Vício Inerente: crítica do filme

 

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'Vício Inerente'
Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon em cena de 'Vício Inerente'

Ao contrário da síndrome adolescente hollywoodiana onde cada ação, por mais simplória que seja, precisa ser explicada nos mínimos detalhes, a filmografia de Paul Thomas Anderson - com suas chuvas de sapos e bebedeiras desenfreadas de óleo de motor - parece ser produto de um alienígena. E esse estranhamento é reforçado quando o cineasta apaixonado por sua Los Angeles natal resolveu filmar um texto do recluso e misterioso escritor Thomas Pynchon.

Vício Inerente é um noir não no sentido estético do termo (principalmente por ser tão radiante em suas cores), mas em sua essência. Estão lá a mulher que nunca deixa claro se é vítima ou culpada, o desaparecido que pode ser, na verdade, o cérebro por trás de uma conspiração rocambolesca, o informante que dá dicas pouco confiáveis, a esposa milionária que trama a morte do marido para gastar sua fortuna ao lado do amante bonitão, o detetive com jeitão de perdedor que sempre está no lugar errado, na hora errada... Além, é claro, de uma trama que fica tão complexa que passa a não fazer mais o mínimo sentido.

A essência do filme noir é essa: a forma seduzindo o conteúdo e fazendo-o perder a cabeça. Como uma femme fatale que usa seu charme para levar nosso herói de caráter duvidoso à beira de um abismo.

Aliás, não há período mais propício para retratar essa sensação de confusão que os anos 1970. É no primeiro ano dessa década que a história do detetive Larry "Doc" Sportello (Joaquin Phoenix) é ambientada. Entre um baseado e outro (e olha que são muitos!), ele recebe a visita de uma antiga namorada por quem ainda é apaixonado, Shasta Fay (Katherine Waterston). Ela diz que é amante de um milionário do ramo imobiliário e que a esposa deste está tramando interna-lo em um hospício para surrupiar sua fortuna. No entanto, as coisas não são tão simples quanto parecem. Soma-se ao caso uma gangue de motoqueiros neonazistas, um policial reacionário com uma estranha fixação por guloseimas fálicas, um junkie morto que na verdade não está morto, um misterioso barco carregado de contrabando, uma organização criminosa chinesa e mais, muito mais. O importante aqui é não se ater aos fatos.

A alegria, a letargia, o tesão, a paranoia... A trama de Vício Inerente evolui assim como a maresia canábica de Doc, captando a zeitgeist do texto de Pynchon e suas conspirações bizarras. É certamente um filme para se tragar e curtir a brisa.

Escrito por Rafael Argemon
 

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