Rap: gênero feminino

Mulheres como a MC Lurdez da Luz ganham espaço nas rimas e se destacam no estilo dominado pelos homens. Conversamos com ela sobre essa cena que se torna cada vez mais feminina  

Divulgação
Lurdez da Luz tira as letras do rap dos guetos com um estilo mais suave

 

O rap vem mostrando que pode ter um sotaque mais leve, articulado por diferentes inspirações, que não exaltam necessariamente o lado mais duro das ruas. O gênero musical que nasceu nos Estados Unidos está sendo conjugado no feminino por aqui, na voz de cantoras como Flora Matos, Stefanie Ramos e Karol Conká, que aliam as raízes do ritmo à brasilidade – sem descer do salto.

A MC paulistana Lurdez da Luz é um dos faróis dessa cena do hip hop. Ela é autora das letras e trabalha com diferentes parceiros que compõem as músicas. O amor é um tema recorrente nas rimas, que costumam ser emolduradas por batidas dançantes, suíngue e forte apelo percussivo.

Lurdez começou a escrevê-las em 1998, quando uma mudança no modelo tradicional do rap americano lhe deu o impulso para se arriscar na música, um velho sonho que acalentava. “Eu tinha vontade de produzir, mas não tinha coragem, porque o meio era muito restrito”, conta. “Quando percebi que estavam falando de outros assuntos no rap underground americano, eu decidi que era o momento de fazer o meu som.”

Em seu primeiro álbum solo, Lurdez canta e ressalta assuntos ligados ao lugar em que nasceu, o bairro da Luz, no Centro de São Paulo – fator de influência até hoje. “A princípio, eu escrevia só para poder fazer uma descrição do meu bairro, que era pobre e decadente”, lembra. “A primeira letra que eu fiz foi exatamente sobre o Centro de São Paulo e os sentimentos que crescer ali me causavam.” A relação com a região também inspirou o ‘sobrenome’ artístico, é claro.

 

No tom da leveza

Apesar da insegurança inicial, depois de cantar com o grupo Mamelo Sound System, ela se lançou em carreira solo com o EP que leva o seu nome. Hoje, esbanja confiança no palco. E mostra que, embora o rap seja um estilo musical mais masculino, nada impede que as mulheres roubem a cena. Mas admite que, para se dar bem, é preciso deixar a meninice de lado.

“Nós (rappers brasileiras) temos uma energia masculina forte. O jeito de cantar é feminino, mas tem de ter uma certa masculinidade na atitude por trás disso. O estilo não é só a roupa, estar de vestidinho no palco, é o jeito de comandar o público”, diz, completando que a escolha dos temas é uma das diferenças marcantes entre eles e elas. “O rap feito por mulheres é menos rua, não fala do universo masculino, mas das emoções.”

Nesse contexto, originalidade e diversão são essenciais. “Os principais nomes da cena feminina estão conseguindo trazer uma sonoridade nova para o hip hop. Nossa musicalidade está mais divertida e menos ortodoxa”, provoca. Ela garante que essas características atraem um público mais abrangente para o estilo. 

Sobre o futuro de sua carreira, Lurdez diz estar bastante determinada em deixar – nada menos – do que a sua marca na música brasileira. “Eu sou muito inquieta artisticamente. Sempre que vejo que o jogo está ganho de uma forma, procuro fazer de outro jeito. Mas eu quero continuar criando uma música relevante e importante artisticamente para o rap nacional.”

 

E o que mais?

Lurdez da Luz faz as suas apostas e comenta o trabalho de outras rappers:

Flora Matos: “Ela tem uma voz impressionante, potente e suas melodias ficam dias na cabeça. É uma estrela, definitivamente.” Com o álbum Flora Matos X Stereodubs, a rapper de Brasília se tornou um dos nomes mais falados
do cenário do hip hop.

Karol Conká: “Ela traz uma leveza, um espírito de diversão que estava faltando no meio do hip hop. Karol é ousada nos beats, carismática. Não há como não se encantar.” A propósito, a artista nasceu e mora em Curitiba: o rap feminino vem de todo o país.

Stefanie RAMOS: “Eu decorei a letra inteira de ‘Minha Parte’, da MC Stefanie. Sempre soube que alguma hora iríamos fazer algo juntas. Quando fui gravar o meu disco, eu a convidei para participar da música ‘Andei’, e fizemos um clássico. Ela é raiz demais.”

Escrito por Louise Solla
 

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