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Florence and the Machine

Cantora faz show em São Paulo no próximo dia 24. Aqui, ela diz como se perde e se encontra na arte 

Quando atende minha ligação, Florence Welch parece estar trabalhando em um call center. O toque incessante de telefones, o ruído das conversas e o abrir e fechar de portas lembram mais um movimentado escritório do que um quarto de hotel em Nova York.

Conhecida como Florence + the Machine – referência à banda que a acompanha – a cantora de 25 anos já fez sucesso com o single de estreia, ‘Dog Days Are Over’. Seu primeiro álbum, o choroso Lungs, de 2009, vendeu milhões em todo o mundo. E a ruiva lançou há poucos meses o segundo disco longo, o celebrado Ceremonials, repleto de coros e com músicas deliciosas, que são construídas lentamente. Na entrevista, acontece o contrário: a britânica articula aceleradamente uma série de palavras por minuto.

Há muitas menções ao sono em Ceremonials. Você está exausta?

Eu meio que sempre estive, não sei… tenho sono leve. Nunca fui uma daquelas pessoas para quem basta encostar a cabeça no travesseiro, que tudo desaparece de repente. A hora de dormir é o momento em que eu fico mais assustada, ansiosa ou preocupada. Os momentos antes de acordar ou de dormir são quando me sinto mais... Não sei, fico mais ligada e minha imaginação pode me levar a lugares sombrios. Sempre fico apavorada com a ideia de que há algo ali com você, sejam seus medos ou uma aparição de verdade.

A ansiedade cresceu com a fama?

Na verdade estou bem. Fiquei realmente mal por um período. Gravar o primeiro disco foi ruim. Este foi mais fácil. Não sei se é porque estou crescendo ou porque as coisas estão mais assentadas na minha cabeça.

O novo álbum tem clima gospel, com coros e órgãos. Você se sente espiritualizada ou apenas buscava esse tipo de som?

Isso tem a ver com o fato de a música ser uma catarse, algo que faz com que você saia de si mesmo, algo que talvez seja capaz de trazer o perdão. Eu estava num momento em que estava muito cansada de mim mesma e de todos esses padrões de comportamento que vinha seguindo. Às vezes as pessoas são duras demais consigo mesmas, e a música tira isso de você, é aquele momento de iluminação pelo qual todo mundo procura, onde não há futuro ou passado. Sinto as coisas de forma muito intensa. Na verdade, não sou a pessoa mais intensa do mundo. Meu ex-namorado estava trabalhando com uma menina e ela dizia para ele: “Ai, meu deus, você sai com a Florence, cara, ela deve ser realmente intensa, porque a música dela é tão intensa”. Mas ele respondeu: “Não, na verdade ela é bem sossegada”. Mas, quando sinto uma coisa – amor, pânico, alegria, medo –, sinto de uma forma muito forte. O sentimento toma conta de mim e não consigo me controlar.

Sua mãe é uma acadêmica, pesquisadora do Renascimento. Isso tem a ver com a religiosidade?

Na minha infância, minha paisagem visual eram os interiores de várias dessas velhas igrejas. E o drama barroco foi o primeiro aprendizado de arte que tive. Sou muito mais atraída pela estética da iconografia religiosa do que pelo lado religioso mesmo. A paixão, o sangue, a violência e a faceta espalhafatosa são o que acho realmente fascinante.

Você queria gravar o disco em Hollywood, com os hitmakers. O produto final acabou exuberante, cheio de orquestrações. Por que a mudança?

Aquelas músicas pop grandiosas têm uma sensibilidade. Elas são quase quimicamente planejadas para fazer você sentir algo. Sempre fui fanática por essas músicas. Então fazia sentido para mim ir lá e ver se eu podia colocar meu toque pessoal. Por um tempo, pelo menos. Não estou dizendo que não faria isso no futuro, mas…

O que fez você recuar?

Eu vi isso em um um jornal, duas semanas antes. E de repente pensei: “Ai, meu Deus, não vou conseguir fazer isso”. É um lugar muito diferente daquele de onde venho, eu teria que ficar longe, sem minha família. E uma pessoa não quer se distanciar de seus fãs.

‘Breaking Down’ é fora do comum. Você soa diferente.

É muito divertido. Tem uma energia masculina. Enquanto eu estava cantando, tentava ser o David Bowie.

Você conhece Bowie?

(Risos) Desculpa, alguém acaba de encontrar… eu tinha perdido o telefone do meu empresário. Você já perdeu alguma coisa em um quarto, algo que desaparece sem razão aparente? Você não saiu do quarto, mas mesmo assim não faz ideia de onde a coisa foi parar.

É, é como perder as chaves ou os óculos de sol.

Em situações assim, é preciso que as pessoas me acalmem. Eu fico louca! É, tipo, contra a natureza! Começo a gritar. Isso é ridículo! Eu sou como um buraco negro! As pessoas não deveriam me dar nada para segurar, porque me distraio muito facilmente. Do tipo: “Olha, tem alguma coisa brilhando ali”. Ainda bem que nunca aprendi a dirigir. Seria realmente um perigo. Florence + the Machine. Summer Soul Festival. Anhembi. Av. Olavo Fontoura, 1.209, Santana, 11 2226-0400. R$ 100-R$ 56

Escrito por Brent DiCrescenzo
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