Conseguimos vencer?

O Brasil chegou no momento da virada?
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?Os gays brasileiros estão comemorando a decisão tomada em maio pelo Superior Tribunal Federal, que deu aos casais de mesmo sexo os mesmo direitos jurídicos que têm os casais heterossexuais. Pela primeira vez, parceiros gays terão direito a herança, plano de saúde, adoção e benefícios da previdência social. Os cartórios agora são obrigados a registrar as uniões de mesmo sexo como entidades familiares legalmente reconhecidas. Como disse o primeiro parlamentar abertamente gay do País, Jean Wyllys de Matos Santos, está para acontecer um "reenquadramento do debate".


No outro lado da questão, o político carioca Jair Bolsonaro provocou polêmica ao distribuir um panfleto antigay em escolas públicas, em resposta a um kit anti-homofobia produzido pelo Ministério da Educação. Sem dúvida, a situação é complicada.


Oficialmente, o Brasil tem 60 mil casais gays, segundo o censo de 2010. Mas, na verdade, o número deve ser muito maior. A Parada do Orgulho LGBT de São Paulo é a maior do mundo, com cerca de 3 milhões de pessoas no ano passado. Estima-se que um em cada quatro turistas estrangeiros que visitam o Rio de Janeiro seja gay. O País até mesmo testemunhou o primeiro beijo gay em rede nacional, exibido em maio na novela "Amor e Revolução" – seis anos após a Rede Globo censurar às pressas um beijo gay (que fora gravado, mas não chegou a ir ao ar). A novela "Insensato Coração" quebrou todos os recordes, com nada menos que seis personagens gays.


Os forasteiros podem ser perdoados se pensarem que a cultura brasileira aceita completamente a comunidade gay. Mas os problemas ainda correm soltos, e, segundo grupos de defesa dos direitos gays, a violência contra homossexuais cresce em todo o mundo. A alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, já alertou que os crimes por homofobia estão aumentando, inclusive aqui no Brasil.


"Ano passado no Brasil, foram registradas 250 mortes por ataques homofóbicos ou transfóbicos", disse ela, em vídeo que marcou o Dia Internacional contra a Homofobia e a Transfobia, celebrado em 17 de maio. Um homossexual é morto a cada 36 horas no Brasil, de acordo com pesquisa feita pelo mais antigo grupo LGBT do País, o Grupo Gay da Bahia (GGB), fundado em 1980.


A pesquisa do GGB mostra que o país, por incrível que pareça, tem hoje o maior índice de assassinatos por homofobia do mundo. Em 2010, 260 homossexuais e transexuais foram mortos, um aumento de 113% em cinco anos. Este ano, a polícia foi criticada por não levar a sério os ataques a gays e lésbicas, depois que um jovem foi atacado em plena Avenida Paulista em janeiro. Os ataques levaram a comunidade LGBT às ruas para pedir um fim à violência e estimularam uma campanha no Twitter chamada #EuSouGay. 


A homofobia no esporte também ganhou destaque quando o jogador de vôlei Michael dos Santos se revelou gay poucos dias depois de uma partida em que foi alvo de gritos de "Bicha! Bicha!". "Me magoou muito, e acho que isso poderia ser discutido publicamente para não aconteça de novo com outra pessoa", disse o jogador, de 27 anos.


Alguns líderes da comunidade gay puseram a culpa pela violência homofóbica na religião. Luiz Mott, fundador do GGB, disse que há "uma homofobia cultural e institucional que ainda se mantém e que tem, nas igrejas evangélicas e católicas, os grandes centros de fabricação dessas munições ideológicas". O Brasil tem a maior população católica do mundo, e congregações evangélicas cada vez mais fortes.


No entanto, a presença de igrejas evangélicas e pentecostais gays nas grandes cidades brasileiras mostra que as coisas estão mudando. Para alguns, o simples fato de homens e mulheres gays reportarem crimes homofóbicos no Brasil também indica que as coisas estão melhorando. Muitos consideram que a decisão tomada pelo Superior Tribunal Federal em 5 de maio foi significante para virar o jogo. Maria Berenice Dias, presidente da Comissão da Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), afirma que as novas leis darão visibilidade a lésbicas, homens gays, bissexuais e transexuais.


Em entrevista anônima à Time Out, uma assistente social que ajuda prostitutas no centro de São Paulo disse: "O Brasil está dando passos significativos no sentido de dar igualdade aos gays. O fato de Santos (o jogador de vôlei) ter dado tantas manchetes é incrível. Ele não era um jogador famoso, mas, na vez seguinte em que jogou, muitas pessoas na torcida estavam usando camisetas em apoio aos direitos dos gays. Isso é um progresso". (Urmee Khan) 

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Escrito por Time Out São Paulo editors
 

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