Entrevista: Osvaldinho da Cuíca

O instrumentista Osvaldinho da Cuíca conversou conosco sobre suas pesquisas, pretensões dos acadêmicos e a alma do samba  

Divulgação


Osvaldinho da Cuíca
, de 73 anos, nasceu e cresceu na região do Tucuruvi, na Zona Norte de São Paulo. Iniciado no samba durante a adolescência, ele se tornou músico profissional em 1955 e gravou com uma extensa lista de bambas, que inclui Adoniran Barbosa, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Geraldo Filme, Germano Mathias, Cartola, Beth Carvalho, D. Ivone Lara, Toquinho e Vinicius de Moraes, além de ter integrado o grupo Demônios da Garoa durante 15 anos.

Testemunha e um dos protagonistas dos anos de transformação do samba paulista e brasileiro, ele é constantemente procurado para colaborar com projetos de resgate da memória do gênero. Em 2009, suas valiosas memórias sobre o samba transformaram-se em livro, em uma parceria com o pesquisador André Domingues no volume Batuqueiros da Pauliceia (Ed. Barcarolla).

Versátil, em 2012 ele esteve em cartaz como coautor e personagem do espetáculo História do Samba Paulista, no qual contava a trajetória musical da cidade de São Paulo com canções e bate-papo, ao lado do sambista Germano Mathias. Como se não bastasse, ele é membro-fundador da Ala dos Compositores da Vai-Vai. Ele é ainda o autor do samba ‘Vai Vai Corinthians’, de 1974, usado pelo bloco carnavalesco Gaviões da Fiel dois anos depois, quando foi campeão no Desfile de Blocos.

Como foram as pesquisas para o livro Batuques da Paulicéia?
Foi baseado em meu conhecimento e no do André Domingues, que é muito interessado na música popular brasileira. É uma somatória, evidentemente. Eu estou há quase 60 anos no samba. Eu sempre leio revistas, jornais velhos... Fiz pesquisa durante o espetáculo História do Samba Paulista e quando fiz o filme do Geraldo Filme [Geraldo Filme e o Samba Paulista, de 1998].

Durante suas últimas pesquisas e conversas com amigos e pesquisadores, você ainda se surpreende com novas informações sobre a história do samba?
Eu me surpreendo com as mentiras que surgem, até de acadêmicos. Eu não posso ser conduzido por quem sabe menos do que eu. Como o próprio Ricardo Cravo Albin. Ele pega informação de acadêmico e a informação vem toda errada. Ou quando dizem que o Francisco Paulo Gallo é fundador do Demônios da Garoa. Não tem nada a ver. Me surpreendem as informações desse monte de vigarista que está se formando e pós-graduando, eles querem ter mais razão do que a verdadeira história. Eu sou parte da história. Eu não fui buscar no computador ou na academia. Eu faço pesquisa, me ajuda a reforçar o meu conhecimento, mas eu vivenciei a transformação do samba. Eu gravei com Ismael Silva. Tenho uma informação da MPB e do samba bem diversificada. Ela não tem foco apenas em escolas de samba.

Como você vê os movimentos de militância e resistência do samba em São Paulo?
Eu gosto de ver uma juventude com trabalho sério. O Samba da Vela, por exemplo, não é o mais antigo. Mas é referência, é criativo.

O samba é a manifestação popular genuína da cidade de São Paulo?
Não só da cidade. É do país. Frank Sinatra gravou ‘Garota de Ipanema’, não importa se é bossa nova ou bossa velha.

Qual a importância do samba como manifestação das classes mais desfavorecidas?
O samba sempre foi o porta-voz dos mais oprimidos. Fala do deus e do diabo, do bem e do mal. Ele está sempre se manifestando. O samba e as marchinhas de Carnaval foram os pioneiros nessas coisas de criticar e elogiar. É uma manifestação além da alegria, do corriqueiro, do vulgar. No meu novo CD [Osvaldinho da Cuíca - 70 Anos, de 2010], na segunda faixa, ‘Vai Haver Temporal’, que é um samba rock, eu canto: “Está tudo legal?/Amanhã é que vem a tristeza do pobre no jornal. /É favela/ Na periferia no morro ou na beira do Rio/ É favela/ Novela que nunca se acaba no Brasil”. O samba sempre foi um grito dos desesperados, um grito do sufoco e de alegria.

Onde ainda é possível escutar o samba paulista original?
O samba-rural acabou. Às vezes tem a Dona Maria Esther do samba de Pirapora. Ela está com mais de 80 anos. É o único registro vivo que temos do samba novo de Pirapora, do samba de Honorato de Missé, que nasceu em 1901 ou 1903, e morreu em 1964, em São Paulo. Mas é o samba novo, porque o samba do preto de Pirapora era muito mais antigo.

Escrito por Márcio Cruz
 

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