Entrevista: Grizzly Bear

O grupo de Nova York conversou conosco sobre casamento, composição democrática e desafios do último álbum

Divulgação
Depois de um hiato de três anos, o grupo se refugiou no Texas para se (re)conhecer


Urso polar. Urso Panda [Panda Bear]. Pense em qualquer tipo de urso, e com certeza encontrará uma banda em alta nos blogs, batizada em homenagem à nova-iorquina Grizzly Bear [urso pardo] – que faz sua primeira apresentação em São Paulo no festival Popload Gig, em 3/2, no Cine Joia (leia mais sobre o show aqui). Eles mostram o mais recente álbum, Shields, que marcou o retorno depois de uma hibernação voluntária.

Com o disco anterior Veckatimest, de 2009, eles ganharam o respaldo de muitos críticos americanos. Tiveram o apoio do Radiohead, foram convidados para participar do filme melodramático Namorados para Sempre, com Ryan Gosling. E depois excursionaram incansavelmente durante dois anos, apresentando o indie-folk intenso e barroco que, de forma rápida e surpreendente, virou sucesso no final dos anos 2000.

Shields é o primeiro que não tem a predominância de composições do vocalista e multi-instrumentista Ed Droste, o frontman. Em vez disso, os créditos de autoria são divididos entre os quatro integrantes. Musicalmente, o registro não traz grandes novidades – porém tem belas melodias e explode com algo que soa como uma profunda desilusão amorosa.

“Não, não foi uma questão de coração partido”, insiste Droste, que, em seu ano longe da banda antes da gravação de Shields, casou-se com seu namorado de longa data e fez uma longa e romântica viagem pelo Sudeste Asiático. “[O disco] é sobre negociar os espaços entre encontrar alguém com quem você deseja estar o tempo inteiro, entre querer seu próprio espaço e entre o maior medo de ficar sozinho.” O que costumam dizer justamente a propósito do casamento – mas Droste já mudou de assunto. “Nós quatro temos personalidades fortes, e a banda é uma democracia. Este álbum foi mais colaborativo porque amadurecemos, resolvemos nossos problemas, passamos tudo a limpo.”

Se houve alguma briga feia, Droste e seu colega de banda, o baterista Chris Bear, optaram por diplomaticamente desconsiderá-la. “Não houve drama nem loucura, só não era uma prioridade sair e jantar juntos toda semana”, afirma Bear, sentado ao lado de Droste. “Fazer parte de uma banda é uma coisa esquisita”, diz, encolhendo os ombros. “Vocês são amigos e se importam um com o outro, mas também é uma relação de trabalho.”

Essa revelação não é tão rock’n’roll, mas o Grizzly Bear é o porta-bandeira de um tipo de rock sensível, cerebral e geek, que furtivamente tirou a atenção dos críticos das guitar bands mais jovens e tolinhas nos últimos anos – uma mudança que tem recebido considerável auxílio da internet. “Temos uma relação de amor e ódio com a web”, diz Droste.

Poucos dias antes de nos encontrarmos em um pub de Londres, o Grizzly Bear foi acusado de reclamar do Spotify [aplicativo de reprodução de música] no Twitter. “É bom para ter exposição, mas, após tocarmos cerca de 10 mil vezes, recebemos aproximadamente 10 dólares. Pelo menos as rádios e casas de show olham para as contas no Youtube. Com o Spotify, não é nada”, resume Droste. O comentário, aliás, é muito elucidativo, uma vez que o Spotify supostamente é um serviço legal e pago que ajuda os artistas, enquanto o Youtube é gratuito, visto como o ‘inimigo diabólico’ que engole potenciais lucros.

O mundo selvagem parece ser um abrigo para essa banda ao invés da miríade de tentações de Nova York. “Marfa é uma verdadeira cidade desértica, no meio do nada”, conta Bear, entusiasmado com seu remoto refúgio texano favorito (população de menos de 2 mil habitantes). Perto da fronteira com o México, foi nessa cidade que o grupo se reuniu novamente. Eles colocaram o papo em dia, cozinharam, nadaram e começaram a trabalhar em Shields. “Gravamos material suficiente para um álbum lá, mas não usamos quase nada”, admite Droste, explicando que a viagem foi necessária para que a banda pudesse “dar um tempo e se conhecer novamente”.

“Chegamos em um ponto em que todos [na banda] estão animados com o álbum. Provavelmente, sempre teremos uma situação como a de Marfa, em que temos de passar por isso para fazer algo novo”, conclui. A banda parece bem confortável no momento. Mas – como nas melhores histórias de amor – separar-se e reatar é o que torna tudo mais interessante.

Escrito por Nosheen Iqbal
 

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