Entrevista: Peter Jackson

Astros da trilogia 'O Hobbit' sabatinam o cineasta

Paul Stuart

Será que daria para Peter Jackson parecer menos o homem mais poderoso do cinema? Ele resgatou uma camiseta amassada do fundo do seu armário porque a gente vai tirar uma foto dele hoje. E ele não é fã de sapatos – "Só estou usando hoje porque temos uma maldita sessão de fotos!" Ainda assim, não há como não entender a sua influência: o neo-zelandês de 53 anos é o homem no qual Hollywood confiou U$1 bilhão para fazer as trilogias de J. R. R. Tolkien O Senhor dos Anéis e O Hobbit.

Cada um dos cinco filmes já arrecadou cerca de U$1 bilhão em bilheterias. Peter fez as histórias de fantasia serem legais novamente (sem O Senhor dos Anéis, não haveria Game of Thrones). Ele também transformou a Nova Zelândia em um centro mundial para efeitos especiais (sem contar no fato de ter virado o destino de férias dos sonhos de todos os nerds do mundo). Você pode reverenciar ou culpar o diretor por mais um marco: fazer blockbusters epicamente longos. Juntando todos os filmes da saga, temos no total mais de 17 horas de história – e isso antes dos cortes dele.

Hoje Peter está cansado. A estreia de O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos está se aproximando e ele está correndo contra o tempo para finalizar o filme. Nos encontramos em um estúdio de produção em Londres. Sua voz é profunda e rouca, como se ele estivesse lutando contra um resfriado, e ele se joga no sofá com uma xícara de chá. Ele se anima imediatamente em responder perguntas que nós pegamos com atores que trabalharam com ele que o conhecem bem, como Martin Freeman (Bilbo Baggins) e Andy Serkis (Gollum). Quando eu comento que a equipe da Time Out acabou de assistir o trailer do novo Star Wars, ele me implora para não contar nada: ele está guardando para mais tarde. Ele realmente é o geek dos filmes geeks.

Bom, há exatos 15 anos você estava na Nova Zelândia filmando os filmes de Senhor dos Anéis. Aqui estamos, uma década e meia depois, e você terminou o terceiro e último O Hobbit. Você deu uma festa?
Então, terminamos faz uma semana. Corremos contra o tempo, trabalhando 20 ou 22 horas por dia. O último dia durou 40 horas, sem dormir. O time fazia turnos, e eu fiquei lá. Aí um homem de terno vem e tira isso de você! Se eu comemorei? Eu fui pra casa e dormi!

Você está feliz com o filme?
Dos três, é o meu favorito. É um suspense. Cada filme tem o seu estilo – mesmo eu tendo filmado os três ao mesmo tempo. Cada um tem uma personalidade, como quando você tem três filhos. Todos tem a mesma genética mas cada um tem suas características. Esse é definitivamente um suspense.

Ian McKellen: Você acha que permitiriam um parque da Terra Média – como o do Harry Potter na Flórida? Se sim, você gostaria de ser o curador desse lugar?
Ha! Acho que a resposta é provavelmente não. Eu não acho que eles tenham qualquer desejo de fazer um parque da Terra Média. Eu guardei um monte do figurino porque eu sempre faço isso, sou um colecionador. Não acho que o parque vá existir um dia, mas quem sabe...

Richard Armitage: Pete, essa pergunta é sobre tesouro. Tendo passado momentos preciosos com você, sei que você é um colecionador de objetos de filmes e de guerras. De tudo que você tem, para qual você dá mais valor?
A minha coisa favorita é o modelo original do King Kong, de 1933. Eu comprei em um leilão. Está guardado em um lugar seguro longe de casa, e os meus items ficam lá como se estivessem em um museu. O modelo tem um lugar especial. Só quem realmente aprecia esses objetos pode ir lá ver. São poucas pessoas.

Você algum dia vai tornar essas coisas mais públicas?
Uma das coisas que eu pretendo fazer em 2015 é criar um pequeno museu de filmes na Nova Zelândia. Me próximo projeto não é um filme, é tornar esse museu real.

Ian McKellen: Se você tivesse que sair da Nova Zelândia para sempre, onde você seria mais feliz?
Nossa, eu não sei. Talvez no Reino Unido, tenho uma afinidade. Meus pais são da Inglaterra. Com certeza não seriam os Estados Unidos. Prefiro o estilo de vida dos britânicos.

Ian McKellen: Você tem um lugar favorita das filmagens?
Tenho, mas não acho que Ian esteve lá. Se chama Poolburn Dam e é onde filmamos Rohan, em O Senhor dos Anéis: As Duas Torres (2002). É onde o Aragorn e o Legolas estão tendando encontrar Pippin e Merry, que tinham sido sequestrados. É uma ótima locação. Uma paisagem épica de vazios, você não encontra nenhuma casa.

Martin Freeman: Foi difícil a decisão de assumir O Hobbit quando Guillermo del Toro desistiu em 2010? Ah, e obrigada pelos anos maravilhosos.
Foi difícil sim, nunca tinha sido parte do plano. Eu só produziria os filmes. Então ofereceram a Fran (esposa e co-roteirista e produtora) e a mim outros filmes que queríamos produzir. Sei que Guillermo teria feito algo muito, muito interessante. Mas além dele não havia outro diretor com quem eu ficasse confortável, então foi mais fácil assumir. A irônia é que eu fiquei muito feliz depois que eu fiz isso, foi muito divertido. Aprendi muito.

Evangeline Lilly: O que é a pior coisa de usar sapato?
Eu não uso sapato normalmente. Eles são desconfortáveis, não gosto mesmo de usar. Mas socialmente devemos, como nas cerimônias de tapete vermelho e nos restaurantes. Não sou um rebelde. Também uso no set porque é muito perigoso. A Evangeline não usa sapatos fora do set também!

Você ainda se impressiona com o tanto de gente que assiste os seus filmes?
Lógico! É muito excitante! Emocionante. Especialmente quando você veio de filmes de baixo orçamento, que você faz para um número limitado de pessoas. Quando eu estou pelo mundo e vejo um pôster de um dos meus filmes eu penso: Deus, essas pessoas realmente vão assistir os meus filmes? Uau.

Andy Serkis: Se você pudesse confrontar e derrotar qualquer tirano da história, literatura, cinema ou cultura popular, quem seria?
Bem complicado, hein? Claro que Hitler estaria no topo da lista. O mundo teria sido melhor sem ele. Mas não é algo que eu penso muito! Essa pergunta diz mais sobre o Andy do que sobre mim! Ele deve pensar muito nisso!

Você acha que O Senhor dos Anéis e O Hobbit mudou as nossas expectativas sobre os filmes?
Não sei, não posso responder isso. Eu espero que um dia um diretor conhecido chegue para mim e diga que só está fazendo algo porque assistiu O Senhor dos Anéis quando ele tinha sete anos. Eu conheci a Fay Wray, a atriz de King Kong, e pude dizer para ela que só estava fazendo isso porque vi o filme que ela fez em 1933. Foi uma experiência estranha.

Alguns dos maiores diretores – Steven Spielberg, James Cameron – te procuram para pedir conselhos. Como você se sente?
Se você tem sorte, essa é uma das vantagens: colaborar com quem você cresceu admirando. Eles me inspiraram. Eu já disse para Steven que ele arruinou o meu verão de 1974 por causa do maldito filme Tubarão! Quando você os conhece, vê que eles são iguais a você. Somos todos grandes geeks, essa é a verdade.

Benedict Cumberbatch: Você está cansado de responder perguntas?
Para te falar a verdade, agora eu não estou. Você é a primeira pessoa a me entrevistar sobre o novo Hobbit. Se você me perguntar daqui a duas semanas, eu definitivamente vou te dizer que sim, mas agora, sinceramente, não!

Você fez uma das franquias de maior sucesso e alcançou uma ambição de toda uma vida. O que sobrou?
Uma das coisas que eu tenho pensado é sobre o futuro do entretenimento. Em 100 anos, como as coisas serão? Não tenho noção. O que me interessa é a realidade e a realidade virtual. Não como entrar em outro mundo, mas você colocar óculos, sair pela porta e ver zumbis andando por aí. Você tem uma arma de plástico e os está perseguindo. É interessante. Daqui a dez anos isso estará por toda parte, é uma forma de entretenimento que ainda não existe. Eu quero gastar meu cérebro nisso. Bom, quando minhas células estiverem recarregadas.

Escrito por Dave Calhoun
 

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