Time Out São Paulo

Flertando com a gente

Ben Harper retorna com sua mistura musical e fala com a Time Out São Paulo sobre skate, Vinicius de Moraes e até música

Um dos ícones do pop da última década, o guitarrista e cantor americano Ben Harper, 42 anos, continua se aventurando por misturas rítmicas que abarcam soul, reggae, blues, folk, funk e rock – com desenvoltura e, importante dizer, em forma. Neste ano, lançou o álbum Give Till It’s Gone, do qual deve mostrar algo no show em São Paulo, no dia 9, na Via Funchal.

Desde que começou sua carreira homenageando mestres da Motown como Marvin Gaye, ele já lançou 11 álbuns. As canções ecléticas são embaladas pelas vibrações do surfe, do descompromisso e da leveza. E apesar do viés comercial, Harper continua se destacando por seu modo particular de tocar cordas, que inclui slides e o timbre único do violão Weissenborn.

Assim como na música, a origem desse californiano também compõe uma miscelânea: descendente de judeus, africanos e índios cherokees, não por acaso ele se sente em casa no multiétnico Brasil.

Em um de seus flertes com o país, acabou colaborando com a cantora mato-grossense Vanessa da Mata, com quem gravou a música ‘Boa Sorte/Good Luck’ – hit radiofônico não apenas no Brasil como também em Portugal. Vanessa participa, inclusive, dos shows em São Paulo e Rio de Janeiro.

Em entrevista por telefone para a Time Out São Paulo, esse ganhador de dois prêmios Grammy revelou um outro lado: é também um aficionado pelo skate e não se separa jamais de seu shape, nem quando está rodando o mundo em turnê.

Time Out SP - Essa é a quarta vez que você toca no Brasil. Tem alguma conexão com o país?
Ben Harper O Brasil é um dos lugares mais apaixonantes e culturalmente ricos que já visitei. Eu digo que tenho uma conexão porque a cada vez que eu visito o país, me sinto mais em casa. Eu vejo pessoas que se parecem comigo. E São Paulo é como um outro planeta! É como se alguém jogasse Nova York, Chicago e Paris no mesmo lugar.

TOSP - A Vanessa da Mata vai participar do show. Como foi sua colaboração com ela?
BH - A Vanessa é incrível! Eu gostaria de fazer algumas músicas com ela, seria demais. Não quero me precipitar, mas seria legal escrever algo especial para essa turnê.

TOSP - E você se inspira em outros músicos brasileiros?
BH - Bem, pensando em escritores, poetas, o cara é o Vinicius de Moraes. Ele é um dos melhores letristas da história!

TOSP - Qual é o seu álbum favorito?
BH - Tem um da década de 1970 que eu cresci ouvindo. Não lembro o nome, mas esse foi um dos primeiros álbuns que me impactaram. Eu imagino que a sensação seja a mesma de quando um brasileiro escuta um álbum em inglês e não entende o que eles estão dizendo. Mas, mesmo assim, a música mexe com você. Esse álbum mexeu comigo, mesmo que eu não entendesse nada.

TOSP - Por falar em ícones, Ringo Starr tocou em duas faixas de seu último álbum e fez até um solo de bateria...
BH - É magnífico! É um sonho! A primeira música que eu cantei sozinho foi ‘With a Little Help from My Friends’ que, você sabe, ele cantou no álbum Sgt. Pepper’s. Mas isso é o de menos! Quer dizer, ele é um dos maiores bateristas vivos! Então, pensar em uma parceria com ele, um dos maiores músicos com uma carreira solo extraordinária... é uma honra que não para de aumentar. E ele é um cara muito bacana!

TOSP - Falando em carreira solo, você gravou seu último álbum sozinho depois de dois em grupo. Qual a diferença entre os dois processos?
BH - Quando você colabora com alguém no processo criativo, isso acaba levando a coisas que você nunca alcançaria sozinho. Esse ambiente traz uma sensibilidade diferente sobre o que você faz e isso é crucial para não se repetir. Quanto às parcerias, tem gente que consegue viver sem. Mas em termos de criatividade, é como pintar: você não pode usar sempre as mesmas cores, essa não é uma opção! Você não pode tirar sempre a mesma foto e ter obras de arte iguais. Então, você precisa de outras cores, outras fontes para evoluir.

TOSP - Você formou o projeto coletivo Fistful of Mercy no ano passado. Como isso difere dos Relentless 7 e dos Innocent Criminals, as bandas que tocavam com você antes?
BH - Foi um processo diferente, um jeito diferente de criar, um jeito diferente de montar uma banda: é um coletivo de três artistas solo. Foi muito divertido e um enorme desafio, mas representa uma nova fronteira criativa para mim. Eu espero ir ao Brasil com eles um dia.

TOSP - Você tem ascendência cherokee e africana, isso tem alguma influência nas suas composições?
BH - Tenho certeza que sim! Não sei dizer como, porque eu fui criado
no sul da Califórnia. Eu não cresci em uma reserva indígena nem na África. Minha mãe é
judia, mas eu não cresci em Israel. Eu sou só um garoto da Califórnia. A genética tem um papel nas suas manifestações conscientes e subconscientes. Então, é, tem influência, mas não sei definir como.

TOSP - Você acha que isso o aproxima do Brasil? Nós somos bem misturados aqui...
BH - Exatamente! E isso é uma das coisas mais empolgantes!

TOSP - E quais suas preocupações quando está em turnê mundial?
Minha maior preocupação quando viajo pelo mundo é achar um bom lugar para andar de skate!

TOSP - Eu nunca pensaria nisso...
BH - (risos) Sim, isso acontece! À noite, eu preciso encontrar lugares para praticar, como uma estação de trem que seja iluminada. De dia, tem que ser um lugar não muito lotado, porque, afinal, eu posso ser expulso de lá já que o skate é barulhento. Se está chovendo, é preciso encontrar um lugar coberto e seco, para que eu não escorregue... e por aí vai.

TOSP - Em São Paulo tem bastante gente que anda de skate na Avenida Paulista...
BH - Sério? Eu tenho que ver isso...

TOSP - Você já tem planos para um próximo álbum?
BH - Sim. Eu estou sempre gravando, não consigo deixar as músicas flutuando na minha cabeça. Não sei quando, porque às vezes eu acho que lanço muita coisa e as pessoas podem ficar mal acostumadas. Mas não ligo muito para isso. Gostaria de lançar um álbum amanhã, mas todo mundo diria “ah, você acabou de lançar um...”. Estou cansado disso, na década de 1960 era um disco a cada seis meses! Mas aí veio essa indústria... Eu acho que você deve lançar suas obras dependendo da sua criatividade, não do ciclo de divulgação do álbum. Eu estou voltando a isso, a fazer o que eu quero. Como não estou mais na Virgin Records, agora poderia lançar um álbum por semana.

Ben Harper toca em 9 de dezembro, às 22h, na Via Funchal, R. Funchal 65, Vila Olímpia, 11 2144-5444. R$ 180-R$ 350. viafunchal.com.br

Escrito por Anita Porfirio
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