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Silêncio: crítica do filme

Filme perde força ao trocar questionamentos por certezas.

Silêncio, do consagrado diretor Martin Scorsese – que tem mais de 30 longas em seu currículo – não é a primeira adaptação ao cinema do livro de Shusaku Endo. Aliás, o próprio autor também escreveu o roteiro dirigido por Masahiro Shinoda em 1971. Isso não é novidade na carreira do cineasta americano, já que Os Infiltrados (2006) é um remake de Conflitos Internos (2001). E assim como aconteceu com sua versão do policial de Hong Kong, Scorsese muda o final da obra original mais uma vez. No caso de Silêncio, sua formação católica fala mais alto, deixando a dubiedade da conclusão do filme de Shinoda de lado, escancarando as convicções do padre Rodrigues (Andrew Garfield).

Pode parecer que esse fato não influencie no todo, mas a simbologia da pequena cruz que Rodrigues segura em suas mãos na última cena de Silêncio é quase como um grito da cultura ocidental impondo o que acha ser o “correto” a um povo que dever ser “educado”. Tirando os questionamentos deixados no ar da versão anterior.

O talento de Scorsese é inegável, mas também é clara a decadência de seu trabalho. Com o passar dos anos, ele (quase) nunca conseguiu realizar obras com a força de Taxi Driver (1976), Touro Indomável (1980), O Rei da Comédia (1982) ou Os Bons Companheiros (1990). A exceção é O Lobo de Wall Street (2013). Mas que fique claro que Silêncio tem sim muitas qualidades. É um filme lindamente construído e filmado, além de trazer algumas boas atuações como a do próprio Garfield e de Tadanobu Asano, o samurai que serve de intérprete ao padre Rodrigues. Entre seus filmes de temática religiosa, Silêncio fica no mesmo patamar de Kundun (1997), obras tão belas quanto frias. Nada que se assemelhe ao vigor do inflamado A Última Tentação de Cristo (1988).

Escrito por Rafael Argemon
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