, e eu não espero mais isso. Eu acho que sou contratado para fazer um filme. E em Garota Exemplar nós conseguimos mais do jeito que queríamos. Eu sou muito honesto sobre o filme que pretendo fazer. Eu falo sobre essas coisas antes, eu quero que as pessoas que estão pagando pelo filme entendam o que eu quero fazer, afinal você está trabalhando com expectativas ali.

Você se surpreende com aonde você está agora com a sua direção?
Não quando seu relógio te apressa, pois você já passou por mais ou menos 30 reuniões sobre: Qual é o efeito disso? Por que ele usaria esse relógio? O sangue não estará na roupa, estará na pele. Você tem todas essas discussões, então não – você não deveria ficar surpreso.

Talvez de uma forma mais geral, então, com a sua arte.
Eu sempre penso isso quando está tudo pronto, quando a gente pode mexer bem com isso e todo mundo está na mesma página. Me dá um grande alívio porque você diz “Todo esse trabalho pode realmente resultar em algo no sentido do que conversamos.” E é isso...Se não acontecesse nunca, eu acho que teria vontade de me dar um tiro! Mas aí tem horas que o tempo está terrível, alguém está super atrasado, e você começa do jeito errado, mas aí você senta e pensa em como fazer a cena dar certo. Mas sim... se você passa todo um tempo respondendo a todas as perguntas e o resultado não sai em nada como você planejou, seria muito deprimente.


Escrito por Joshua Rothkopf
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