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T2 Trainspotting: crítica do filme

Sequência de cult dos anos 1990 consegue ser nostálgico sem soar datado.

Quando foi anunciado, T2 Trainspotting gerou tanta excitação quanto desconfiança. A sequência de um filme que marcou uma geração como Trainspotting (1996) seria digna do original? A resposta não é tão simples como parece. Não, T2 não está no mesmo nível de seu antecessor. Mas isso não é um indicativo do que o filme seja ruim, porque ele passa longe disso. Trainspotting já virou referência na cultura pop, algo que T2 nunca alcançará. Mas, convenhamos, esse nunca foi o objetivo dessa reunião do diretor Danny Boyle e do elenco encabeçado por Ewan McGregor.

T2 tem boa parte de seu charme na nostalgia dos fãs de Trainspotting e não tem vergonha disso. Porém, não se agarra ao saudosismo como um bote salva vidas. Chega até a fazer troça disso em algumas cenas. É verdade que eu outras exalta momentos marcantes do primeiro filme, trazendo até novas versões para sucessos da trilha sonora, como ‘Lust for Life’ (Iggy Pop) e ‘Born Slippy’ (Underworld). Mas nunca escorrega para o sentimentalismo barato. O filme chega até a mostrar aspectos novos da turma formada por Renton (McGregor), Sick Boy (Jonny Lee Miller), Spud (Ewen Bremner) e Begbie (Robert Carlyle). Tanto que personagens menos explorados no original, como Spud e Begbie, ganham mais peso aqui. Em alguns momentos até conhecemos um lado mais terno do psicótico Begbie.

A história de T2, assim como a de Trainspotting é bem simples. Após enganar seus amigos e fugir com o dinheiro de uma venda de drogas, Renton se estabelece na Holanda. Sem perspectivas no trabalho, recém-divorciado e após sofrer um ataque cardíaco enquanto se exercitava em uma academia, ele resolve voltar a sua Edimburgo para resolver assuntos ainda pendentes. Spud continua sofrendo com o vício em heroína. Sick Boy – agora usando seu nome mesmo, Simon – vive de pequenos golpes e gerencia um pub decadente. Begby, ainda preso, foge do cárcere e pretende voltar à carreira de pequenos roubos com seu filho adolescente, que está mais interessado em fazer faculdade de turismo.

Longe do hedonismo decadente que marcou a década de 1990 tão bem retratado em Trainspotting, aqui o clima é de ressaca. T2 é um filme bem mais melancólico que seu antecessor. Quarentões, os personagens sofrem para encontrar um espaço na sociedade. Algo que eles fugiam como o diabo da cruz em 1996. O famoso monólogo "Choose Life" foi até atualizado por Renton, ele e sua turma são aqueles que “escolhem a vida”. É a grande ironia que, além dos personagens, o próprio público que estava em seus 20 e poucos anos no lançamento de Trainspotting hoje tem de encarar olhando para frente, mas com um quê de saudade.

Escrito por Rafael Argemon
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