Time Out São Paulo

Casagrande abre o jogo

Livro escrito pelo ex-craque e comentarista da Rede Globo aborda futebol, política e drogas


Jogadores de futebol e drogas – lícitas e ilícitas – não deveriam, mas costumam se atrair. Ídolos como Maradona, Sócrates (1954 - 2011) e Garrincha (1933 - 1983) tinham em comum, além da habilidade com a bola, problemas decorrentes do abuso de alguma substância. Segundo especulações, Adriano, afastado dos gramados desde 2012, seria o exemplo mais recente desta atração que pode vencer craques geniais. Uma destas histórias, a do ex-jogador e comentarista de futebol Walter Casagrande, ganha luz com o lançamento da biografia Casagrande e Seus Demônios (Globo Livros, 264 págs., R$ 34,90), assinada por ele e pelo jornalista Gilvan Ribeiro.

Como o título aponta, Casagrande não esconde o jogo. Conta detalhes de como, já aposentado dos campos, se afundou na cocaína e heroína. Consolidado como comentarista da Rede Globo, passou por quatro overdoses em um curto espaço de tempo. A última, que resultou em um grave acidente de carro, terminou com sua internação em uma clínica de reabilitação, onde ficou por um ano, metade desse tempo sem contato com a família e os amigos.

“Um dos passos principais do tratamento é você se olhar no espelho e admitir que é um fracassado perante a droga”, escreve o ex-atleta, admitindo que essa difícil partida não está ganha. Psicólogos, psiquiatras e o trabalho como comentarista o ajudam a ficar mais centrado. Ele diz que manter-se ocupado é uma necessidade. Casagrande não parece ter a pretensão de transformar sua biografia em exemplo. Nas páginas, não há discursos sobre combate às drogas, nem autoajuda para que outros dependentes químicos marquem esse gol. Ele diz que não se orgulha do que fez, mas também não se arrepende e que os erros lhe proporcionaram bons momentos.

Dois capítulos do livro abordam ainda outra faceta de Casagrande. Se como jogador, ele escreveu seu nome na história defendendo de forma vibrante e consistente times como Corinthians, São Paulo, Torino (da Itália) e Flamengo, além da Seleção Brasileira, ele usou a mesma energia para se envolver com a política e o movimento conhecido como Democracia Corintiana.

Em seu relato, somos levados de volta aos anos 1980, quando, juntamente com os companheiros de clube Wladimir e Sócrates – seu maior parceiro dentro de campo e com quem, em suas palavras, tinha uma estreita aliança – passou a lutar por mais respeito e liberdade para os jogadores. Dentro do Corinthians, conquistaram a abolição da concentração para os atletas casados, a permissão para beber e fumar em público, e a chance de participar ativamente das decisões do time, como a contratação ou demissão de membros da equipe, por meio de votos.

Fora dos limites do futebol, a Democracia Corintiana combatia a Ditatura Milita – com frases como “Diretas Já” e “Quero votar para presidente” estampadas nas camisas – e com a participação em comícios. As ideias liberais renderam a Casagrande diversas blitz, alguns socos, seu nome em relatórios do DOPS (Departamento de Ordem Pública e Social) e uma prisão por posse de cocaína que, segundo ele afirma no livro, foi plantada pelos policiais. Em seu auge como atleta, Casagrande contribuiu para a propagação da importância da democracia. Agora, ao contar a história de sua vida, a mensagem é que a honestidade também é fundamental.

Escrito por Cecília Gianesi
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