Time Out São Paulo

Nostalgia Gótica

O show de Morrissey iniciou uma onda de melancolia sonora que bate em São Paulo.

A não ser pelas tempestades de verão que costumam cair no fim da tarde e que deixam o céu escuro, cortado por raios, não tem acontecido nada em São Paulo, ultimamente, para suscitar medos irracionais em relação a eventos sobrenaturais. Mas, ainda assim, há algo sombrio vindo em nossa direção. Os anos os tornaram mais suaves, é verdade, talvez até mesmo mais dóceis, mas os góticos estão chegando – os originais góticos punks. Nos próximos meses, a cidade vai receber shows da aristocracia dessa vertente do rock: The Sisters of Mercy, The Damned e The Mission, além do maior dos góticos, Morrissey em pessoa. Certo, o The Smiths nunca foi uma banda gótica canônica – usavam camisetas coloridas demais para isso –, mas suas canções sombrias cabem perfeitamente em todas as boas coletâneas do estilo.

Para quem não tem familiaridade com o assunto, o gênero surgido há mais de 30 anos é um derivado do punk: um subgênero negro, obcecado pelo terror, com letras sobre temas sombrios e sonoridades desoladoras, batidas abafadas e guitarras lamuriosas. Dominado por bandas britânicas desde o seu ápice nos anos 1980 e depois tomado por grupos americanos mais inclinados ao punk, como o 45 Grave e Christian Death, o estilo angariou fãs em todo o mundo – especialmente em São Paulo.

O movimento gótico paulistano remonta a meados dos anos 1980, quando casas como o Madame Satã e Ácido Plástico lotavam com os ‘darks’, como os góticos eram conhecidos na época. Mesmo o relutante ícone gótico Nick Cave dobrou-se ao dark, frequentando o antigo Espaço Retrô durante os três anos em que viveu na Vila Madalena, no começo dos anos 1990.

De lá para cá, o estilo nunca desapareceu, apesar de ter se ramificado e sido absorvido por outros subgêneros, como o deathrock, EBM e doom metal. Como mostra a reabertura do Madame Satã, ainda há público em São Paulo para noites regadas a música dark. Em sua nova encarnação, agora apenas ‘Madame’, o clube na Bela Vista oferece uma festa gótica chamada Bats & Robots nas noites de sexta.

Durante a infância da cena gótica paulistana, o DJ Tonyy Trash, fundador da festa de música pop Trash 80’s que atualmente acontece no Clube Caravaggio, era músico e editor de fanzine. Certas coisas não mudam nunca, diz ele: as noites góticas ainda têm defeitos do passado, como a oferta de “vinho tinto ruim”. Mas, por outro lado, “hoje em dia, temos tecnologias melhores para fazer o som”, diz ele, “e o resto do mundo não estigmatiza mais o Brasil, como se o país fosse uma espécie de reino do samba.”

Para provar o seu argumento, basta observar o desfile de talentos internacionais que agora incluem o Brasil em suas turnês mundiais e também o número de celebridades do estilo que passarão pela cidade em um espaço tão curto de tempo.

Os primeiros são o Sisters of Mercy, banda de guitarras gélidas influenciada por Suicide e Iggy Pop. Eles tocam no dia 10 de março na Via Funchal, seguidos de perto por Morrissey, o rei das músicas mordazes, que se apresenta no Espaço das Américas, na noite seguinte. Em abril, o Clash Club abre suas portas para a inédita apresentação na cidade do The Damned, uma das primeiras bandas punks da Grã-Bretanha a gravar um disco e que teve um longo flerte com o gótico nos anos 1980. Já em maio, Wayne Hussey – ex-guitarrista do Sisters of Mercy que mora em São Paulo há algum tempo – traz seus colegas de The Mission para um show no Cine Joia.

Muita água já rolou desde os dias de ouro do gótico. Os cabelos já não são negros e lustrosos como antes – alguns desapareceram completamente. Mas, ainda que a maioria das bandas tenha tentado, de certa forma, se distanciar das restrições impostas pelo gênero, não há como negar: sua presença atrairá os espíritos mais sombrios da cidade.

Escrito por CM Gorey
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