Time Out São Paulo

Entrevista: Beth Ditto

 A líder do Gossip fala sobre o álbum 'A Joyful Noise', que a banda mostra no Planeta Terra

Para uma banda que já dura mais do que os Beatles, estava na hora de o Gossip (que toca no Planeta Terra. Leia mais sobre o festival aqui) começar a colher as recompensas por sua inimitável qualidade cool. Seu álbum de 2009 Music for Men, produzido por Rick Rubin, foi bem, mas não chegou nem perto do sucesso estrondoso que o produtor conquistou com 21, de Adele. Com isso, não deveria surpreender a mudança de rumo de Beth Ditto e companhia, trilhando uma rota mais pop.

O quinto álbum A Joyful Noise (Sony Music, lançado no começo deste ano) é mais propenso à lista de mais vendidos – muito graças ao produtor-papa-do-British-pop Brian Higgins. As letras emblemáticas para gritar junto e os temas sexuais e políticos se foram, dando lugar a um pulsante estilo disco pop – com uma pegada de house tradicional que marcou grande parte do EP solo que ela gravou em 2011 com o duo inglês de música eletrônica Simian Mobile Disco. A sonoridade ainda é característica do Gossip, graças à inconfundível voz cheia de oitavas e trovões de Ditto, porém em versão 3.0: mais petulante e voltada para o sucesso comercial. Mas ela diz que as raízes rebeldes não foram esquecidas.

Há muitas canções sobre corações partidos no novo disco. Você acha difícil escrever músicas alegres?
Não acho difícil, só acho mais natural, para mim, escrever uma canção assim – não sei por quê. O que aconteceu foi que meu pai morreu enquanto fazíamos este álbum, e pouco antes de eu e meu parceiro de quase nove anos [Freddie Fagula] nos separarmos. Por isso, havia muita tristeza no ar. Mas também havia muita força – sempre há um lado ensolarado.

Como você lidou com isso?
Foi tão horrível e, de fato, inesperado – meu pai tinha apenas 57 anos. Eu estava em Londres, realmente muito longe da minha família, e tive que tirar duas semanas de folga, ir para casa e ajudar nos preparativos do funeral. Mas estávamos bem no meio de composição do disco e tive que continuar. Tive que deixar o luto em segundo plano, então, sinto que ainda estou lidando com isso.

A banda deve ter te confortado bastante. Qual é o segredo para ficarem juntos por tanto tempo?
Treze anos! Conheço Nathan [Howdeshell, guitarrista] desde que éramos crianças no Arkansas. O segredo é não deixar que besteiras atrapalhem. Quando você conhece alguém desde a época mais nerd de sua vida, não há nada mais pé no chão do que isso. Não tem ego.

Você tinha qualquer reserva em trabalhar com Brian Higgins?
Não, nenhum pouco. Richard Mortimer [promoter de festas] nos apresentou em Londres e disse: “Vocês deveriam fazer algo juntos”. Então fomos ao estúdio dele e compusemos algumas músicas. Foi por impulso e não esperávamos nada demais, mas foi tão incrível e simples. Então, quando começamos a procurar alguém para produzir o novo disco do Gossip, caiu como uma luva.

Você tem a sensação de que há muita pornografia no pop atualmente?
Há muita pornografia no pop, é verdade, mas realmente não penso sobre isso. Se algo não me interessa de verdade, eu simplesmente não presto atenção. Mas tem muita coisa legal acontecendo. Lady Gaga é tão boa – porque [o que ela faz] é incrivelmente não sexual. Diga o que quiser sobre ela, mas minha sobrinha de 5 anos a adora, o que acho legal. Não importa o que pensemos, a música de Gaga dialoga com ela.

Você vem de um background punk feminista, mas cantoras pop comerciais muitas vezes contrariam esses ideais. Você às vezes luta com sua consciência?
Acho que é exatamente isso o que propunha o Riot Grrrl [movimento feminista de punk rock que começou nos Estados Unidos nos anos 1990]. Nada disso seria possível sem o Riot Grrrl. The XX não existiria, Florence And The Machine não existiria, até mesmo Adele não existiria sem esse movimento. Ele pavimentou o caminho para que mulheres genuínas ganhassem força e tivessem um lugar na cultura pop. Não teríamos feito nenhum progresso se ainda fôssemos uma banda punk tocando para exatamente o mesmo público. Isso não é mudança, isso é ensinar a missa ao vigário.

Então o Gossip finalmente encontrou a sua identidade, como uma banda pop?
Acho que jamais encontraremos nossa identidade: é parte de nossa identidade sermos o que parece bom no momento. Penso que isso faz parte do segredo de nossa longevidade, estamos dispostos a ir com o fluxo. Somos ótimos em lidar com adversidades porque somos abertos a tudo e não sabemos como será um álbum antes de ele estar pronto. É por isso que gosto de fazer shows, porque tudo pode acontecer a qualquer momento.

É nesses momentos que você se sente mais espontânea? Quando está no palco?
Sim, ou em qualquer momento. Consigo ser espontânea. No palco, não quero saber o repertório, não quero saber qual é a próxima música. Só quero estar lá no momento. Mesmo no estúdio, eu entro e penso: ‘Hm, o que faremos hoje?’. Não saber é minha coisa favorita. Isso leva algumas pessoas à loucura, e eu entendo isso – parece muita desorganização –, mas mantém as coisas interessantes para mim.

Escrito por Kate Hutchinson
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