Time Out São Paulo

Ritmo transcendente

O produtor e DJ britânico Four Tet que tocou no Sónar São Paulo conversou com Bruce Tantum sobre buscas artísticas, o último álbum e o poder da música

O camaleão musical londrino Kieran Hebden – mais conhecido como Four Tet – já fez de tudo um pouco. Ele começou em uma banda de pós-rock e hoje assina produções, faz remixes, colabora com artistas como Thom Yorke (Radiohead) mas também atua como DJ. No dia 12 de maio, ele apresenta as suas melodias abstratas no Sónar São Paulo. Ele conversou conosco sobre o seu último álbum FabricLive 59 – uma coletânea de vertiginosas mixagens que abarcam desde o experimentalismo eletrônico até as batidas alucinantes dos clubes.

Nos últimos cinco anos, o seu som tem se aproximado da dance music e do techno. Ao mesmo tempo, você retomou o passo como DJ. Foi a discotecagem que o levou pelo caminho do dance, ou aconteceu o contrário?
Acho que a discotecagem veio primeiro. Timo Maas [produtor e DJ alemão] me convidou para ir a Ibiza tocar numa balada que ele tinha lá. Gostei muito, foi surreal e divertido. Daí ele disse: “Bom, sou residente em Londres. Você deveria ir lá e fazer isso!”. Tratava-se da The End [célebre clube de Londres], e acabei fazendo isso durante um ano. Depois fiquei um ano e meio no mesmo clube com James Holden [DJ e produtor inglês] e acho que foi essa residência que me levou a pensar muito mais seriamente sobre a discotecagem. Eram cerca de seis ou sete horas por noite e, embora me sentisse como se tivesse caído de paraquedas ali, também percebi que era algo que eu realmente queria fazer. Queria ficar bom nisso.

Isso afetou suas produções?
Quando comecei a trabalhar com novas músicas, não tive como não pensar em como elas funcionariam no The End. É um jeito padronizado de os produtores de dance trabalharem, mas eu nunca tinha feito isso com minhas coisas antes. Achei saudável e empolgante, de verdade – um jeito totalmente novo de trabalhar. E me fez feliz, porque quero que minha música sempre vá para frente, se torne algo novo. E fazer algo que funcionasse nas pistas definitivamente parecia uma nova e boa direção a seguir.

Imagino que isso tenha trazido um novo grupo de fãs.
Sim. Acho que uma das melhores coisas é que sempre me vejo fazendo coisas novas. E minha música é bastante eclética, então as pessoas estão se envolvendo com ela de muitas maneiras diferentes, o que é sempre uma coisa boa.

Tanto as suas mixagens quanto suas produções recentes podem ser empolgantes, mas também pastorais e ritualísticas. Essa sensação quase mística parece ser uma das poucas constantes de sua música.
Acho que é só meu estilo. Não penso nisso quando estou fazendo música, não tento construir isso de forma alguma. Músicos têm o seu tom próprio e, às vezes, você não consegue fugir disso nem se quiser. Acho que há certos tipos de melodia que uso e um certo tipo de clima que minha música tem, mas isso acontece com muitos produtores.

Me surpreendi ao ler no release de imprensa do FabricLive que você é fã do UK Garage dos anos 1990 e até mesmo de bandas como a So Solid Crew.
Eu estava em Londres no final da adolescência quando tudo isso estava começando a aparecer. O drum ‘n’ bass tinha ficado muito deprimente e realmente soava industrial. Daí o garage começou a aparecer e tinha uma vibração positiva, mas, ao mesmo tempo, era meio experimental e de vanguarda, além de ter sentimentos mais profundos. Era uma música maluca e contemporânea, mas com vocais dóceis por cima, e eu realmente gosto desse tipo de conflito. Era um estilo cru – feito por moleques com aparelhos caseiros, que produziam tudo rapidamente para colocar em rádio pirata. E daí a música aparecia no topo das paradas duas semanas depois e você a ouvia em todos os carros. Esse tipo de energia, esse tipo de criatividade veloz era definitivamente excitante.

A primeira parte da mixagem foca no UK garage, ou em uma versão etérea desse estilo.
Eu realmente queria que começasse com as gravações do garage dos anos 1990. Acho que há muitas preciosidades perdidas daquela época que ainda são relevantes. Muitas músicas que estão tocando hoje vêm daquilo, na verdade.

No passado, você falou de se perder na música e do tipo de euforia que ela pode gerar. É o que deseja com a música feita por você?
Definitivamente sou atraído por estilos de música que têm essa pretensão. Você consegue isso em músicas melodiosas e introspectivas, mas também ouço isso no techno. Ouço isso no free jazz, na música gamelan (da Indonésia), nas ragas indianas, no gospel. Algumas dessas músicas foram criadas para se comunicar com Deus. Quando uma crença se torna a intenção de uma música, ela pode ser muito, muito poderosa. Sempre fui atraído por isso, o que me proporcionou muitos momentos mágicos. É uma das coisas que sempre tento mostrar.

Four Tet Sónar São Paulo. Parque Anhembi, Palco Sonarvillage, Av. Olavo Fontoura, 1.209, Santana, 2226-0400. R$ 115-R$ 250. 12/5, 1h. sonarsaopaulo.com.br 

Escrito por Bruce Tantum
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