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O Silêncio do Céu: critica do filme

Excelente thriller evidencia o talento de Marco Dutra 

Muito mais um filme que retrata um relacionamento corroído pelo silêncio, pelas pequenas mentiras e omissões do dia a dia de um casal do que um thriller no sentido mais clássico, o Silêncio do Céu consegue, mesmo assim, manter uma atmosfera tão densa quanto a de grandes obras do gênero. Aliás, o diretor paulistano Marco Dutra dá até uma de Hitchcock, fazendo uma rápida aparição em uma cena.

E falando nele, fica cada vez mais evidente o grande talento desse cineasta ainda não muito conhecido do público. Após dois ótimos filmes – Trabalhar Cansa (2011) e Quando eu era Vivo (2014) – Dutra consegue imprimir seu estilo mesmo trabalhando em cima de um roteiro que não é de sua autoria pela primeira vez. A fusão entre os gêneros ganha até mais força aqui. Enquanto em suas obras anteriores o terror era o vetor da crônica social, em O Silêncio do Céu, o thriller serve como combustível para questões muito mais profundas que um simples mistério.

A trama – baseada no livro ‘Era El Cielo’, de Sergio Bizzio – já começa nos dando um tremendo soco no estômago quando logo na primeira cena vemos a brasileira Diana (Carolina Dieckmann) sendo estuprada por dois homens em sua casa, em Montevidéu. Seu marido, o uruguaio Mario (Leonardo Sbaraglia), chega mais cedo do trabalho e testemunha o crime, mas, paralisado de medo e confuso, acaba não fazendo nada até que os estupradores fogem. Após o ocorrido, Diana finge que nada aconteceu e sofre calada o trauma desse ato horrível, enquanto Mario, atormentado por uma culpa insuportável, busca os agressores atrás de vingança.

Além de uma direção segura, que mostra o domínio que Dutra tem da câmera, o filme conta com atuações precisas. Tanto que a utilização da narração em off poderia até ser minimizada. Não tanto no caso do personagem Mario (mesmo que o argentino Leonardo Sbaraglia consiga passar toda culpa e medo de Mario apenas pelo olhar), mas mais quando o recurso é utilizado de maneira explicativa demais por Diana, já no final do filme. O trabalho de Carolina Dieckmann é muito bom exatamente pelas ausências, pelo silêncio. A tensão silenciosa que marca a relação do casal chega a ser claustrofóbica. Aqui, nada é preto e branco. Nada é o que parece ser. E são essas incertezas que fazem de O Silêncio do Céu um grande filme.

Escrito por Rafael Argemon
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