Time Out São Paulo

Entrevista: Tears for Fears

O baixista e vocalista do Tears for Fears, Curt Smith, diz que a música do duo ultrapassa os 1980. Os fãs poderão tirar suas conclusões no show em São Paulo, no dia 22 de novembro


O inglês Curt Smith surpreende ao mencionar o programa de TV American Idol, enquanto conversamos por telefone – ele está em Los Angeles, a cidade que adotou. “Houve algumas boas apresentações que vi na primeira hora. Na verdade, iremos [ao programa] amanhã. Levarei meus filhos”, diz. “Eles não se impressionam com o que faço para ganhar a vida, a não ser pelo fato de que posso levá-los ao American Idol.”

Com grandes sucessos, como ‘Shout’, ‘Everybody Wants to Rule the World’ e ‘Sowing the Seeds of Love’, Smith e Roland Orzabal dominaram as paradas de sucesso dos anos 1980, colocando o nome da dupla nos holofotes de todo o mundo. Ou melhor, com exceção da terra-mãe de ambos, a Inglaterra.

Quase 30 anos depois, seus próprios descendentes não entendem direito. Mas, como Smith mesmo diz, a música do Tears for Fears – com temas sinceros e emotivos, refrões que grudavam e batidas sintéticas – ainda conversa com os jovens. “Temos um público jovem bem grande. Uma porção de pessoas de 18 a 20 anos adora The Hurting [álbum de estreia da banda], muito embora ele tenha sido lançado bem antes de nascerem”, conta Smith. “É um tanto fascinante.”

Sem dúvida, muitos foram atraídos para a música de décadas atrás do duo pelas mãos do cantor americano Gary Jules, cuja versão da composição do Tears for Fears ‘Mad World’, de 2003, apareceu na trilha sonora do filme Donnie Darko (2001) e decolou nas paradas de sucesso do Reino Unido.

“É muito típico da Inglaterra ter, no Natal, um single número 1 tão deprimente”, brinca o afável Smith. O sucesso estrondoso do cover de Jules pode ter sido elemento importante na apresentação da música do Tears for Fears para o público jovem. Mas, além disso, há também um outro pequeno detalhe: o som dos anos 1980 voltou ao centro das modas sonoras. De obscuros e vanguardistas samples ao pop puro e imaculado, os artistas contemporâneos se apoderaram de sintetizadores retrô, de influências da new wave e batidas eletrônicas – elementos de uma década ao mesmo tempo ridicularizada e celebrada, que impregnam tanto os lançamentos atuais como os hits da dupla.

Mas Smith é rápido em afirmar que o grupo não é apenas uma banda dos anos 1980. “Embora eu já esteja quase acostumado [com o rótulo de música dos anos 1980], fizemos música nos anos 1970, 1980 e 1990, e agora, nos anos 2000”, diz. “Não acho que tenhamos ficado presos a uma década. Fazemos música em muito mais anos que isso.”

Claro, também houve o período em que eles não fizeram música juntos. Em 1991, a dupla teve uma separação nada amigável e pouco se falou durante dez anos. Mas, em vez de guardar mágoa em relação à separação no auge da fama, Smith agora tem um olhar filosófico sobre o passado. “Na época, foi um término meio raivoso, mas acho que só precisávamos dar um tempo um do outro. Em retrospecto, acho que foi muito saudável”, comenta.

Nos anos 2000, os dois por fim se reconciliaram e se uniram novamente, voltando ao estúdio e descobrindo que ainda havia inspiração. “Achamos que faríamos apenas uma tentativa de gravar uma música e falamos: ‘Meu deus, isso é bom’. Então continuamos e fizemos um álbum que ambos adoramos e apreciamos até hoje.”

Esse álbum foi Everybody Loves a Happy Ending, de 2004, alinhado não tanto aos dias do synth pop, mas sim a uma atmosfera Beatles – da qual chegaram perto em ‘Sowing the Seeds of Love’.

“Esse tipo de música está em nós, mas nunca a concluímos. Portanto, achamos que o álbum Everybody Loves a Happy Ending [todo mundo adora um final feliz] seria a conclusão de uma obra”, conta. “Musical, pessoal e emocionalmente, tínhamos questões pendentes.”

Com uma conclusão tão poética, é válido perguntar se haverá outro álbum após esse final feliz. “Podemos muito bem fazer outro disco assim que a indústria musical se resolver”, afirma ele, acrescentando depois outras restrições. “Precisaríamos estar juntos, gastar um longo período escrevendo, o que pode ou não acontecer”, explica.

Com tantos ‘ses’, é possível que o show de São Paulo seja sua rara oportunidade de vê-los e, por que não?, voltar às paragens sonoras dos 1980 e ouvir o repertório mais recente.
 

Escrito por Mark Tjhung
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