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David Bowie – resenha do álbum 'The Next Day'

Deveríamos estar surpresos porque David Bowie fez um álbum excelente? Provavelmente não


A primeira surpresa foi imbatível. Ausente na Cerimônia Olímpica, ausente em sua própria retrospectiva no Victoria and Albert Museum, e mais importante, ausente das paradas de álbuns por dez longos anos, David Bowie reapareceu no início de 2013 com a comovente balada ‘Where Are We Now?’. Você está pronto para a próxima surpresa? A balada pode ser a música mais fraca do álbum.

The Next Day é um álbum brilhante de rock. É inteligente, memorável e até mesmo um pouco provocativo. Dada a falta de verdadeiros talentos no meio do rock atualmente, é muito provável que você ouça o seu solo de guitarra favorito do ano neste LP - para não mencionar as letras profundas, as melhores mudanças de acordes e os refrões mais cativantes. Que seu estilo pode acabar com a escassa concorrência que Bowie encontra em 2013, não é nenhuma surpresa. Ele derrotou seus imitadores ao longo das décadas, de Slade a Suede. O mais importante, porém, é que The Next Day se mantém firme mesmo quando comparado com o próprio repertório excepcional de Bowie. Por si só, esse fato torna o álbum de cinco estrelas.

Desde o solo de bateria que introduz a primeira faixa, homônima ao CD, Bowie parece vivo e vigoroso, enquanto ele canta com um ritmo irregular que remete ao começo do Talking Heads, como quem diz: "Aqui estou, não estou morrendo". É verdade, ao contrário da especulação. Ele felizmente não está embrulhado nas armadilhas de uma nostalgia de si mesmo  como as recordações de Berlim na faixa 'Where Are We Now?' sugeriam. Aos 66 anos, Bowie de alguma forma ainda é capaz de abrir novos caminhos em uma carreira na qual já ultrapassou todos os limites imagináveis. Um excelente exemplo disso é ‘If You Can See Me’  um expansivo, e ácido rock, comparável à música do The Who ‘I Can See for Miles’, se tivesse sido feita pelo Battles (grupo experimental de Nova York). ‘How Does The Grass Grow’ é outra novidade  onde Bowie, estranhamente mas com consciência, canta o hit ‘Apache’, do álbum The Shadows, de 1960, como parte do coro.

Não que o mestre precise de ajuda para escrever refrões. Se há algo que prende a atenção ao longo das 14 canções é o talento de Bowie para criar coros. Enquanto muitas das composições modernas são escritas para montar imutáveis 'loops', o retorno de Bowie nos lembra que grandes canções pop devem ir a algum lugar. Seu talento em compor está na delicada 'Dirty Boys' (ouça o sax), na faixa com um quê de Morrissey 'The Stars (Are Out Tonight)’e na tórrida ‘(You Will) Set the World on Fire’  que começa com um solo de guitarra à White Stripes  antes de elegantemente introduzir os refrões.

Bowie fez o mundo parar depois de apresentar ‘Where Are They Now?’ em um dia qualquer de janeiro. Uma balada perfeita, digna de ser comparada à ‘The Prettiest Star’ e à ‘Drive-In Saturday’ (do álbum Aladdin Sane) é simplesmente uma das músicas de rock mais afetuosas e quentes dos últimos anos – até mesmo o produtor Tony Visconti acha que é sobre um garoto homicida. O fato de que ele não tenha certeza mostra o quanto a letra é vaga, mas fique tranquilo, ouça sem parar e você será recompensado.

De resto, ‘You Feel So Lonely You Could Die’ pode ser a melhor imitação de ‘Rock and Roll Suicide’, do álbum Ziggy Stardust, que ouvimos desde ‘New York, I Love You But You’re Bringing Me Down’. Enquanto a última faixa do disco, ‘Heat’, segue a pista do 'industrial noir'  - com Bowie baixando o seu tom para um barítono profundo.

Devemos estar surpresos por David Bowie ter feito um álbum excelente? Em retrospectiva, provavelmente não. Nós apenas não estávamos esperando uma volta tão rica de nosso herói ausente. The Next Day é um tesouro. 

Ouça o álbum em http://itunes.com/davidbowie

Escrito por Oliver Keens
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