Como nossos pais

Os filhos de Elis reacendem a obra da mãe através de shows, exposição e livro

Divulgação
Maria Rita canta músicas da mãe

Imagine que Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan tivessem nascido no Brasil, reunidas numa pessoa só. Seu nome seria Elis Regina, gigante por si por ter sido uma cantora que impactou o país, construiu uma obra musical sólida e arrebatadora e morreu cedo demais (aos 36 anos, em 1982). Mas ela nunca deixou de ser referência para fãs, colegas de profissão e a cultura brasileira.

O legado da mais jazzística das cantoras de MPB volta à tona aos 30 anos de sua morte no Projeto Nivea Viva Elis, idealizado por seu filho mais velho, João Marcello Bôscoli, que tinha 11 anos quando a mãe morreu. A protagonista será a filha caçula de Elis, Maria Rita, com apenas 5 anos em 1982. Ela vai apresentar 29 canções consagradas pela interpretação da mãe em um show gratuito no Parque da Juventude no dia 5 de maio, parte de uma turnê que passa por outras quatro capitais brasileiras e que prevê ainda uma exposição itinerante, um documentário e um livro de entrevistas.

Maria Rita iniciou uma carreira própria há dez anos, após longo período de hesitação e medo das – inevitáveis – comparações com a voz monumental da mãe. Esta é a primeira vez que ela interpreta as músicas que Elis cantava. “Se eu fico com um nó na garganta, não é distante imaginar Maria Rita desmontar no palco e não conseguir ir adiante no show”, admite João Marcello. “Tudo passa pela maturidade vocal e pessoal dela, Maria Rita hoje tem uma voz própria. Está leve, feliz. Quanto a mim, o nó na garganta é o tempo todo. A vontade de chorar vem até aqui e volta.”

“Estou serena”, confirma a artista que construiu uma carreira à margem da herança, cantando sambas de partido-alto, por exemplo. Hoje, Maria Rita parece se sentir apta a enfrentar um repertório difícil, além de absolutamente marcado pelas interpretações de Elis. “Tem me trazido muita leveza e satisfação. Me sinto como uma operária da música, em cima do palco, para servir a algo que é sempre muito maior do que eu.”

O repertório que será apresentado no show foi pinçado entre mais de 60 canções pré-selecionadas por Maria Rita. O show do Auditório Ibirapuera deve contar com clássicos como ‘Arrastão’ (1965), ‘Madalena’ (1971), ‘Águas de Março’ (1974), ‘Como Nossos Pais’ (1976) e ‘Maria, Maria’ (1980), mas também peças que não foram às paradas de sucesso, como, por exemplo, ‘Vida de Bailarina’ (1972) e ‘Doce Pimenta’, que Rita Lee fez para Elis e ela chegou a cantar, mas não a gravar.

O projeto prevê gratuidade em todas as suas etapas. Além dos shows em praça pública, a exposição – com imagens do acervo da família, em cartaz no Centro Cultural São Paulo até o dia 20 de maio – tem entrada franca e inclui a exibição de um documentário com entrevistas. Já o livro, segundo João Marcello, sai ainda neste ano recheado por entrevistas com pessoas que conviveram com Elis – e também será enviado gratuitamente para escolas e bibliotecas públicas.

João diz acalentar o plano de fortalecer a imagem de Elis também no mundo – onde ela já conta com fãs como Björk e Norah Jones. E felicita, a si mesmo, pela longevidade artística da mãe no país natal: “Não conheço outro caso no Brasil de alguém que tenha nos deixado há tanto tempo e permaneça tão presente”.  

Maria Rita - Projeto Nivea Viva Elis Parque da Juventude.  Av. Zaki Narchi, 1.309, Carandiru, 2251-2706. Grátis. 5/5, 15h. 

Exposição Viva Elis! CCSP. Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso, 3397-4002. Grátis. Até 20/5. Ter.-sex., 10h-19h30; sáb., dom. e fer., 10h-17h30.

 

Escrito por Pedro Alexandre Sanches
 

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