Martin Scorsese: entrevista

Diretor fala sobre influência do filme Sapatinhos Vermelhos (1948) em sua obra

Pascal le Segretain / Gettyimages
Quando esse filme de Michael Powell ele fez sucesso aqui em Nova York? 1950?
Então eu devia ter uns oito ou nove anos. Lembro-me de impressões abstratas de cor e movimento. Mais tarde, tornou-se um turbilhão muito intenso de paixão, como um redemoinho sugando as vidas e as almas daqueles personagens. Eu me intrigava com a obsessão, a necessidade de dançar. De ser um artista. Acho que tudo isso pode se resumir ao maravilhoso diálogo no começo do filme, quando Anton Walbrook confronta Moira Shearer em um coquetel. "Por que você quer dançar?", ele pergunta. E ela responde: "Por que você quer viver?". Não há outra opção. A expressão no rosto dele é extraordinária.
 
Como o filme o inspira
Ao longo dos anos, se eu me pego fraquejando, não é que eu evoque o clima e a experiência exatos de assistir a Os Sapatinhos Vermelhos, mas aquele estado de espírito específico definitivamente se tornou parte do que eu sou. Sinto que esse filme deu a mim e a muitos outros cineastas a coragem de seguir adiante. Trata-se de dirigir. Mas também se trata de uma dedicação ao que você faz. Você pode não fazer bem (risos), ou pode fazer muito bem. Não importa, você tem que fazer. E frequentemente é uma coisa perigosa, não só para você, mas para as outras pessoas que o cercam.
 
A mágica da cor do filme
Não, a cor do filme não é realista. Mas ela reflete o elevado mundo do balé, do teatro. A cor é algo que sempre será um comentário estético, não importa como é feita. Quando vemos Os Sapatinhos Vermelho do meio da décima fileira, ficamos submersos em um tipo de realidade, por assim dizer. Vemos closes extraordinários dos rostos das pessoas, com maquiagens incríveis nos olhos e batom vermelho, muito vermelho. Durante a projeção do filme em Cannes, a plateia aplaudiu espontaneamente. Nunca vi uma cópia tão boa.
 
Como Os Sapatinhos Vermelhos influenciou Touro Indomável?
O filme não inspirou cena a cena. Mas sim a ideia de se a determinação pode nos levar longe demais e nós perecemos. É disso que se trata Touro Indomável. É engraçado: quando Michael Powell viu alguns testes em 8mm de De Niro lutando em 1978 ou 79, ele disse: "Sabe, é interessante, essa luta, mas tem alguma coisa errada". Eu disse: "O quê?". Ele disse: "As luvas vermelhas de boxe estão muito vermelhas". Eu disse: "Você está completamente certo". Este foi um dos motivos para decidirmos fazer o filme em preto e branco.
Escrito por Time Out São Paulo editors
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