Ser ou não ser?

 Os cover ainda sustentam (muitas) bandas, até as bem-sucedidas com trabalhos autorais

Divulgação
Os pernambucanos do Seu Chico lotam casas com versões de Buarque


Eles têm suas carreiras consolidadas, com público estabelecido e espaço cativo em algumas das principais casas de São Paulo, mas, mesmo assim, muitos músicos e bandas encarnam seus ídolos em projetos-tributo que fazem cada vez mais sucesso na cidade. “Isso sempre foi comum na noite de São Paulo desde os anos 80, o que rola de diferente hoje é que há muito mais bandas autorais bem-sucedidas fazendo isso”, conta Alê Yousseff, proprietário do Studio SP, um dos principais lugares que recebe apresentações do tipo.

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Aliás, o crescimento do número de frequentadores desse gênero de show aumentou tanto que a unidade da casa na Augusta será local apenas para apresentações com até 600 pessoas, deixando para a Vila Madalena – que tem capacidade para 300 – os shows mais autorais. Isso não exclui a apresentação no Centro de artistas com músicas próprias, mas é inegável que os tributos serão maioria.

Um bom exemplo de projeto de sucesso é a banda Seu Chico, reunião de músicos pernambucanos que tocam o repertório de Chico Buarque. “Em nosso primeiro show, a casa em que tocamos lotou e seguimos uma temporada por convite do proprietário. Após três meses, essa mesma pessoa nos chamou para uma conversa e encerrou a temporada por ‘excesso de público’. Isso mesmo, excesso de público!”, lembra o vocalista Tibério Azul. O bar, já pequeno e com palco voltado para a rua, ficou tão lotado que os clientes passaram a ocupar a calçada, depois a rua e a seguir o quarteirão, o que fez o local levar multas da prefeitura. “Após essa estreia, resolvemos oficialmente fundar a banda e seguir atendendo à demanda do mercado, do público e da nossa vontade”, diz.

Os projetos começam sempre como diversão, mas a sobrevivência no mercado musical brasileiro é uma necessidade. “Brasil, né? Contas para pagar! Viver de arte é complicadíssimo por aqui”, diz abertamente Reginaldo Lincoln, baixista do Vanguart, que toca músicas dos Beatles com o nome Vangbeats.

E há quem também use os projetos paralelos como fundo de caixa para suas carreiras autorais. Como é o caso do Del Rey, união de China com a banda Mombojó, que interpreta composições de Roberto e Erasmo Carlos. China explica: “Com a grana que ganhamos no Del Rey, investimos nas nossas carreiras autorais. Se o fã curte o Del Rey, ele acaba indo no meu show e no do Mombojó e comprando nossos discos”. Yousseff concorda com a estratégia e, sem qualquer preconceito, vê nos tributos uma forma legítima de fonte de renda alternativa para os músicos.

Contudo, o aspecto relaxante de tocar sem pressão é outra face da mesma moeda. “Não fazemos isso apenas pelo dinheiro, mas também porque é interessante ver como cada artista constrói seus arranjos, para sair um pouco do nosso repertório e oxigenar. Essas apresentações foram muito positivas para fazer nossos discos”, avalia Pedro Metz, guitarrista e vocalista do Pública, que toca discos inteiros de grupos dos anos 1990, como Blur, Oasis e Radiohead.

E isso não vale apenas para músicos novos: veteranos como Edgard Scandurra – mais conhecido como ex-guitarrista do Ira! e que tem um projeto com músicas do francês Serge Gainsbourg, os Les Provocateurs – também vê os shows com repertório de outros artistas como uma válvula de escape interessante. “A música autoral tem uma carga muito grande de responsabilidade e é bom, vez ou outra, poder se divertir”, acredita.

O fato de tocar músicas de outros artistas não pode acabar interferindo na carreira própria desses músicos? Eles discordam. “De jeito nenhum. Muita gente conheceu o Vanguart pelo Vangbeats. As pessoas veem que apesar de tocarmos canções que não as nossas, ainda assim imprimimos nossa postura, força e personalidade”, opina Lincoln.

Com todas essas benesses econômicas e sociais, porém, os artistas dizem em uníssono que levar suas composições aos palcos é ainda a força que impulsa suas carreiras. Experiente, Scandurra conclui: “São duas emoções diferentes de envolvimento e responsabilidade. Mas o que eu gosto mesmo é de estar com uma guitarra em punho e fazer um som”.

 

O início de tudo

Conheça – por meio de seus integrantes – as histórias de como começaram os tributos

China, do Del Rey “Uma amiga me pediu para indicar uma banda para tocar em sua festa de aniversário. Eu disse que tinha um grupo que só tocava Roberto Carlos, mas era mentira. Nessa época, eu e os caras do Mombojó estávamos muito próximos, compondo todos os dias. Então, eu fiz a proposta a eles e assim nasceu o Del Rey.”

Edgard Scandurra, do Les Provocateurs “Eu gostava do Serge [Gainsbourg] desde criança. Me lembro de ‘Je t’aime, moi non plus’ e o efeito provocador que ela causava pelos gemidos da Jane Birkin.”

Pedro MEtz, do Pública “Estamos com dez anos de banda e poucas vezes em nossa trajetória tocamos músicas de outros artistas. Deu vontade e, ao invés de simplesmente escolher faixas, começamos a tocar discos na íntegra como uma homenagem a bandas que nos inpiraram.”

Reginaldo Lincoln, do Vanguart “O Vangbeats surgiu no final de 2009 no aniversário do Hélio [Flanders, vocal e violão]. Decidimos comemorar com um show e enquanto pensávamos no que tocar, os Beatles foram a escolha mais natural.”

Tiberio Azul, do Seu Chico “A Seu Chico surgiu de forma espontânea. Era um grupo de amigos que queria experimentar, ousar e rir bastante no palco e elegeu as canções do mestre Buarque como bússola.”

Escrito por Rafael Argemon
 

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