Time Out São Paulo

O Clã: crítica do filme

Pablo Trapero acerta mais uma vez com um retrato aterrorizante de uma família envenenada com o ódio da ditadura militar argentina

Um dos melhores cineastas da América do Sul (se não o melhor!), o argentino Pablo Trapero volta a sua temática preferida – personagens que tentam se adaptar a uma realidade hostil a eles – com o vertiginoso O Clã (que lhe rendeu o prêmio de Melhor Diretor do Festival de Veneza 2015). Mesmo retratando a década de 1980 na Argentina, o filme vem bem a calhar no momento atual brasileiro, onde ainda há pessoas que clamam pelos tempos obscuros da ditadura militar.

Baseado em um caso real, O Clã conta a história os Puccio, família comandada por Arquímedes (o excelente Guillermo Francella), um civil que arquiteta e realiza sequestros para os militares ainda no poder. Mas aí chega a Guerra das Malvinas, que enfraquece a ditadura até que ela termina com a posse do presidente Raúl Alfonsín, em 1983. No entanto, Arquímedes não desiste de seu “ganha pão” e segue raptando e assassinando suas vítimas com a ajuda de seus familiares. Principalmente de seu filho Alejandro (Peter Lanzani), promissor jogador de rúgbi que mesmo muito jovem, chega à seleção argentina.

A conivência de sua mulher Epifanía (Lili Popovich) e filhos, que vivem uma ilusão de família feliz de propaganda de margarina enquanto há pessoas acorrentadas no banheiro ou no porão de casa é uma metáfora nada sutil a esses anos de chumbo – que apenas na Argentina vitimou 9 mil pessoas – e que cismam em rondar nossa sociedade até hoje. É só dar uma olhada em cartazes de recentes protestos aqui no Brasil, onde torturadores e assassinos são exaltados como heróis nacionais.

Assim como Zapa, de Do Outro Lado da Lei (2002), Santiago, de Nascido e Criado (2006), Julia, de Leonera (2008), ou Sosa, de Abutres (2010), o Alejandro de Peter Lanzani é um prisioneiro de suas contradições. Sua consciência pesa ao ajudar seu pai a sequestrar e matar até seus amigos, mas ele sempre cede à autoridade de Arquímedes. Aliás, quem se destaca em O Clã é mesmo Guillermo Francella. Mais conhecido em seu país como um ator cômico, ele está estupendo na pele de Arquímedes Puccio, um psicopata de olhos claros, frio e manipulador que é verdadeiramente aterrorizante. 

Escrito por Rafael Argemon
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